‘Metropolis’, de Fritz Lang: uma velha e uma nova lição de intolerância

 

A primeira vez que assisti ‘Metropolis’, de Fritz Lang, eu ainda era muito jovem, criança, e mesmo assim impressionei-me com a beleza plástica do filme, os cenários deslumbrantes e a pujante e belíssima direção de arte (claro, na época não tinha menor ideia do que fosse ‘direção de arte’; pude compreender o que eu sentia e apreciava somente muito mais tarde). A longa duração e o ritmo lento, quase solene, no entanto, me afastaram, me aborreceram (nem lembro de ter assistido até o final), apesar de ter sido fisgado pela história:

Em um futuro distante, a alta tecnologia proporciona uma vida luxuosa e folgada para a população privilegiada que mora na cidade suspensa. Essa boa vida, porém, é garantida por conta da intensa exploração da classe operária que vive abaixo da cidade suspensa que, cansada da situação, se movimenta para tomar
atitudes mais violentas. A insatisfação é um tanto contida por uma mulher carismática, Maria, que prega a paz e profetiza a vinda de um Mediador que trará o equilíbrio geral. Do outro lado, Joh Fredersen, o poderoso chefão da cidade Metropolis, ao saber dos ânimos exaltados, procura a ajuda de um cientista (o perfeito protótipo do que hoje conhecemos como o ‘cientista louco’ megalomaníaco e arrogante, misto de Dr. Frankenstein com a cara do Dr. Brown, de ‘De Volta para o Futuro’) que lhe oferece sua mais recente e brilhante criação: um robô que tomará a forma, e o lugar, de Maria para, aproveitando-se de sua influência, insuflar as massas e justificar, assim, uma repressão para colocar os operários em seu devido lugar. Os planos do Cientista Louco, que também não nutre maiores simpatias por Metropolis, são mais maquiavélicos do que Fredersen previa e desejava, a Maria-Robô começa a interferir igualmente na própria cidade suspensa, para que ao final tudo levasse ao conflito pleno e ao caos.

A segunda vez que assisti ‘Metropolis’ já era bem mais velho, pude apreciar com mais justeza a proposta estética de Lang e do cinema expressionista alemão. Nesse momento, já tinha visto e me impactado e obrigado a reconhecer que o cinema mudo poderia proporcionar altas doses de suspense e terror, com ‘Nosferatu’ e ‘O Gabinete do Dr. Caligari’, erotismo e sexualidade em alto grau com ‘A Caixa de Pandora’, fazer uma profunda discussão social em ‘A Última Gargalhada’ (e continuo re-assistindo-os, pois mantém essa mesma força e impacto). A majestosa imponência da visão futurista de Fritz Lang reforça algumas características do Expressionismo ao mesmo tempo que se afasta um outro tanto da estética geral proposta pelo movimento e, dessa forma, ‘Metropolis’ atinge um ápice, fechando o ciclo e definindo o término dessa linha cinematográfica.

Continuei achando o filme meio chatinho (até hoje, sem retirar em nada suas óbvias e pungentes qualidades, não é dos meus filmes de ficção científica preferidos), mas pude entender melhor sua importância para a história do cinema. Pode-se perceber sua influência e permanência no cinema atual em muitos sentidos, refletindo-se, como é natural, com mais ênfase em filmes de ficção científica (de ‘Star Wars’ a ‘Solaris’, percebe-se os ecos de ‘Metropolis’), além do Cinema como um todo.

Nesta ocasião, sei bem que assisti até o final, pois fiquei revoltado com a resolução da trama: o Mediador realmente aparece e acontece de ser o filho do poderoso Fredersen que havia se apaixonado por Maria, conhecera as dores das classes mais baixas, e serviu para o estabelecimento da paz, fazendo com que o líder dos operários e seu pai, o líder da cidade, se dessem as mãos, reconhecendo seus respectivos erros. O Cientista Louco é reconhecido como o verdadeiro vilão da história e devidamente castigado. Para mim, um adolescente com sentimentos de crítica e revolta pelas injustiças sociais, já com um acúmulo de leitura de obras socialistas, era um final por demais piegas e de um anticlímax brochante.

Mas Todavia Porém No entanto

foi somente na terceira vez que assisti que constatei horrorizado o símbolo do Cientista Louco. Fiquei chocado, com o filme e comigo!, não só por entender afinal seu significado pleno, mas, pura e simplesmente, por não tê-lo visto antes, apesar de estar tão presente, tão exposto.

