Eu gosto de séries históricas. Há séries históricas muito boas. Há séries históricas extremamente ruins. E, abaixo, tem ‘Borgias’

 

‘Roma’ marcou época e definiu um estilo em relação ao modo de encarar os seriados históricos, não só para televisão em geral, como para a própria BBC. Não sei por quais razões definidas… não me pegou. Reconheço toda a qualidade da produção e acredito serem válidas e merecidas as premiações, a fama e a força que ela demonstrou, resultado do extremo cuidado com a ambientação, com roteiros sérios e muito bem trabalhados, com temas que me agradam sempre, as intrigas palacianas, o pano de fundo real, a mistura de personagens históricos com outros fictícios, bons atores e atrizes. E nudez desavergonhada. Tudo muito bom. Mas não curti (será que devo avisar que a palavra ‘curtir’ veio bem antes da criação do Facebook e já era usada antes mesmo que o Mark Zuckerberg nascesse?; espero que não).

Durou somente duas temporadas, um pouco pelo estilo inglês de fazer seriado, com temporadas curtas e episódios bem longos, praticamente média-metragens, e um pouco pelo alto custo da produção. De qualquer modo, pretendo tentar assisti-lo novamente, veremos como será a experiência, depois de um tempo.


Não assisti ‘Spartacus’  e fiz questão de não acompanhá-lo quando começou a ser exibido, por puro e assumido preconceito. Uma espécie de imitação norte-americana de ‘Roma’, tendo como base o personagem e o filme clássico do Stanley Kubrick, de 1960 (que amo!),  e o emoldurando com o tipo de filmagem e fotografia colorida exagerada de ‘300’ de Esparta, do Zack Snyder, de 2006 (que considero apenas mediano), além de fazer uma mistura intragável com o filme ‘Gladiador’, de 2000 (que detestei) copiando descaradamente seu visual das lutas arqui-artificiais.

Por um acaso, acabei assistindo um episódio (por um acaso, mesmo!, não queria gastar o dinheiro do aluguel dos dvds para ver isso) e, putz, me peguei me divertindo horrores.

Tudo que escrevi acima continua válido; acrescente-se os roteiros dramalhões e exagerados, as interpretações canastronas, os constantes jorros de sangue digitalizados nos combates constantes e recorrentes e o resultado final é Extremamente divertido, como não imaginava que seria tanto. O montante de mulheres peladas  a cada episódio e as inúmeras cenas de sexo fake também não atrapalhavam. Pelo menos, na primeira temporada, que termina com Spartacus finalmente se rebelando e começando a revolução contra Roma.

Até que a tragédia (real) aconteceu: o ator principal, que protagonizava Spartacus, Andy Whitfield, foi diagnostico com um tipo de câncer que pensou-se ser tratável. Para dar tempo para que ele se recuperasse do tratamento e para não perder o pique do sucesso de audiência, realizaram uma minissérie que se passava na mesma escola de gladiatores, mas antes que Spartacus ali chegasse. Pensando estar recuperado, começaram a produção da segunda temporada, mas o câncer foi cruel, ele teve uma recaída e dois meses depois de pensar que estava curado, Andy Whitfield morreu. Prosseguiram com a temporada, com outro ator no lugar, de incrível semelhança física com Whitfield, mas o pique tinha se ido. Os roteiros e as histórias foram piorando, a audiência fugiu, e eu também, determinando o final do seriado.

(correção: a série continua, terceira temporada, agora com o nome ‘Spartacus – War of Damned’; pelo visto, consideram que há fôlego para terminar a história do personagem, até seu amargo e previsto fim; ou é puro desespero dos produtores para resgatar os últimos espectadores)


‘The Tudors’ é um clássico. Tudo funciona. Roteiros preciosos, elenco perfeito, produção compatível, direções firmes. Grandes e tumultuosos momentos históricos da Inglaterra e da Europa, prontos para serem dramatizados, com uma trama entupida de cenas tensas e empolgantes, sexo e política, corrupção e guerras, frases de efeito muito bem escritas e colocadas. Em quatro temporadas, acompanhamos Henrique VIII e seus conflitos militares, políticos, religiosos e caseiros. Ao lado da procura pela preponderância inglesa, o racha com a poderosa igreja católica e o papa, seu apetite por mulheres e a busca por uma esposa para gerar um herdeiro (e, quem não o gerou foi descartada e jogada fora, literalmente).

