A guerra contra os fracos – a Eugenia e a campanha norte-americana para criar uma raça superior

 

Eugenia.

Prática pseudo-científica para a constituição de uma raça superior sem defeitos genéticos, através do cruzamento constante entre seres humanos de antecedentes mentais, físicos e sociais de nível elevado. Cruzamento rigidamente controlado, é obvio, impedindo que indivíduos que possuam o mínimo de mancha em sua carga genética possam participar: negros, índios, ciganos, pobres, débeis mentais, defeituosos físicos. Portanto, é uma atividade cara, que pressupõe ações de largo alcance tanto pelo lado do espaço geográfico quanto da duração, em processos que podem durar gerações, já que a constituição física do ser humano leva algum tempo para incorporar os experimentos químicos que porventura se tornem necessários.

Quando os nazistas tomaram o poder, começaram a guerra mundial e tiveram a sua disposição um enorme contingente de cobaias humanas para incrementar suas pesquisas com total liberdade de manipulação, sem restrições moralistas e éticas, e com o total auxilio do Estado, todo este processo foi grandemente acelerado e o que durava alguns décadas pôde ser realizado em poucos anos.

No entanto, a eugenia não foi criada por Hitler, nem pelos nazistas, nem inclusive nasceu na Alemanha. Foi criada nos Estados Unidos da América do Norte, no começo do século XX, apoiada por magnatas ianques como Rockefeller ou Andrew Carnegie que sustentaram financeiramente estas pesquisas por décadas, através da criação de instituições espalhadas pelo país, publicações de revistas, livros, relatórios estatísticos constantemente atualizados que provavam a inferioridade racial, genética e humana da maior parte da população. Centenas de campanhas de esterilização foram levadas a cabo, milhares de norte-americanos foram esterilizados em movimentos de ‘prevenção da varíola’ ou ‘contra a cegueira hereditária’. Era uma prática reconhecida pela alta corte do governo federal, casamentos eram proibidos ou até mesmo desmanchados apoiados em leis promulgadas em vinte e sete dos Estados.

Edwin Black contou com uma equipe de pelo menos cinqüenta pessoas que se espalharam durante anos em quinze paises, recolhendo documentos, verificando depoimentos, comprovando os dados. Black topou com o material sobre a eugenia quando estava fazendo pesquisas para o livro “IBM e o Holocausto” (onde provava a enorme acolhida que cientistas nazistas obtiveram da instituição norte-americana logo após a Segunda Guerra). Quando se voltou para o assunto, centrou o foco onde seria mais óbvio, na Alemanha, mas percebeu o intenso contato que ideólogos haviam tido com ´cientistas´ dos Estados Unidos e a fraternal discussão que mantiveram durante tanto tempo (mesmo, inclusive, depois de começada a guerra).

Voltando no tempo, percebeu que esta ligação era muito maior, envolvia muito mais pessoas, recursos humanos e financeiros do que se poderia pensar.

Em 28 de janeiro de 1902 foi criada a CARNEGIE INSTITUTION, dedicada ao estudo de tal ‘ciência’, com um fundo de caixa inicial de dez milhões de dólares doado por Andrew Carnegie, ao qual logo se somariam diversas outras contribuições, que totalizariam outros mais dez milhões. Entre os vinte e quatro curadores, estavam nomes da mais alta ‘estirpe’ financeira, científica e governamental do país, como John Billings, co-fundador da National Library of Medicine, o Secretário da Guerra, Elihu Root, o filantropo Cleveland Dodge; e nomeado como o primeiro presidente da instituição, o paleontólogo John C. Merrian. Isto só para começar, mas foi a tônica dominante durante décadas.

Edwin Black disseca todos os documentos, ano a ano, declaração por declaração, resultados ´científicos’ um a um. O teste de QI, por exemplo, foi um ´desenvolvimento’ dos testes de inteligência monitorado por eminentes eugenistas durante o começo da Primeira Guerra Mundial para separar os débeis mentais dos ‘mentalmente sãos’ e aptos para lutar. A proverbial incapacidade e brutalidade dos negros foram provadas e provadas diversas vezes. Só para dar um exemplo: na década de vinte, um estudo estatístico descobriu que menos de doze por cento das
canções dos negros eram em tom menor. “Isso tende a justificar a impressão geral de que o negro, é por temperamento, risonho, alegre, otimista”, reportou a publicação EUGENICAL News. Como tal, o estudo fornecia a evidencia científica de que, enquanto “as canções dos escravos… referem-se a duros sofrimentos e a atribulações”, a constituição genética dos negros sob o apartheid americano demonstra, apesar disso, “uma disposição de animo dominante… de jubilo…”. (a mesma revista trazia outro estudo ‘interessante’: “os eugenistas começaram a compilar longas listas de capitães de navios e sua origem, para identificar um traço genético inventado chamado TALASSOFILIA, ou seja, um amor herdado pelo mar. A EUGENICAL NEWS listou vários capitães que morreram ou ficaram feridos em naufrágios. ´esses bravos marinheiros não merecem nossa solidariedade, declarou a revista, eles estavam seguindo seus instintos”).

Tudo isso, é obvio, justificava o corte de verbas para a educação de classes mais baixas, controle sistemático de natalidade, proibição de casamento inter-racial, a ‘eliminação’ das raças impuras, com extensas camadas da população servindo como ‘cobaias’ humanas. “Os eugenistas procuraram exterminar, metodicamente, todos os grupos sociais de que não gostavam ou que temiam. Foi uma campanha legalizada nos Estados Unidos para criar uma raça superior – não uma super-raça qualquer. Os eugenistas queriam criar uma super-raça puramente germânica ou nórdica, que tivesse o domínio biológico sobre todas as outras”.

A eugenia só começou a perder força quando começaram a ser revelados os horrores do Holocausto e as experiências ‘científicas’ de pessoas como Mengele foram expostas e os julgamentos de Nuremberg decretaram que as esterilizações coercitivas eram crimes contra a humanidade. Mesmo assim, em voz baixa e com menor arrogância, continuou ainda por décadas. Ou, simplesmente mudaram de nome, como diz Black, despojaram o manto da eugenia e estão agora no campo da Genética ou Engenharia Humana?
Mais atual do que nunca, o que Black faz é perguntar como impedir que novamente os poderosos invistam contra os mais fracos, em nome de suas paranóias racistas, travestidos com uma pretensa imunidade cientifica.

“Estas saudáveis crianças nasceram de pais saudáveis e normais. Pais doentes e fracos produzem filhos doentes e fracos’ – Propaganda eugenista – EUA

 

 

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