Feicibuque, Sexo e Censura



A primeira imagem foi uma foto clássica do século 20, muito conhecida e publicada várias vezes inclusive no Facebook. Em 1974, durante uma aula de fotografia e erotismo ministrada por Imogen Cunningham, a aluna Judy Dater focaliza a professora junto da modelo nua Twinka Thiebaud. Milhares de definições e interpretações e histórias são possíveis e foram feitas a partir desta fotografia, das mais cruas às bizarras, inclusive místicas, o que só prova que ela comporta inúmeras camadas. Prefiro a primeira sensação que eu tive: a brincadeira, a ironia, o bom humor tirado do constraste entre as duas mulheres, entre o nu e o recato, entre a liberdade e a contenção. Praticamente um comentário sobre a reação das pessoas em geral ao erotismo.

A segunda imagem que tive censurada no Feicibuque foi a que apresentei para o Dia do Nu organizado pelo poeta Claudio Daniel: uma cena do filme ‘Don Juan ou Si Don Juan était une femme…’, com Brigitte Bardot e Jane Birkin, ícones e musas do cinema e da beleza feminina, deitadas juntas completamente à vontade. Para amenizar o preto-e-branco da imagem original que eu tinha, acrescentei um tom azulado fazendo com que, na minha opinião, a imagem ficasse ainda mais bonita e delicada, suave, sem nenhuma agressividade.

Logo em seguida, outra cena de filme apagada sem apelação e que me proporcionou mais alguns dias de ‘castigo’. De ‘L’Apollonide – Souvenirs de la maison close’, vê-se várias mulheres se arrumando, trocando de roupa, em um cenário do que parece ser um casarão vitoriano. A iluminação pastel, os corpos lânguidos e sem pressa, remetem diretamente à imagens de quadros do final do século 19, o que foi a óbvia intenção do diretor do filme, com belo resultado.

Há dois pontos principais a se tirar dessa lógica censitória exercida pelo Feici: um matemático e um social, que refletem não somente as idiossincracias de um milionário garoto norte-americano (até há pouco tempo) bastante virgem, mas igualmente as da sociedade em que vivemos. E os dois pontos dão medo.

O matemático tem a ver com o desenvolvimento da tecnologia, com o reconhecimento eletrônico de imagens por dados de computador que possibilita, por exemplo, mais rapidez e eficiência no reconhecimento de pessoas em documentos oficiais, ou a busca de detalhes e melhor organização de arquivos imagéticos. Já é possível fazer uma programação onde se lance um dado específico (imagens de seios ou pênis, por exemplo) e rastrear tudo o que relacione ou se assemelhe. Embora ainda não funcione com toda a potencialidade que se deseja (principalmente com base de dados tão extensa e pesada como a proporcionada pelos usuários feicibuqueanos), mesmo assim já possibilita a existência de sites que fazem busca de imagens pela web do mesmo modo como o google o faz através de palavras.

O social é mais preocupante. Porque estamos falando de uma sociedade que está sabendo mexer com altas e refinadas tecnologias científicas e possui, ao mesmo tempo, uma mentalidade moral e psicológica da Idade Média. Que tem medo da palavra Corpo e do que ela implica. Que concebe os mais avançados e práticos modelos de roupas e uniformes para todos os esportes olímpicos, mas não tem certeza se permite a participação de mulheres no Atletismo ou nadadoras de maiô (ou somente se estiverem de burca). Que amarga centenas, milhares de anos, de repressão religiosa e regimes políticos intolerantes fazendo com que os traumas e os recalques acumulados por tanto tempo explodam continuamente; observamos isso a todo momento e, pior, sem solução de continuidade à vista. Uma sociedade que planeja e organiza ir à Marte e ainda não sabe lidar com o orgasmo feminino.

Estamos no século 21 e o Nu ainda é encarado com constrangimento, com falta de sentido, como provocação. Como Imoralidade.

A contradição hipócrita moralista de uma sociedade doente e recalcada é ainda mais chocante (exposta e visível) em um ambiente tão pretensamente livre como as redes sociais da web. Pois os algoritmos matemáticos e o preconceito são cegos e burros e não distinguem Seios ou Sexo como Pornografia da Arte ou da expressão livre do ser humano. São Seios. E Sexo. E para o recalcado moralista com traumas mentais escondidos é tudo feio, inumano, deve ser proibido e censurado pois, já que eles não o praticam, ninguém mais deve praticar.

 

 

texto integral, publicado pela revista eletrônica de poesia e debates, ZUNÁI, capitaneada por Claudio Daniel, para um especial de discussão sobre a censura ao Nu no Facebook. O especial ( “A Beleza será convulsiva – A Subversão da nudez no Facebook“), organizado pela poeta Célia Musilli, reuniu textos e depoimentos de alguns dos usuários que passaram pela decepcionante situação de verem suas imagens postadas (tantas de cunho artístico e erótico) censuradas, bloqueadas, e ‘castigadas’ com a ameaça de novos bloqueios e, quem sabe, até a desativação da conta. A abertura do espaço proporcionado por Claudio Daniel e a excelente organização da Célia Musilli tornam ainda mais honrosa a publicação de um texto meu na bela revista ZUNÁI.

 

 

 

 

 

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