Joaquín Salvador Lavado, aos 80 anos, é bem mais do que o Quino da Mafalda

 

Dono de uma vasta e clássica produção, ele já escrevia e desenhava bem antes de criar a admirável menina. Enquanto a fama de Mafalda corria mundo e firmava o nome do seu criador como um dos maiores chargistas da humanidade, ele nunca deixou de trabalhar em outras frentes, criando novos picos de qualidade. Chegou um momento quando Quino se sentiu sufocado pela predominância da turminha da Mafalda e, em uma decisão que abalou o mundo, decidiu nunca mais escrever nenhuma historinha com ela. Diferente de outro grande escritor que se sentiu tragado pela sua criação (Arthur Conan Doyle chegou a “matar” o seu detetive, o famosíssimo Sherlock Holmes, pois ninguém aceitava que ele escrevesse qualquer outra coisa; diante da pressão, voltou atrás e foi praticamente obrigado a “ressuscitar” seu personagem e reiniciar novas aventuras), Quino manteve sua posição e nunca mais a menina teve outra chance de aparecer.

Nisso, já lá se vão várias décadas. Se, por um lado, ficamos tristes com isso e só podemos lamentar a ausência de novas aparições da menina, por outro lado, podemos admirar e nos deliciar com todo esse mundo alternativo que o Quino nos mostra. Não à toa, um dos seus albuns possui o nome de “Mundo Quino”. Mesmo porque (e nisso também bem diferente de Conan Doyle) essa produção mantem um nível de qualidade e profundidade espantosos que nada ficam a dever ao seu personagem mais famoso.

Os albuns da Martins Fontes há muito tempo estavam fora de catálogo e alguns eram realmente inéditos, que só circularam pelo Brasil por edições portuguesas. Isso significa que havia pelo menos uma ou duas gerações que nem sequer sabia que existe um Quino “Não-Mafaldense”. De certa forma, são uns felizardos já que puderam ser apresentados, com toda a pureza e surpresa do primeiro contato, ao Mestre.

O humor de Quino não é aquele de despreocupação e desprendimento pelo qual possamos dar risada e esquece-lo logo depois. Muito pelo contrário. Ele deita um olhar crítico e meio que sem esperança sobre a humanidade. Sua melancolia é poderosa. Pode-se rir, sim, mas é sempre meio amargo, sempre desconfiado. Percebe-se o quanto tudo aquilo é real e verdadeiro. A maestria de Quino vem de sua habilidade de lançar olhares sobre o insuspeito lugar comum e cotidiano, banal até, e conseguir levantar ãngulos escondidos. E podemos quebrar a cabeça e pensar como não havíamos visto aquilo antes.
Ou então reconhecemos (e nos reconhecemos) aquelas situações, somos aqueles personagens, passamos por aqueles mesmíssimos eventos, ouvimos as mesmas palavras. O que, no caso de Quino, de forma alguma significa refrigério ou alívio.

Sem ser panfletário, sem carregar bandeiras nem virar para um partido, Quino pode ser considerado como político, na significação mais profunda do termo, talvez em sua verdadeira significação. Cada charge, cada tira, cada página carrega uma mensagem, ou melhor, explode um sentido. O riso pode vir fácil, os desenhos podem ser simples e diretos (“bonitinhos”), mas, quase sem percebermos, o impacto permanece em nossa mente.

Apesar de algumas atualizações, tais como a presença do celular ou o aparecimento da Aids, os temas de Quino são eternos: o amor, o sexo, a corrupção, morte, vidas vazias, exploração econômica, religião, dietas, velhice e juventude, educação, casamento, adultério e por aí vai.

Quando do lançamento de “Quinoterapia”, “Quanta Bondade!”, “Bem, obrigado. E você?”, Álvaro Moya esteve na Bienal do Livro de São Paulo 2007 para falar de Quino e prestigiar o lançamento destes livros. Combinação perfeita. Além de ser um dos nossos decanos quadrinistas nacionais, é um teórico e historiador da arte das histórias em quadrinhos. E conhece Quino pessoalmente (e uma miríade de ícones da cultura mundial, mas vamos nos ater ao assunto). Moya é um grande comunicador, muito bem humorado, brilhante, simpático e repleto de informações, a tal ponto que era difícil manter o foco de sua curta palestra no salão da Bienal. Discutiu as diferenças e suas respectivas origens históricas entre Charge e Cartum, para concluir o quanto em sua opinião Quino é muito melhor cartunista e chargista (o melhor em atividade no planeta) do que quadrinista, em uma clara referencia à ascendência e popularidade de sua personagem-mor, a Mafalda (O próprio Quino refere-se a si mesmo como um cartunista que, por conta de algumas circunstancias, acabou se tornando quadrinista).

