Valente, Pixar, valente decepção

 

O fracasso da Pixar em continuar a qualidade de sua produção a que estamos tão acostumados pode ser um indício do começo de sua decadência ou, pior ainda, horror dos horrores, sua disneyzação?

Foram sete anos de desenvolvimento de um projeto para chegar a um resultado que, na prática, não é mais do que um bom filme disney. Para um estúdio que se notabilizou pela riqueza e inteligência dos seus roteiros e pela criação de alguns clássicos do cinema como ‘Up’, ‘Wall-E’, ou ‘Toy Story’, isso é desesperadoramente pouco. ‘Carros 2’ já foi um choque tremendo, pois provou que mesmo a Pixar de ‘Procurando Nemo’ e ‘Monstros S.A.’ pode tropeçar (ou capotar) e produzir um trabalho porco e mal-feito (e já era continuação de um filme morno e sem graça). ‘Valente’ não chega a ser tão infame quanto ‘Carros 2’, é agradável de assistir e um tanto divertidinho, mas não tem garra nem ambição, cai na vala comum de historinhas bobas e açucaradas, com roteiro falho e mau resolvido.

Muito está se falando (e vai se falar mais ainda, com certeza) da bela e vermelhíssima cabeleira da personagem principal. E com toda razão: mais do que um magnífico trabalho visual e técnico muito bonito, compõe à perfeição com a personalidade e vitalidade da princesa rebelde e autodeterminada que está decidida a quebrar a tradição do reino e seguir sua verdadeira ‘vocação’ de guerreira arqueira. Observar uma imagem ou fotograma parada não proporciona a verdadeira dimensão e beleza desse cabelo; é preciso vê-lo ao ‘vivo’, e em movimento.

Brave é o que há de melhor em todo o filme: carismática, forte, simpática, cativante, ela prende nossa atenção, arrebata nosso fôlego, caímos fácil em seu charme, aceitamos suas pretensões e compartilhamos de sua frustração. É um belíssimo personagem, muito bem construído e montado, marcante e impactante. (fundamental neste sentido é a participação da atriz escocesa Kelly Macdonald, a escolha absolutamente perfeita para fazer a dublagem original; desde já, sinto pena das pessoas que assistirão ao filme com dublagem, pois por melhor que seja a dubladora nacional que trabalhar aqui, ninguém conseguirá reproduzir a delícia do particularíssimo sotaque de Macdonald). Queremos vê-la, desejamos acompanhar suas aventuras, nos motivamos e torcemos para que ela atinja seus propósitos. O que torna ainda mais decepcionante a incompetência do roteiro em não saber aproveitar tão boa abertura.

Pois, mesmo não havendo o príncipe encantado que irá resgatá-la dos perigos da vida e da floresta (o que remete a um Chapeuzinho vermelho e o lobo mau, quem sabe?), os clichês e os velhos esquemas ao estilo disney estão presentes e tomam conta da história. A bela, inteligente e determinada heroína (como a Bela, de ‘A Bela e a Fera’) que ostenta sua cabeleira revolta e viva (remetendo à Rapunzel, de ‘Enrolados’) inconformada com seu destino subalterno de ter de se casar e ter filhos, independente de sua opinião sobre seus pretendentes, terá a ajuda de uma bruxa com uma solução mágica (tal como Ariel de ‘A Pequena Sereia’). O feitiço, obviamente, terá consequências funestas, colocará a mãe de Valente, com quem discutia tanto, em perigo de morte. Mãe e filha terão que se entender como nunca fizeram antes para poderem sobreviver.

Posso ter adotado um certo tom irônico no parágrafo acima, mas não quero dar a impressão de que usar os lances disneyanos sejam um mal em si. O problema não são os clichês, é como são utilizados. É nesse ponto que os roteiristas vacilam e se acomodam, se perdem e parecem não saber exatamente qual é o foco e qual é a ideia que desejam passar de verdade. Tudo é piorado com um final abrupto e raso, que não responde às (poucas) questões relevantes levantadas no começo. Assim, a Pixar (tão famosa pela originalidade de sua abordagem e pela coragem dos seus temas) vacila, se acomoda, e nos entrega um produto insosso, bonitinho e oco.

Se ‘Carros 2’ foi uma capotagem feia (o ponto mais baixo da história da Pixar, em todos os sentidos) e ‘Valente’ parece incapaz de reverter essa má impressão, isso significa que não foi somente um tropeço? Isso indica uma tendência? A usina de ideias, criatividade e belos filmes terá se esgotado?

A resposta só teremos nos próximos trabalhos, sem dúvida. No entanto, a preocupação se justifica, porque por enquanto a Pixar está respondendo com o anúncio de … ‘Procurando Nemo’. 2.

ai, ai

 

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One Comment em “Valente, Pixar, valente decepção”

  1. Eduardo Says:

    Lembrei de quando assiti Wall-e e impliquei no final por não explicar ao certo como conseguiram tirar tanto lixo em todas as partes do planeta em tão pouco tempo. O que não aconteceu com Up, que pouco me importei com uma casa sendo levantada por meia duzia de balões.

    Além de Carros, achei Os incríveis também muito fraco. Acredito que a empresa estipule à seus funcionários o que deve ser a marca de seu estúdio, o que irá representá-lo, e o que não. Como é feito os roteiros da Marvel e a DC, por exemplo.

    Em quase todos da Disney há um drama a ser abordado, e dependendo de como isto é trabalhado, não estraga o filme.
    Diferentemente das produções da Dreamworks, que visam primeiro o humor, a parodia, para só depois vir alguma reflexão embutida.

    PS: Pensando aqui quem vai se perder dessa vez?

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