‘O Fotógrafo’ revela o ser humano, além do Afeganistão, além de ‘aldeias globais’

 

Faz um tempo que não se ouve o termo ‘Aldeia Global’, tão repetido há poucos anos ao se referir à proliferação e à rapidez das informações mundiais proporcionadas pela sofisticação da tecnologia. As duas palavras exprimiam a surpresa, o espanto e até mesmo uma certa estranheza perante a imensa facilidade com que essa tal tecnologia nos permite acompanhar acontecimentos em tempo real de qualquer canto do planeta, e de conhecer povos e culturas inacessíveis na prática para a grande massa de pessoas. Hoje, basta um clique. Ou dois, conforme o link e o arquivo a serem acessados.

O termo caiu em desuso (quando dito, é quase sempre com um toque de ironia na voz ou na escrita), embora não somente pela intensa repetição que o esvaziou de toda a sua pretensa originalidade anterior (a ponto de torná-lo insuportável de ser ouvido), mas por conta de dois fatores fundamentais e impossíveis de serem previstos: por um lado, a realidade revelou-se ainda mais potente e as consequências das novas tecnologias mais impressionantes do que se poderia imaginar.

Estamos na fervura, no ponto limite entre transições, onde sabemos que nossa forma de pensar o mundo, nossa cultura, e nosso conhecimento, sofrerão (estão sofrendo) modificações com uma força tremenda e profunda, mas não há possibilidade (nem temos a capacidade) de sequer entender para onde iremos; isto será respondido somente por essa geração que está nascendo agora já com bits na cabeça e tablets na mão e com a naturalidade de quem cresce acessando internet e compartilhando redes sociais quase que ao mesmo tempo que está sendo alfabetizada. Nesse sentido, portanto, se ‘Aldeia global’ foi de alguma utilidade na época em que foi formulada, agora é de uma fraqueza e insuficiência vergonhosas.

Além do mais, o termo é um clichê, isto é, se enraizou em nossa mentalidade e é facilmente reconhecível, o que esconde seu aspecto mais complicado e nocivo: ele proporciona a sensação confortável, agradável, e falsa de que realmente conseguimos conhecer outros mundos. Podemos acompanhar uma partida de NBA nos Estados Unidos enquanto ouvimos notícias quentíssimas vinda de Tóquio ou sabemos da apuração dos votos para a presidência do Egito ou da França, e até aí tudo bem, pois as informações são necessárias e estabelece-se um vínculo entre o que somos com o que acontece a nossa volta.

O problema começa quando se relaxa para um tipo de sentimento de familiaridade rasa a partir de simplificações. Como se conhecêssemos a Antártida por um documentário do Discovery Channell. Como se conhecêssemos a disposição política dos imigrantes turcos pela Europa pelos noticiários da CNN. Como se a morte de Osama Bin Laden nos fornecesse a chave para o entendimento dos talibãs e dos movimentos islâmicos. Como se entendêssemos o que é ‘Afeganistâo’ pelo tanto de vezes que ouvimos a palavra ou vemos imagens esparsas de guerrilheiros com metralhadoras a tira-colo.

Além de todos os méritos e picos artísticos e estéticos que ‘O Fotógrafo’ possui, ainda há esse ponto, o de demonstrar que nós realmente não sabemos do nosso próximo. Que, por trás das fachadas das notícias e clichês veículados por bits de computador e ondas de televisão, o que existe é o Ser Humano. Com suas idiossincracias, defeitos e qualidades próprios, que nos podem estranhar ao primeiro contato. No entanto, em essência, Humano. Ao nos contar de um pedaço do planeta e de um período histórico tão falados e repercutidos, mas que se perdem no emaranhado de meias-verdades e mentiras-inteiras, nos apercebemos o quanto em verdade somos ignorantes.

Esqueça o que você pense saber e deixe de lado os estereótipos. Você não conhece o Afeganistão.

É sempre um prazer observar as expressões no rosto de uma pessoa que faz seu primeiro contato com ‘O Fotógrafo’. Tive a oportunidade de presenciá-lo umas três ou quatro vezes, seguem um mesmo padrão, e fico a imaginar que eu devo ter feito expressões idênticas. A princípio, há a surpresa por haver fotos em preto e branco ao lado e misturadas com as ilustrações coloridas e sóbrias; depois, o reconhecimento de como parece natural esse relacionamento (não se pensa a essa altura como deve ter sido trabalhoso chegar a esse nível de naturalidade), e logo então o deleite por percorrer as páginas e observar que o projeto gráfico se mantém com segurança e beleza.

Dependendo do tempo que se disponha nesta primeira aproximação, a atenção se foca para o texto, lê alguns trechos e (agora já sem uma grande surpresa, mais uma curiosidade atiçada) constata-se que o tom sóbrio e delicado da narrativa perfaz um conjunto perfeitamente harmônico e coerente. Em geral, até solta-se um suspiro de leve: é a afirmação para si mesmo de que se está diante de uma obra inusitada, particular e marcante. Somente bem mais tarde, ao término da leitura do último volume, confirma-se as impressões desse primeiro momento: ‘O Fotógrafo’ é uma obra-prima.