Obviamente, tudo fica mais chique, bonito e palatável se o feioso Henrique VIII da vida real é protagonizado pelo galã (e excelente ator) Jonathan Rhys Meyers, seu melhor amigo (na maior parte do tempo) é Henry Cavill (que vai ser o próximo Clark Kent / Superman), e Ana Bolena é a Natalie Dormer!

O ritmo e a qualidade caem um pouco na quarta temporada, que foca o período inevitavemente menos glamouroso na vida de Henrique, sua decadência física e mental. O problema é que não tiveram coragem de se aprofundar nesse lado feio e a coisa fica bastante artificial. A maquiagem para atestar a idade do rei é ridícula, até mesmo relaxada, e a impressão que passam é que jogam um talco, de leve, na cabeça de Meyers para fazer-se de cabelos brancos. Ainda é possível assistir, mas não com todo entusiasmo das outras temporadas.

E tem ‘Borgias’.


O qual não fazia a Menor questão de conferir, pois tinha ouvido e lido várias e péssimas referências, apesar do pessoal de enorme gabarito envolvido: só pelos nomes do grande cineasta Neil Jordan e o fantástico ator Jeremy Irons já é possível deixar a baba escorrer de tanta ansiedade. Mas as críticas negativas se avolumaram e preferi ficar quieto. No entanto, o seriado conseguiu garantir uma segunda temporada! Ora, então, alguma coisa de minimamente bom deveria ter, pensei. Vou experimentar, pensei mais ainda. Ao menos, me divertiria com a ruindade, se assim realmente o fosse.

Não, não dá para se divertir com ‘Borgias’. Com ‘Spartacus’ é possível achar engraçado o ar geral de canastrice assumida. Não em ‘Borgias’.

Eu fico imaginando que a coisa deve funcionar mais ou menos assim: os roteiristas se juntam, assistem a episódios de ‘Tudors’, pensam em como situá-los para a Itália, diminuem a complexidade dos personagens, das tramas e do enredo para -10%, repassam para um diretor que encontrará todos os meios para tornar as situações, as caracterizações as mais chatas e aborrecidas, não tirará nada de alguns (poucos) bons atores de apoio ao mesmo tempo que deixa solta e liberta a canastrice furiosa de Jeremy Irons, que nunca esteve tão caricato, tão ridículo. Aí fico sabendo (conferi agora) que Neil Jordan não só foi o criador da série, como está assinando a produção, a direção e o roteiro de quase todos os episódios da primeira temporada!

Assim, ao invés de tentar saber como Rodrigo Bórgia consegue se tornar papa e manipular seus capangas, seus inimigos, sua família e suas amantes para o seu próprio interesse, perguntas de outro viés começaram a se acumular: Como Jeremy Irons decaiu tanto? O que aconteceu com o talento de Neil Jordan? Como essa droga conseguiu ter crédito suficiente para uma segunda temporada?!

Um toque: a melhor versão já realizada até hoje sobre as ‘divertidas aventuras da família Borgia, entre incestos, assassinatos, Igreja e política’ é a série em quadrinhos escrita por Alejandro Jodorowsky e ilustrada por Milo Manara; se Essa versão fosse filmada, oh oh, aí sim! Provavelmente seria proibida, mas somente assim para fazer jus a esse tipo de material e esquecer o infortúnio de ter visto o Bórgia de Jeremy Irons.

