Trilogia do Invisível, de Eric-Emmanuel Schmitt: fábulas modernas de religiões modernas

 

Eric-Emmanuel Schmitt é um fenômeno editorial na França e em todo o mundo, dramaturgo, escritor, roteirista e sua famosa “Trilogia do Invisível” vendeu mais de meio milhão de livros, foi traduzido para dezenas de países, foi adaptada para o teatro e cinema.

Três histórias que tem como eixo as principais religiões da humanidade. “Milarepa” (Budismo), “Seu Ibrahim e as flores do Corão” (Islamismo), “Oscar e a Senhora Rosa” (Cristianismo). São contos, pequenas fábulas que, de certa forma, nos remetem de imediato a outras obras que também tiveram bastante repercussão e que se tornaram referências, como “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder, que mostra a história da filosofia através de perguntas existenciais dirigidas à adolescente Sofia, e “A viagem de Théo”, de Catherine Clément, um amplo painel das religiões no mundo atual por meio da história de um garoto que faz uma viagem ao redor do mundo em busca de uma cura para seu câncer. O que liga estas obras é o seu sentido diretamente paradidático: o enredo é construído como um pretexto para transmitir lições específicas. Tanto que, num caso, as lições de filosofia são verdadeiros capítulos em separado e, no outro, a apresentação das tendências religiosas são aulas dirigidas para o garoto e o leitor.

Schmitt faz um trabalho bem diferente e muito mais rico. Não há um sentido didático específico. As idéias religiosas estão internalizadas pelo contexto do enredo e dos personagens. Em vez de falar sobre reencarnação, uma história cujo eixo é o final do ciclo de uma vida comum que tem relações com um antigo mestre budista; em vez de falar das diferenças entre os árabes e muçulmanos, a história da convivência de um garoto judeu com velho árabe simpático, dono de uma mercearia na moderna Paris; em vez de falar sobre os propósitos indefinidos de um Deus abstrato, a relação cara-a-cara de um menino prestes a morrer com um Deus vivo e próximo. Em vez de lições, exemplos de vida, práticos e ligados ao nosso cotidiano contemporâneo. Tudo embalado por uma prosa simples, delicada, aliciadora. A “mensagem” torna-se, assim, mais poderosa. Dá para entender por que fez tamanho sucesso.

O que não quer dizer que os resultados sejam de uma qualidade constante. Os resultados são até meio que irregulares. ‘Milarepa‘ é, de longe, o mais fraco. Talvez justamente por que essa proximidade não esteja tão acentuada quanto nos demais. Apesar de começar com Simon, um rapaz parisiense que toma seu cafezinho todo dia, mas cujo rotina é interrompida por conta de um insistente sonho que atravessa suas noites onde ele é um homem esquisito repleto de um imenso ódio por alguém. Uma estranha senhora interpreta o sonho e conclui que ele é a encarnação do tio de um antigo místico budista chamado Milarepa. O sonho revela o modo como Milarepa passou de herdeiro prepotente de uma rica família para uma existência de abnegação, renúncia e sabedoria e como seu tio o perseguiu quase até à morte. A roda das existências do tio só terminaria quando ele tivesse contado sua história cem mil vezes. Simon só espera, então, que esta seja sua centésima milésima vez.

Para ler ‘Oscar e a Senhora Rosa‘ é preciso ter um lenço à mão, pois esta história é feita sob medida para fazer chorar. A história é tão melosa, melodramática mesmo, que com outro autor seria insuportável. Ainda bem que Schmitt consegue conter a mão e o livro acaba como que iluminado por uma delicadeza e emoção tais que somos rendidos pela força do escritor.

Pois Oscar está morrendo de um câncer terminal. Nestas condições, como pensar em coisas absurdas como o amor de Deus, sua onipresença e tudo? A vovó-rosa, a senhora que visita as crianças no hospital faz uma sugestão: escrever para Deus, contando de suas angústias, reclamações e até pedidos. Oscar a princípio fica desconfiado, mas concorda. Os capítulos do livro são as cartas que Oscar vai escrevendo. E, aos poucos, ele vai reconhecendo Deus em pequeníssimas coisinhas do dia-a-dia, as limitações e fraquezas das pessoas ao seu redor, até dos seus próprios pais, descobre o amor e a amizade. Tudo em doze dias, uma vida inteira e completa em doze dias, que é o tempo que lhe resta. A lição de amor e confiança que Oscar transmite provoca em nós, leitores, uma curiosa inversão: tal qual seus pais, o médicos, as enfermeiras e até a Senhora Rosa, somos tocados pela força que emana dessa criança de dez anos, ou cento e dez anos. O final é de rasgar o coração de qualquer ser sensível.

Falo por último do segundo livro, ‘Seu Ibrahim e as Flores do Corão‘, por este ser o melhor de todos, sem as fraquezas narrativas do primeiro e sem os exageros melodramáticos do terceiro. Seu Ibrahim é um velho árabe dono da mercearia que se aproxima de Momô, de doze anos, por causa de uma situação extraordinária e inusitada. Na verdade, eles já se “conheciam”, pois Momô costumava roubar latas de conserva quando o árabe se distraia. Momô presencia o momento quando, em um quente dia em Paris, Brigitte Bardot interrompe uma sessão de fotos que estavam sendo feitas no bairro para comprar uma garrafa de água… justamente na mercearia do árabe! E quando vai pagar, ele cobra quarenta francos. O menino e Brigitte se assustam, pois o preço normal era dois francos. A água não era rara; as verdadeiras estrelas, sim, diz o velho com um charme impressionante, a ponto de embaraçar a atriz.

Custei a acreditar.
– Puxa, seu Ibrahim, que cara-de-pau!
– Pois é, meu pequeno Momô, preciso compensar todas as latas que você anda afanando de mim.
Foi nesse dia que ficamos amigos.”

A inusitada amizade adquire uma profundidade insuspeitada, que mudará a vida do garoto, do velho e do leitor. Saberemos que as aparências são enganadoras demais: Momô, afinal, não é seu nome: é Moisés; o árabe, afinal, não é árabe, é muçulmano; aliás, não qualquer muçulmano, mas sufi (e o garoto fica pensando que doença é essa). Pelas brincadeiras, pelo uso do Corão, que nunca vemos nem lemos, mas cujos preceitos acabam sendo aplicados diretamente na vida cotidiana, pela descoberta de uma inteligência interior, pelo uso do sorriso como atitude básica… Amizade acaba se tornando uma palavra muito fraca para descrever seu relacionamento. Lirismo, ternura, inteligência, humor… Seu Ibrahim é uma das maiores figuras da literatura mundial. Eric-Emmanuel Schmitt aqui se torna simplesmente sublime.

‘A Trilogia do Invisível’ vai para além dos seus contextos e objetivos religiosos e místicos; não é necessário ser praticante de uma das dessas religiões (ou quaisquer outras) ou rejeitá-la de imediato por ser ateu (como eu), para apreciar a força da escrita de Eric-Emmanuel Schmit e ficar embalado pela beleza da narrativa. Basta ter sensibilidade e ser humano.

Omar Shariff na adaptação de ‘Seu Ibrahim e as Flores do Corão’

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