Em 1986, o fotógrafo Didier Lefèvre acompanha um grupo de Médicos Sem Fronteiras para atender regiões carentes de qualquer tipo de atendimento de saúde, em áreas de conflito bélico pesado. Eles carregam remédios, a extrema boa vontade de doutores abnegados e experientes em atendimento de risco, além da perseverança, paciência em percorrer caminhos isolados e sensibilidade para reconhecer situações delicadas. Lefèvre registra com suas lentes o trajeto, os passantes, os componentes da expedição que parte do Paquistão e adentra por um Afeganistão desconhecido, até então, pelo fotógrafo. A viagem rende dezenas de rolos de filmes, centenas, milhares de fotos, dos quais somente seis são publicadas e percorrem o mundo. A experiência foi tão marcante e ele ficou tão fascinado pelo país que retornou várias vezes (oito, ao total), e a frustração por tão pouco de suas andanças terem sido divulgadas que escreveu um livro onde pôde se expressar com mais detalhes. O jovem quadrinista Emmanuel Guibert também se empolgou pelas histórias de Lefèvre e durante anos os dois discutiram a forma de transformá-las em uma obra que pudesse aproveitar as imagens de tantas fotos desperdiçadas. Guibert escreve a adaptação, narra a primeira viagem de 1986 (que durou por volta de dois meses), e faz os desenhos e todas as ilustrações, e Fréderic Lemercier cuida das cores, diagrama a hq e cuida do projeto gráfico da obra como um todo.

Em 1986, o Afeganistão estava em pleno combate para expulsar os soviéticos de suas terras, com o auxílío (logístico e financeiro) dos Estados Unidos. (Portanto, o que virá depois, da derrota da União Soviética em manter suas tropas, a ascensão dos talibans, e o posterior, está fora do âmbito desta obra).

Na prática, esta é toda a conxtextualização histórica imprescindível para adentrar no universo de ‘O Fotógrafo’. Como Lefèvre é o novato da turma e o narrador da história, automaticamente é através dele que vamos entendendo os meandros e os detalhes desta realidade, deste ambiente estranho e, a principio frio, dos seus habitantes distantes, dos caminhos escondidos e das veredas solitárias. Os veteranos, os que já percorreram estas vias várias outras vezes e estão calejados com o trato dos passantes, dos ocasionais soldados, dos líderes locais das vielas passageiras, são os que lhes passam as informações (e, em consequência para nós) do indispensável para garantir a sobrevivência, se acostumar com os atalhos, identificar os elementos mais perigosos.

Aos poucos somos tomados (assim como Lefèvre) pela beleza daquela região árida, pela camaradagem com os demais europeus, pela observação das minúcias dos procedimentos dos médicos.

Apesar da situação de guerra, sua missão não é bélica, eles não se dirigem para zonas de combate, seu interesse são as vilas de interior, abandonadas sem socorro médico, sem sequer verem alguém com mínimo de conhecimento ou tomarem alguma medicação por meses, até anos. Os médicos chegam ao destino final, Zaragandara, abrem o ‘hospital’, um barracão aberto, e começam o atendimento. A guerra está onipresente e se apresenta de todas as formas, mas tangencialmente, pelos feridos não tratados, pelas doenças triviais e potencialmente mortais se não tiverem tratamento, por acidentes ‘típicos’ como ferimentos à bala pelo manuseio displicente das armas, pela miséria. Os Médicos Sem Fronteiras ficam até o limite de suas possibilidades, até o último frasco de remédio, quando inevitavelmente terão que partir, sair do Afeganistão, repor seus suprimentos e refazer o mesmo caminho para, quem sabe, conseguirem retornar no ano seguinte.

É o que nós, leitores, fazemos igualmente com a obra. Ao término do terceiro volume, somos obrigados a dar um tempo e reacondicionar nossos pensamentos, mas precisamos também retornar e ‘ouvir’ de novo essa voz que conduz por esses caminhos estreitos, voltar a prestar atenção no céu azul ao menor sinal de um helicóptero e nos escondermos de suas metralhadoras; olhar estes rostos sérios e sizudos que podem esconder tanto uma natureza calorosa e amigável quanto canalhas covardes, líderes carismáticos ou guias desonestos, doentes recuperados agradecidos ou crianças sem qualquer condição de cura.

A distância e o estranhamento continuarão, por certo. Ninguém terminará a leitura de ‘O Fotógrafo’ e sairá correndo para a compra de uma máquina. Muito menos, desejará se naturalizar afegão. Não é disso que se trata. É de sensibilidade e emoção plenas, guiados por uma emocionante e brilhante narrativa gráfica. De predisposição para ouvir e entender e enxergar a porção de humano que em todos nós há.. E podermos, assim, romper essa fachada bonitinha e mentirosa de supostas ‘aldeias globais’ ou seja lá qual for o mais novo termo high tech que inventem.

 

texto publicado originalmente na revista eletrônica de cultura e literatura Verbo 21

 

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