Dez experiências impressionantes sobre o comportamento humano

 

Pense na seguinte situação: você está fazendo parte de uma experiência científica. Entra em uma sala com mais uma pessoa que chega ao mesmo tempo que você, sem saber muito bem o que vai acontecer, só têm uma certa ideia de que se trata de uma espécie de teste de memória. Há um pequeno sorteio para decidir quem vai fazer perguntas e quem responderá. Por este sorteio, você perguntará e se sentará em frente a uma mesa com um microfone e uns aparelhos com botões enquanto a outra pessoa se dirige para uma sala do lado. Com um detalhe: o seu companheiro de experiência sentou em uma cadeira repleta de fios e amarras, as quais você até ajuda a prender.

O esquema é explicado: você lerá uma lista de nomes, várias palavras em cada grupo, e o outro tem que repetir na mesma seqüência. A cada erro que o outro cometa, ele recebe um choque elétrico. Curtos, nem doloridos; irritantes, no máximo. No entanto, a cada erro cometido, a voltagem aumenta. Ao seu lado, está sempre um supervisor (cientista, médico?; pelo menos, vai estar vestido com avental) que monitora a situação e garante a integridade física de quem recebe o choque.

Só que os erros se acumulam e a voltagem fica cada vez mais alta. O cara começa a gritar de dor. Urrar. Você pode até dizer que a coisa toda tem que parar (afinal a pessoa está sofrendo!), mas o supervisor repete que, apesar dos choques serem doloridos, não haverá nenhum dano tissular permanente. O que você faz? Para tudo, e vai embora pra casa, inclusive sem receber os trocados que eles haviam te garantido pagar? Ou continuará aumentando a voltagem, até chegar a um ponto que a pessoa dê um grito desesperado? E final. Até não haver não resposta nenhuma, pois ela não tem condições de responder (terá morrido? os tais danos tissulares terão sido em demasia?)

Não é uma simples história ou pergunta retórica, nem mesmo teórica. Esta experiência realmente foi levada a cabo, em 1961, por Stanley Milgram que desejava entender como funciona o mecanismo de obediência à autoridade. Lembre-se que o peso e o horror do Holocausto eram ainda mais presentes do que hoje, e não se concebia o porque tantas pessoas terem cometido o que realmente cometeram durante a guerra em nome, ou sob a desculpa, de estarem obedecendo ‘ordens’. Milgram era professor-assistente de psicologia de Yale e tinha a hipótese de que o determinante não era a figura da Autoridade em si, mas o poder da situação. Dependendo da situação, pessoas comuns, normalmente pacatas, poderiam se tornar bestas agressivas e passivas, obedientes.

Voltando à pergunta: o que você, caro leitor deste texto na internet, faria no lugar. Você giraria o botão? Os choques não são reais, a cadeira com os fios é falsa, o seu ‘colega’ de experimento na verdade é um ator que representa a dor até onde você permita. Mas tudo isso só se fica sabendo Depois. Na hora, tudo é real: você está dando choque em uma pessoa! Independente do que você responda neste momento, o fato é que é impossível se ter certeza, a não ser que estivesse passando pela experiência mesmo. Você sabe!, que não faria isso, não é mesmo?; que não cometeria um ato tão brutal.

Naquela tarde de junho de 1961, de 100 homens comuns e pacatos de New Haven, Connecticut, homens que fizeram o tal ‘teste de memória’, 65 giraram o botão, aumentando a dosagem a ponto de ‘matar’ a outra pessoa.

65.

O que isso prova? O que Milgram realmente provou? A partir do experimento, podemos partir para conjecturas e discussões infindáveis, mas o fato inegável é que há algo aqui, estranho. Muito forte. Muito potente. Foram 65!

Lauren Slater, psicóloga, autora de vários livros, entre os quais “Bem Vindo ao Meu País”, resgata em “Mente e Cérebro” – Dez experiências impressionantes sobre o comportamento humano” dez grandes experimentos realizados no século XX que, normalmente, ficam relegados a livros didáticos ou obras de referência em universidades de psicologia ou em revistas especializadas. Grandes no sentido de que provocaram súbitas rupturas, promove olhares para profundezas insuspeitadas no ser humano, desconcertam, polemizam. Ferem. E são alvos de discussão e polêmica até hoje.

Das “caixas de educação e condicionamento” de Skinner ao “sugestionamento social” de John Darley e Bibb Latané, da “Teoria da Dissonância Cognitiva” de Leon Festinger aos experimentos com macacos de Harry Harlow, cada uma provoca um estranhamento absurdo ao que pensávamos que fosse certo e estabelecido. Eles desconstroêm e derrubam estas certezas ilusórias, com golpes fulminantes.

O mérito de Lauren Slater é de, que além de resgatar estas histórias, faz questão de apresentá-las do modo mais humano, passional e direto possível. Ela entra em contato com as pessoas que participaram dos projetos, pede sua opinião, observa como elas evoluíram, como pensam o que fizeram anteriormente. Fala do impacto dos experimentos, quais suas conseqüências, como foram combatidas pelo seus inimigos. Ela nunca deixa de enfatizar e esclarecer o outro claro, as opiniões contrárias. E quando possível, também tenta repetir, ao seu modo, as experiências.

Retoma, por exemplo, o que fez David Rosenhan que, em 1972, quis testar o “quanto os psiquiatras eram capazes de diferenciar os sãos dos insanos”. Como? Pediu para oito amigos que se apresentassem em algum hospital mental e dissessem para os médicos que estavam ouvindo um barulho, “uma voz que dizia Tum”. Mais nada. Que não mentissem sobre suas vidas, que não acrescentassem novos sintomas. Somente o barulho. Tum. Rosenhan também faria a mesma coisa e verificaria quantos seriam internados e por quanto tempo. Todos! foram internados, todos “exceto um deles, tinham recebido o diagnóstico de esquizofrênicos, com base num único sintoma idiota (a exceção recebeu o diagnostico de psicose maníaco-depressiva)”, a média de permanência foi de 19 dias (a mínima foi sete, a máxima 52). E todos “foram liberados com sua doença em remissão, o que significa, obviamente, que sua sanidade essencial nunca fora detectada e que sua presente sanidade foi entendida como uma flutuação temporária”.

A gritaria foi tremenda (como em todos os outros experimentos, aliás). Aquilo seria uma farsa, uma brincadeira absurda, e foi lançado um desafio, aceito por Rosenhan: que em três meses, ele mandasse outros pseudo-pacientes, cuja quantidade fosse segredo, e os hospitais se incumbiriam de desmascará-los. No final dos três meses, orgulhosos e arrogantes, eles identificaram 41 mandatários de Rosenhan. 41. Acontece que ele não tinha mandado ninguém. Absolutamente ninguém.

Lauren resolve repetir a experiência. O que, provavelmente, seria uma brincadeira boba, logo descoberta. Estamos no século 21, muita água rolou, estes experimentos fazem parte da literatura médica de qualquer estudante de psicologia. Ela vai em frente. Utiliza inclusive o mesmo sintoma do Tum, e mais nada. Ela seria internada?

Até pensei em acabar a resenha aqui, para instigá-los a ler o livro, mas acho que é sacanagem. O resultado do re-experimento de Lauren foi o seguinte: ela foi a oito hospitais em seguida. Não foi internada em nenhum. Em todos recebeu o diagnóstico de depressão psicótica, e saiu carregada de remédios antidepressivos e antipsicóticos.

E ninguém lembrou da história de Rosenhan.

“Mente e Cérebro” – Dez experiências impressionantes sobre o comportamento humano”  é um livro que mete um certo medo pelas suas vastas implicações.

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