Em um filme (e para um diretor) carregado de simbologias e alegorias, não há espaço para sutilezas, em verdade, nem meios-termos (o exagero, o choque visual violento, as medidas extremas, são próprios do expressionismo). Maria transpira amor e piedade pela humanidade, tem um comportamento pudico e recatado, e em vários momentos está rodeada de cruzes. A Maria-Robô é agitada, sarcástica e irônica para com os operários; na cidade, é lasciva e age atiçando os instintos sexuais dos burgueses almofadinhas. Amor Piedoso em face do Pecado destruidor. O Mal absoluto é representado pelo Cientista louco, responsável pelo mau uso da Tecnologia que mantém a cidade, pela criação da máquina diabólica, o robô, pelo sequestro de Maria e sua substituição pelo autômato, e pela possível destruição e o caos. E enquanto a Maria humana é marcada, e definida, pelas cruzes, ele o é pelo pentagrama. Marcado e carimbado, portanto.

Há poucos meses, eu comentei uma bizarra ação de uma ONG italiana que reinvidicou a proibição da obra máxima de Dante Alighieri, por considerar que ‘A Divina Comédia’ estava tão carregada de preconceitos que deveria ser tirada de circulação e inclusive sair do currículo escolar. Considerei a proposta um absurdo e, até onde sei, não foi levada adiante (Proíba-se Dante Alighieri‘). Considero absurdo o simples fato de ter sido levado em consideração. Pois retira a possibilidade da discussão. Não avança no entendimento, impede a compreensão.

Por outro lado, também não adianta o único argumento de que, por se tratar de uma obra-prima, possua uma espécie de vale-conduto artístico, e questões históricas ou morais sejam pequenas ou, no máximo, complementares, como o de reconhecer de que há problemas de preconceito e racismo, mas que fazem parte inerente do contexto da época e da sociedade de quando a obra foi realizada. O que, a rigor, é verdade, mas não responde nada.

Tanto de um lado quanto de outro, as duas posturas partem do mesmo critério e método de pensamento, isto é, o pensamento ossificado, nulo e inflexível. Infelizmente, vemos cada vez mais atitudes sendo tomadas neste sentido, como em ridicularidades (no filme ‘Coco antes de Chanel’, protagonizado por Audrey Tautou biografia da famosa estilista, mudaram o poster de divulgação que havia sido inspirado em uma imagem icônica, Chanel com um cigarro aceso entre os dedos, substituído por uma caneta…) até mais sérias e profundamente complicadas, como a de proibir obras (por melhor que sejam as intenções de seus propositores, a proibição, a censura, o abafamento, são sempre, Sempre, os piores caminhos), quando não descambar para agressão para o próprio artista.

Isso porque, para mim, não existem saídas fáceis para a presença do pentagrama (e do que se impregna, sua função dentro do filme) (e, tudo bem, não é diretamente uma estrela de Davi, mas possui a mesma origem hebraica) em ‘Metropolis’. O contexto histórico, moral e preconceituoso da sociedade alemã do final da década de 1920, explica, sem dúvida. De modo algum, justifica. E, alem do mais, não é o suficiente.

Hitler amou ‘Metropolis’, amou o trabalho de Fritz Lang, e considerou que ele possuía o estofo e a genialidade precisa e necessária para o crescimento da ideologia fascista e o convidou para dirigir esse movimento pelo lado do cinema. Quando se fala da relação cinema / nazismo, a lembrança imediata, e natural, é de Leni Riefenstahl e seu ‘O Triunfo da Vontade’, o arquetípico monumento cinematográfico à glória nazista, que nem por ser assumida e orgulhosamente fascista, deixa de ser magnífica obra de arte.

Fritz Lang não quis ser uma outra Leni Riefenstahl, saiu da Alemanha o mais rápido que pôde, foi fazer cinema em outras paragens e realizou outros excelentes filmes, inclusive alguns de propaganda anti-nazista. Nem por isso ‘Metropolis’ deixará de estampar o pentagrama como símbolo de um Mal absoluto. Nem deixará de ser uma obra máxima da história do Cinema mundial. Este conflito, essa dicotomia, essa confluência de opostos ou consequências, também fazem parte da beleza do pensamento, da inquietação da arte.

Em outra ocasião, tive a oportunidade de eu mesmo exibir ‘Metropolis’ dentro da programação do cineclube montado na universidade, para um público adulto que, majoritariamente, nunca o tinha visto antes. Logo após a sessão, um dos presentes veio conversar comigo e me perguntou exatamente sobre o símbolo do pentagrama despudoramente marcando o cientista louco. Tentei dizer alguma coisa no estilo de que ‘pentagrama não é o mesmo de uma estrela de Davi, embora a proximidade seja o bastante para incomodar’ e que eu também sentia o mesmo incômodo. No final das contas, me esquivei porque, na prática, não sabia responder.

Percebo que este texto é uma comprovação de que eu ainda não sei a resposta.

 

 

 

 

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