As diferenças entre Charge e Cartum não nos interessam tanto aqui, estou considerando os dois termos quase como que sinônimos, basta dizer que naquela existe mais marcada um teor e motivo políticos e neste, o sentido é mais pela critica de costumes, pois Quino transita de uma para o outro com a mesma força e impacto.

O Cartum expõe toda a carga de sua mensagem em pouquíssimos quadros,em geral somente, embora isso não seja de forma alguma uma regra. Exige-se, portanto, do cartunista precisão, concisão, objetividade, inteligência. É lógico que o traço, o ‘estilo’ do desenho interessa, mas o fator mais importante é o modo como os elementos desta ‘história’ são mostrados, dimensionados e inter-relacionados. Texto, quando aparece, serve como mais um elemento gráfico, a dar sustentação ao que a imagem está mostrando.

Ou então o texto é contraste, comentário irônico, bate de frente com a imagem. Um dos trabalhos mais poderosos de Quino e da literatura mundial estão no álbum “Quanta Bondade”: uma mesma imagem tratada como se fosse uma fotografia de jornal é repetida seis vezes na página: em um cenário de guerra, que transmite de imediato a sensação de um lugar devastado, um soldado está entregando ou recebendo um objeto não identificável de uma mulher acompanhada de uma criança abraçada com uma boneca. Tanto a mulher quanto a criança estendem os braços para o soldado. As legendas para cada uma das imagens são as seguintes:

“BROGOVO: Um soldado do exército que apóia o presidente democrata Mazevich dá chocolate a uma mãe e sua filhinha entre as ruínas de sua casa destruída por guerrilheiros”.

“SAN JUAN DE TALUGAR: Um agente do corpo antinarcóticos controla os documentos de uma camponesa. Muitas delas usam os filhos para passar droga escondida entre os brinquedos”.

“MAHILI: Para comemorar o dia do exército as mulheres deste pequeno país seguem a antiga tradição de presentear os soldados com barras de kahoê, um doce típico feito com sementes de puah”.

“GENEBRA: Um informe da UNICEF revela que no mundo todo cresce o numero de crianças vitimas de abuso sexual. Na foto, uma mãe oferece sua filhinha a um soldado desconhecido em troca de chocolate.”

“KÁFARA: uma pequena kafarita oferece a um integrante da milícia vingadores da paz um poema de agradecimento por ter matado as crianças malufitas que roubaram sua boneca.”

“BOGROVO: Um guerrilheiro da frente patriótica dá chocolate a uma mãe e sua filhinha entre as ruínas de sua casa destruída pelo exército que apóia o sanguinário presidente Mazevich.”

Aliás, em comparação com os demais álbuns, este “Quanta Bondade!” é o mais ‘falado’, contendo grande quantidade de textos. Em contraste, “Quinoterapia” é quase sempre ‘mudo’. O que não muda nada no seu impacto.

Determinados quadros trazem uma espécie de economia espartana no desenho, com poucos detalhes, uma simplicidade absoluta, quase uma secura; em outros, há uma luxuria de traços, uma verdadeira floresta de detalhes, uma composição barroca acachapante. Tanto em um caso quanto no outro, batemos o olho e sabemos desde o primeiro momento: nada está fora do lugar, nada está sobrando, ou é de menos, tudo se encaixa e possui um função precisa. Perfeita. Como ‘deveria’ ser.

Álvaro Moya certa vez perguntou a Quino sobre seu processo de criação e a resposta foi muito elucidativa: entre a concepção de uma idéia e sua concretização como Cartum há um longo processo de experimentação, maturação. A idéia pode ficar martelando em sua mente durante anos!, até encontrar seu corpo ideal. Não é à toa, portanto, que o resultado nos parece sempre tão fechado e acabado. Realmente, não poderia ser de outra forma.

Coisa de mestre.

(texto revisado e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer, transposto aqui por conta da efeméride)

 

 

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One Comment em “Joaquín Salvador Lavado, aos 80 anos, é bem mais do que o Quino da Mafalda”

  1. Dinah Drummond Says:

    Eu gostaria muito de manter contato com Quino, através de email, entretanto, não tenho o seu email pessoal e nem como entrar no site – fale conosco. Por favor, qual a melhor forma de falar com Quino? Meu email é dinahdrummond@gmail.com

    Curtir


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