O primeiro poema de amor foram vários

 

Certa vez (não sei de onde tirei a coragem para vencer a timidez) cheguei perto da minha amiguinha de colégio (que, obviamente, era a minha paixão secreta e platônica) e disse que eu conseguia escrever um poema com seu nome. Ela ficou curiosa. Tínhamos tempo, estávamos no intervalo de aula, o professor da aula seguinte tinha faltado, então tínhamos que ficar fazendo hora de qualquer modo. Fiz uma cara de concentração e comecei (como se eu já não o tivesse escrito na noite anterior e praticamente decorado as palavras). Ela amou o resultado! (e até pensei que receberia um beijo, o que teria sido a glória!), mas ela fez questão de correr e mostrar para suas amigas o que eu havia acabado de produzir.

Foi uma sensação. De imediato, elas também quiseram os seus próprios, algumas até com um tom de dúvida na voz, ou quase certeza de que eu não conseguiria. Eu disse ‘claro!’ (ou seja lá qual foi a palavra que utilizei na época) e me dediquei. Para minha surpresa, a coisa fluiu com muito mais facilidade do que eu pensava: usava seus nomes ou as primeiras letras dos seus nomes, misturava com umas rimas, realmente fluiu. E elas adoraram! Realmente adoraram, e a coisa se espalhou. Quando percebi, todas as meninas da sala (e acho que até de outras salas) estavam ao meu redor, aguardando seus poemas ‘personalizados’ e gritando de prazer quando os recebia.

Ao final, exausto e já um pouco desesperado por encontrar mais rimas, a hora passou, o intervalo foi-se, o próximo professor chegou e voltei a ser um ser humano ‘normal’, ‘comum’, mais um colega de classe.

Claro que não prestei atenção em aula nenhuma. Minha cabeça fervia e comecei a sonhar com as possibilidades inauditas e infinitas que, de tão súbito, haviam se aberto para mim. Eu seria Poeta! Escreveria livros, seria famoso, teria as mulheres do meu lado. Pronto, decidido, seria poeta.

Creio que não preciso dizer que as coisas não aconteceram ‘exatamente’ desse jeito. A riqueza, a fama e as mulheres aos meus pés estão demorando um tanto para chegar…

No entanto, em verdade, não reclamo. O prazer, a volúpia e o encanto daquele dia me acompanham até hoje, é algo que carregarei comigo para a vida inteira. Do dia que meu primeiro poema de amor se transformou em algumas dezenas.

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