Sylvia Plath, Diários e a incógnita de sua morte

 

Entender a vida de uma pessoa (qualquer pessoa) é uma incógnita que incomoda e atiça a curiosidade da humanidade; a quantidade de biografias de personalidades famosas (ou que, pelo menos, teve o seu quinhão de celebridade, seja por qualquer motivo) nunca diminuiu e sempre constituiu um ‘gênero’ de enorme sucesso. Sylvia Plath, no entanto, inverteu essa equação. É sua morte que incomoda, que estranha, que fustiga a imaginação dos curiosos, confunde os estudiosos, atrapalha a vida dos sobreviventes. Pois esta morte pode ser considerada como uma espécie de catástrofe que continua fustigando aos que a conheceram e com ela se relacionaram. Ou quem sabe tenha sido a finalização inevitável de uma crise permanente (social, pessoal, mental) que sempre a teria acometido e finalmente explodido em um ato de auto-imolação. A Nêmesis atacando pelas suas próprias mãos, após uma tocaia incansável. Houve quem considerasse seu suicídio como um acidente infeliz: ela teria armado uma situação na qual pudesse ser resgatada antes do desenlace, mas da qual perdera o controle e seus vizinhos não teriam compreendido que estava acontecendo alguma coisa de errado em seu apartamento.

E há a grande questão, aquela que divide os pesquisadores, os biógrafos, os parentes, os admiradores de poesia e aqueles tais curiosos: a participação de seu marido, Ted Hughes (ele próprio um poeta respeitado e com carreira literária independente), criador de uma situação que teria tornado insuportável a vida de Sylvia (tornando-o, portanto, no vilão maquiavélico da história); ou, então o marido incapaz de suportar a paranóia de uma mulher ciumenta e desequilibrada e com impulsos suicidas (e, nesse caso, a vitima teria sido ele).

Poderia-se perguntar, na verdade, por quê a morte de Sylvia comove e intriga tanto, por quê nos afeta dessa forma. As respostas seriam variadas, abundantes e contraditórias entre si tanto quanto as colocadas acima, mas o fato é que isso acontece. Talvez seja chocante demais ter se matado uma pessoa tão inteligente, jovem, bonita e instigante, no auge de sua produção literária e reconhecida como das mais importantes poetas norte-americanas. Talvez toque em fibras psicológicas internas que nos afeta a todos, embora muitas vezes nem tenhamos consciência delas, e quando as percebemos não temos coragem de encarar. Não haverá aqui algum tipo de laço que nos une, forçando-nos a aceitar que somos humanos, isto é, fracos, frágeis, sempre à beira do desespero à borda de um precipício? Nesse ponto, a publicação dos diários de Sylvia Plath deveria nos ajudar a entender sua vida, sua mente, seu íntimo mais profundo e, conseqüentemente, sua morte.

Escritora compulsiva, Sylvia jogava em seus cadernos todos os detalhes, pensamentos, considerações e ações pelas quais passava, desde os 13 anos até dias antes de morrer, com poucas interrupções. Mais do que impulso, uma necessidade, uma fundamentalidade. Certa vez, ao ter passado por uma crise pessoal, onde se misturou um braço quebrado, ela considerou indispensável colocar isso no papel para ter uma visão correta do que acontecera e sua diferença com o presente: “Portanto, este é o trecho inicial incipiente da virada. Ainda bem que expus aqui parte do inferno pavoroso por que passei. Caso contrário, do ponto de vista privilegiado atual mal poderia crer nele!”. Em outro momento, é ainda mais enfática: “É impossível ‘capturar a vida’ se a gente não mantém diários.”

Os diários em si, os cadernos, também possuem uma história, que se tornou extremamente complicada com a morte de Sylvia. Alguns cadernos foram obstruídos por Hughes e guardados sigilosamente para serem abertos somente anos depois. Aos poucos, ele foi liberando-os. Mas, dois não foram encontrados. Um teria desaparecido, conforme ele, não localizado até hoje. O outro, o último, no qual Sylvia escreveu até três dias antes de morrer, foi confessadamente destruído. É obvio que isso só aumentou as desconfianças e o ódio da facção Contra-Hughes. Fora estes, todos os cadernos da fase adulta de Sylvia Plath, de 1950 a 1962, estão reproduzidos aqui, nos mínimos detalhes, com os desenhos que ela colocava de vez em quando, as misturas com letras, até erros de linguagem: estão tal e qual foram escritos.

É possível se dizer que nestas páginas estão contidas as chaves para se entender o desenvolvimento do psiquismo, da vida, e em conseqüência, da morte da poeta? Pergunta-monstro. No entanto, uma falsa pergunta que leva a caminhos equivocados. Pois o que encontramos, no final das contas, são as palavras de uma mulher extremamente inteligente, consciente de sua força como artista, mesmo com grandes graus de auto-crítica, consciente também de sua beleza e de seu vigor sexual, de enorme insegurança no trato com o marido e com os filhos.

E tudo isso já sabíamos. O que acontece é que quanto mais paginas escritas, quantos mais detalhes acumulados, quanto mais pensamentos assimilados, mais a incógnitas aumentam em ritmo, tamanho, profundidade e espacialidade possíveis em relação diretamente proporcional. Talvez seja melhor encarar os Diários como Texto e deixarmos de lado um pouco a questão da intimidade ‘real’ de uma pessoa. E nesse caso encontraremos um livro denso, complexo, com milhões de detalhes e, em muitos trechos, até mesmo belo, que deve ser absorvido com vagar, com apreciação. Além de estar entupido de notas, explicações, apêndices que ficam em separados para não interromper a fluidez da escrita. Como diz Karen V. Kukil, a organizadora dos originais, “Sylvia Plath fala por si nesta edição integral de seus diários”. A interpretação fica, portanto, por conta de cada leitor.

 

 

 

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