CAT PEOPLE: Sexo, Poder, Morte, e Medo do homem diante do desejo feminino em dois filmes de terror e erotismo


Em 1942, Irena, uma jovem e bela sérvia, trabalha em Nova York como modista e se apaixona e se casa com um norte-americano. Não é um relacionamento tranquilo, pois ela teme carregar uma maldição em sua família: ela acredita que descende de uma raça de mulheres-panteras que se transformam em animais selvagens (literalmente) quando estão em algum apogeu de grande emoção e / ou quando fazem sexo. Irena sente (ou imagina) que o pior vai acontecer, pois percebe que está com ciúmes violentos de uma amiga do seu marido e teme que ela sofra algum ataque seu quando estiver transformada. Preocupado, o marido cuida para que ela vá se tratar com um psiquiatra.

Roteiro enxutíssimo, quase nenhum efeito especial, trabalhando com jogos de câmeras simples, mas muito eficazes, e uma iluminação de claro/escuro belíssima e instigante, e fotografia fantástica CAT PEOPLE ficou conhecido no Brasil como “Sangue de Pantera” e é um clássico de terror psicológico e erotismo velados.

Isto é, nada nunca é mostrado, nada nunca é explicitado, não há monstros, nem cenas de violência. O medo é sugerido, entrevisto, escutado. A fera assassina (se por acaso existir e se a maldição for real e não somente loucura de Irena) nunca é mostrada. O sexo, o desejo, também. Mas estão lá, à espreita, prestes a atacar.

Filme bárbaro que funciona até hoje!

Quarenta anos depois, fizeram CAT PEOPLE (“A Marca da Pantera”, aqui). O básico da história foi mantido: Irena é uma jovem bela e estranha que passou sua infância complicada em orfanatos e instituições especiais até conhecer seu irmão, quando fica sabendo que eles pertencem a uma raça especial que precisa manter relações sexuais entre si porque, quando transam, se transformam em panteras selvagens e assassinas. Precisam matar para retornar ao estado de humanos. A coisa se complica pois, além de Irena não concordar em se entregar a esta relação incestuosa, ela ainda se apaixona por outro cara e não sabe como lidar com esta maldição. Já pensou como seria sua noite de núpcias? O camarada ainda por cima é diretor do zoológico local e está ajudando a caçar uma pantera que está aterrorizando a cidade…

Não é um grande filme, é simples, dá para assistir numa boa, sem grandes pretensões. Mas também é um clássico. Por conta da pantera principal: Nastassja Kinski. Puta que o pariu de pantera!!

Os elementos estão apontados. Em 1942, a mulher ativa e liberada (que, no entanto, existia ou lutava para se impor) não podia ser aceita. Não à toa, a pantera tinha que ser de fora, não podia ser uma nativa, uma norte-americana ‘da gema’, tinha que ser uma estrangeira, alguém misterioso de algum lugar remotamente conhecido e exótico o suficiente para provar ao espectador o quanto Lá é estranho e o quanto Eles (ou, principalmente, Elas) podem ser perigosos. Mortíferos até. A moral e a família precisam ser mantidas, a tranquilidade precisa ser reposta. O final de “Sangue de Pantera” toma isso a cargo. Como não poderia deixar de ser em um filme realizado no começo da década de 40.

Em 1982, mesmo com a diluição destas premissas e mesmo que a mulher contemporânea tenha tomado posições bem mais avançadas do que seria imaginável em tempos idos, e mesmo que o diretor esteja mais preocupado em mostrar o corpo de Nastassja (ela fica pelada boa parte do tempo), do que em fazer discussões ou até mesmo de mostrar eficiência em criar suspense, Mesmo assim, é extremamente interessante observar como os dois filmes e as duas Irenas se parecem e mantém laços. O sexo já não é mais visto como O Perigo (a era mais pesada da Aids ainda estava só começando), o esquisito, inclusive é não fazer sexo (como quando em um diálogo a virgindade de Irena chega a ser ridicularizada). Os produtores, então, forçam um pouco a barra ao tentar encontrar algum outro ângulo ‘pecaminoso’ e se fixam no ponto do Incesto. Esse seria o problema. Fazer sexo tudo bem; fazer sexo com a Nastassja melhor ainda (mesmo que um tanto quanto ‘perigoso’). Mas com o irmão não, nunca! O foco mudou,  o vilão agora não é mais a mulher e sim seu irmão que insiste em se arrogar o direito a sua …. depravação, digamos assim.

Apesar disso, Irena/Nastassja ainda é um ser estranho, perigoso, além das fronteiras (não estou lembrando agora se a personagem é norte-americana ou não) que pode não ser a vilã, nem o mal personificado, nem é louca mental. No entanto, ela ainda assim carrega a sua maldição. Esse furor sexual ainda assusta, não é ‘normal’, precisa ser controlado.

E o modo como o cara do zoológico encontra para ‘controlar’ Nastassja é de matar de inveja a todos os homens e lésbicas do mundo. Ai, ai.

ps. comentários da minha amiga Sabrina K ao ler este texto: Claudinei, legal você ter lembrado deste filme – a versão mais antiga eu não conhecia. CAT PEOPLE me marcou muito, e coloco ele junto com aquele com a Catherine Deneuve, com o David Bowie, viravam vampiros, e os amores dela tinham tempo de duração, mas não libertação, eram encaixotados num sótão surreal, iluminado, leve, com muito ar, e os amores ali, vinculados a ela, vampirona mor, envelhecendo, apodrecendo em vida, sofrendo, orando por liberação ainda que na condição de demônios. Vampiros e amor. Cat People, o não domesticado sentimento humano, em sua condição mais selvagem, o descontrole, o nada social sentimento vindo de um corpo animal, essa condição humana atordoante e ininteligível nossa do dia a dia.

Como mulher – e às vezes vejo que o olhar de uma mulher sobre um filme é tão diferente do dos homens… – te digo, não lembro dos homens do filme, mas de Nastassja Kinsky. Tão meiga, tão pura, tão virgem, e tão mortal. Jaulas, felinos, desejos, mulher e homem, descontrole, não doméstico, não controlável. Incontrolável. E então criamos e multiplicamos a Aids, e o controle deve ser cada vez mais rígido, de tudo, do todo. Mas se a Aids mata o corpo, qual é essa ameaça que estes filmes pré-Aids traduzem, essa ameaça mortal, de controle e descontrole, vida e morte, que esses filmes anunciam e mostram? A dependência, o despertar, sentimentos dignos de flauta convivendo com a mais atordoante percussão? Ufa, e dê-lhe vinho tinto, do bom, prá viver essa vida com tudo isso que veio na bagagem…
Abraços cinéfilos,

ps. Eu achei dez a reflexão sobre a Aids, porque se fossem filmes pós Aids, poderiam ter uma outra leitura… Mas eu não sei, te conto que Fome de Viver foi o único filme que me fez sair do cinema… Aquelas cenas de macacos enjaulados envelhecendo rapidamente, e o vampiro buscando cessar a velhice, eu só consegui assistir de uma segunda vez. E Cat People tem uma coisa muito feminina, Claudinei, só sendo mulher e padecendo de toda a repressão da sociedade ocidental católica prá você saber o quão enjauladas nós somos.

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