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6 Comentários em “Eu gosto de séries históricas. Há séries históricas muito boas. Há séries históricas extremamente ruins. E, abaixo, tem ‘Borgias’”

  1. Danielly Says:

    Fico pensando se vc é um crítico renomado de cinema , ou uma pessoa com pós doc em história ? e chego a singela conclusão que não rs .Pois bem ,vamos aos fatos , é sabido de todos, aqui que italianos são caricatos, dramáticos e bonachões , caro mio , então na parte da interpretação, está bem correta a postura, do diretor em dar esse ar mais ” dramático típico de italianos. Fellini que o dia rs !
    Quanto aos argumentos históricos, bem tenho uma crítica a situar o público leigo como vc , sobre fatos e datas históricos , em certa dose. Maquiavel , Carlos vi todo o resto dos fatos de história, foram bem colocados exceto pelo fato do incesto entre irmão , dado não comprovado, historicamente falando, sim Lucreczia Borgia tinha que ter um destaque maior em suas habilidade com venenos , é sabido tb que ela envenenou vários de seus consortes e amantes, e pessoas que poderiam prejudicar sua família..
    Fora isso ( esse quadrinho que não falou nen me ater a pornografia) do que ja estudei e li estou bem contente com a família , por mais que ache que giovani ( deveria ter mostrar mais sobre a notória rivalidade dos irmãos) fora injustiçado rs.

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    • Claudinei Vieira Says:

      Oi, Danelly. Bueno, é verdade, não tenho mesmo pós doutorado em História. Mas, se reler o texto que escrevi, verá que não me detenho sobre a questão da veracidade histórica destas séries, pois todas elas, inclusive a que mais gosto, os Tudors, precisam fazer torções e malabarismos de fatos e dados históricos para poder atender às necessidades mais prementes de roteiro e dramatização.Não são séries didáticas. Não se pretendem isso. São versões dramáticas e fantasiosas de fatos históricos, umas com mais acuidade e cuidado, outras menos. Não sei o quanto ‘Os Bórgias’ segue uma fidelidade histórica. Mas, com certeza, considero-a uma sucessão de cenas chatas e sem-graça, mal-alinhadas e com a mesma densidade dramática de uma novela da Globo. E quando falo na ‘canastrice furiosa de Jeremy Irons, que nunca esteve tão caricato, tão ridículo’ tenha certeza que o faço com uma dor no coração, pois Irons é um ator que aprecio muito, quando decide atuar. Quando está em um momento baixo, é uma tristeza. E ‘caricato’ aqui não se refere a estilo de atuação ou esforço de criação exagerado. É má atuação, pura e simplesmente.
      De qualquer modo, não me queira mal. Só tivemos experiências e reações diferentes e as minhas talvez tenham sido exageradas. Para você, a série pegou bem e te agradou. Para mim, não serviu. VAleu, Abraços

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  2. LP Says:

    Também discordo completamente. The Borgias e Spartacus foram das melhores séries históricas feitas nos últimos tempos (adoro séries históricas)

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  3. Igor Says:

    Discordo de quase tudo que vc escreveu. Quando vc citou Roma e não a considerou a personificação de um Deus na Terra, pensei “esse aí não gosta de séries históricas de verdade” o que só veio se confirmar quando li sua opinião à respeito das outras séries. Uma prova disso, vc errou no palpite sobre o sucesso das séries: Spartacus acabou se tornando um espetáculo de audiência, o maior índice já registrado pelo canal “Starz”, que o produziu e The Borgias garantiu até a terceira temporada e só não foi mais longe pois a Showtime exibia ela no mesmo horário de Game of Thrones (querer peitar a HBO é o mesmo que assinar o cancelamento).

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  4. Maria Isabel Machado Says:

    Olá! Na busca de seriados históricos (assisti a todos esses citados, exceto Spartacus), desculpa a intromissão, mas tem um q também gostei mto, sobre a Rainha Elizabeth, no caso a rainha virgem, filha de Ana Bolena, é mto boa a série na minha opinião, não sei se já assistiu, recomendo. Um abraço!
    Maria Isabel

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