A Mulher de 30 Anos de Balzac

 

O ego de Honoré de Balzac era enorme e suas pretensões também. Começando pelo próprio nome: o “de” indica nobreza e foi colocado por ele mesmo. Filho de família modesta, no interior da França, era uma posição a qual nunca teve direito e nunca conseguiu alcança-la, apesar de todos os seus esforços, mas nunca renunciou ao “de”.

Era teimoso, de convicções obstinadas. Desde cedo, decidiu que seria um escritor tão poderoso escritor e faria tanto sucesso que tomaria a França da mesma forma como Napoleão. A única diferença seria pelas armas utilizadas: Napoleão, pelas armas; Balzac, pela pena.

Sua família ficou perplexa. Não era para menos: ele nunca havia se destacado na escola, nunca escrevera algo reconhecido, seus maiores estudos tinham se limitado ao Direito, a qual lhe daria um trabalho decente e uma boa remuneração. Do que precisava mais? Fizeram um acordo: durante um ano, lhe mandariam uma mesada para sobreviver em Paris para escrever. Pelo resultado, decidiriam se ele realmente tinha razão.

Este resultado foi uma peça, uma tragédia histórica chamada “Cromwell”. Não existem resquícios desse texto. Foi rasgada e esquecida. Foi um fracasso para todos que a leram e convenceu sua família de que ele deveria desistir de uma vez com essa loucura.

Balzac reconheceu a derrota nesta batalha. Percebeu que o teatro não fora sua melhor escolha e ainda precisava se aperfeiçoar muito para chegar ao nível de excelência que almejava. Continuou em Paris, agora sem a ajuda paterna, e para se manter começou a escrever novelas fantásticas para jornais. Era uma subliteratura, descartável e esquecível; serviu somente para que Balzac construísse uma disciplina própria, treinasse a escrita e não morresse de fome. Para não se manchar com esses escritos, assinou com vários pseudônimos. Mesmo nessa época, algumas características do futuro clássico já estavam presentes: um ritmo de trabalho alucinado, verdadeira produção industrial, e uma imaginação fértil.

Quando sentiu que estava pronto, abandonou essa subliteratura, começou a assinar com seu próprio nome. E não parou mais de escrever clássicos.

A diferença destas duas fases é estonteante. De um lado, um escrevinhador que vomitava textos ínfimos, de uma nulidade absoluta, puramente por dinheiro. Do outro, um autor com uma densidade e uma pureza artística que nunca foi maculada pela sua aspiração à nobreza, por reconhecimento ou dinheiro. A ascensão do “novo” Balzac foi fulminante.

Está certo que no começo foi devido ao escândalo: ele conseguia causar sensação. Seu primeiro livro “sério” (“Chouans”) era uma imitação do grande sucesso editorial da época, Walter Scott e o seguinte, “Fisiologia do Casamento” primava pelo cinismo, a sátira pesada e a discussão de temas tabus. No entanto, nada que lembre sua antiga produção. Mesmo que estes dois primeiros livros não tenham a mesma qualidade de obras posteriores, até hoje possuem uma frescura e uma densidade ímpar. Sua tentativa de imitação de Scott não deu certo simplesmente porque Balzac já possuía uma identidade e uma escrita própria e personalista que não foi mais abandonada e cujo correr do tempo só fez aumentar e destacar a importância.

O ritmo, a dedicação e a seriedade para com sua literatura eram impressionantes. Escrevia e reescrevia vários rascunhos. Oito, nove, dez, doze vezes. O livro inteiro. Seu desespero pelo melhor fazia com que paralisasse a gráfica enquanto o livro já estava sendo impresso. Isso para a primeira edição. Toda reedição merecia ser reescrita outras duas, três, cinco, dez vezes. Se pensarmos que, quando Balzac morreu, deixou uma obra que abrangia 95 romances, fora as peças de teatro, ensaios e artigos de jornal e lembrarmos que para todos eles o tratamento era o mesmo, podemos ficar espantados com toda a justeza. E ainda precisamos lembrar que ele possuía uma imensa atividade social, teve várias amantes, tentou carreira política, viajou por vários países … A racionalidade é pouca para entender tal gênio.

Ele conseguiu o seu intento. Tomou a França e a conquistou. Montou um painel desta sociedade que estonteia pela amplidão. Em um determinado momento, percebeu que estava, na prática, refletindo a realidade de todo um momento histórico. Mais do que um romancista, decidiu ser um Historiador, um Cientista Social. Todos os seus livros fariam parte de uma mesma e única obra. Haveria um fluxo de personagens de um livro para o outro, uma hora mostrando sua velhice, outra hora o início de sua vida e carreira. Seria a França em sua totalidade, com todas as suas idiossincrasias, seus tipos particulares, sua História, Economia, ambições, maldades, etc. Já estava superando Napoleão; superaria agora o próprio Registro Civil.

Esta obra é a Comédia Humana, constituída por dezessete volumes, mais de oitenta obras entre romances e contos. Personagens que cativam e marcam nossa memória: o jovem estudante Rastignac que deixa de lado seus escrúpulos morais para ascender socialmente (que serviu, mais tarde, como modelo para Dostoievski criar o seu Raskólhnikov, em “Crime e Castigo”); o grande Papai Goriot que sacrifica sua vida pela felicidade das filhas; o judeu Gobsek; a infeliz menina Pierrete e etc, etc. Não cabem nesta resenha. Entre tantos estudos sobre a vida e obra de Balzac, existe um dicionário somente para os personagens da Comédia Humana.

“A Mulher de Trinta Anos”. Esta é, sem dúvida, sua obra mais famosa. Impregnou tanto o imaginário ocidental que muitas pessoas que nunca sequer ouviram falar do escritor francês e nem tem idéia de sua procedência, conhecem a expressão “mulher balzaquiana”. O choque provocado em sua primeira publicação foi bem considerável. Pela primeira vez, um escritor valorizava os pensamentos e desejos de mulheres maduras, prestava atenção em suas angústias, reinvidicava o direito delas serem felizes, bonitas e sensuais e discutia de maneira franca e objetiva os problemas íntimos de casamentos fracassados. Foi um sucesso mesclado com escândalo e comoção social, cujos reflexos chegam até os dias de hoje.

No entanto, literariamente, “A Mulher de Trinta Anos” é uma de suas obras mais fracas, com péssimo desenvolvimento narrativo, personagens frágeis cujas personalidades se contradizem em várias cenas, uma escrita frouxa e mal acabada. Quem começar a conhecer Balzac através deste livro por causa de sua fama, provavelmente se decepcionará e não terá uma idéia precisa do brilho do restante de sua obra.

Na verdade, o livro é a junção de vários contos independentes e escritos em separado que sofreram algumas modificações mínimas, como a troca dos nomes dos personagens, por exemplo, no esforço para constituir um romance único que coubesse dentro da saga maior da “Comédia Humana”. Por isso, momentos brilhantes alternam com outros, baixos, quase constrangedores e personagens agem em contraste absoluto com atitudes anteriores. Sem dúvida, Balzac apararia estas arestas e as ligações ficariam melhor combinadas, mas morreu com apenas 51 anos, completamente esgotado, e com a arquitetura de sua “Comédia”, incompleta.

Muito melhor é conhecer Balzac pelo seus picos: “Ilusões Perdidas”. Ou “Eugenie Grandet”. Ou “Pai Goriot”. Ou até mesmo outros não tão conhecidos (injustamente), melhores (muito melhores!) do que “A Mulher de Trinta Anos”, como “Gobsek”, “Pierret”, “Coronel Chabert”, “A Prima Bete”, “A Casa Nucingen”… Alternativas realmente não faltam.

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2 Comentários em “A Mulher de 30 Anos de Balzac”


  1. Realmente , depois de ler a resenha , mudei de ideia e não vou ler Mulher de Trinta Anos neste momento, vou me aventurar pela “A prima Bete”.

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    • Claudinei Vieira Says:

      Na minha opinião, excelente escolha, Lu. Sou meio suspeito para falar, pois amo os livros de Balzac, e alguns eu verdadeiramente idolatro. ‘Prima Bete’ é um dos que eu mais gosto. Espero que você curta também.

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