Garagem Lírica. Orfanato Portátil. Marcelo Montenegro.

 

Eu caminhava desavisado pela vida, ignorando os sinais, desprezando os movimentos à minha volta, desacreditando que pudesse haver alguma coisa de qualidade e substância nessa massa subjetiva que pode-se chamar de poesia moderna. De uma certa forma, compreendo as pessoas que pensam que poesia, qualquer poesia, é necessariamente chata por definição, pois eu mesmo participei dessa ignorância.

ok. Aí me deparei com um livrinho chamado ‘Orfanato Portátil’. ‘Hum. Poesia’, pensei antes de abrir o volume. O choque que senti foi tremendo. Tive que revisar e repensar tudo o que eu conhecia e sentia antes. Intrigado, tentei entender como era possível uma junção tão potente entre uma simplicidade de forma, sem palavreado esquizofrênico ou castiço, e sua mensagem forte, afiada, urbana e deliciosamente bela. A utilização das imagens do cotidiano comum, a linguagem prosaica e popular conduzindo a momentos de epifania explosiva.

Ainda não é isso. Tou aqui sentado em frente ao computador tentando reproduzir minhas sensações e, no entanto, consigo somente reduzi-las, pois a minha própria escrita é insuficiente. Creio que pego, um certo, fio da meada quando ele diz das coisas aparentemente simples, a ‘simplicidade sofisticada’, e percebo que é bem por aí.

Sei que, depois do ‘Orfanato’ conheci o ‘Tranqueiras Líricas’, o hiperdimensionamento de sua poesia com a música, o espetáculo poético sensorial produzido com a lírica e o som da guitarra magistral de Fábio Brum, e só posso dizer que é necessário tê-lo assisitido para saber que se cumpriu uma etapa fundamental na mentalidade e sensibilidade de qualquer pessoa. E há o ‘Melodrama Blues’, especificamente, a espantosa síntese de um estado de espírito, a descrição e a definição de um grupo de companheiros que podem não ser exatamente gentís com o mundo, mas possuêm uma prática e uma relação entre si e com sua arte, literatura, música, teatro, cinema, desenho, o que for, que ultrapassam as regras puerís e limitadoras do ‘bom tom’. ‘Melodrama Blues’ precisa de uma aprofundamento maior do que estes pensamentos soltos. Quem sabe mais pra frente. E se descubra assim o quanto este poema é um verdadeiro marco.

Ainda continuo intrigado. No mais positivo sentido possível.

Durante um bom tempo, ‘Orfanato Portátil’ esteve esgotado, com circulação restrita aos poucos donos felizes de um exemplar. Durante um outro (bastante) tempo, seu livro seguinte, ‘Garagem Lírica’, já está pronto, guardado e ansioso para ser lançado, mas Marcelo Montenegro não via sentido publicá-lo se não houvesse uma reedição de ‘Orfanato…’. A editora Annablume comprou a ideia e, afinal, o universo está se alinhando no caminho certo.


Marcelo, estamos vivendo em tempos estranhos. Sem dúvida que o moralismo hipócrita, o cerceamento do pensamento, a falta de oportunidades ao artista, a vigilância do comportamento, a violência e a ignorância sempre estiveram presentes em nossa vida cotidiana, em maiores ou menores graus, conforme a ocasião. Tenho a impressão, no entanto, de que estamos atingindo níveis impressionantes. Concorda com isso ou acha que estou exagerando? Como a poesia se relaciona com essa realidade premente, hoje em dia? Há espaço para um ‘fazer’ poético que surja naturalmente deste nosso cotidiano? Ou é necessário construir uma ‘forma’ poética completamente nova?

Uma vez perguntaram ao Robert Creeley se “havia futuro para a poesia num mundo mercantilizado”. E ele respondeu: “Tanto quanto existirem pessoas nele”. Concordo contigo, o nível tá impressionante mesmo – sem falar na miséria indecente, nesse açougue que é a prostituição da intimidade de celebridades e sub-celebridades e mais uma porção de etcs. De outro lado, porém, a gente não pode subestimar o fato de que em qualquer período da história da humanidade, em qualquer biboca do planeta, sempre teve e continuará tendo pessoas que, mesmo que poucas, mesmo que anônimas, reagem a tudo isso. Que não se subordinam a leis e a modelos de comportamento imbecis, os inadequados. O Leminski, se não me engano, dizia que a poesia é uma espécie de reserva ecológica da linguagem. E eu acho que todos aqueles que não se conformam são um pouco isso também. Uma espécie de reserva humana. Os “que deitaram fora a máscara” do Fernando Pessoa, os “tristes homens azuis” do Marcos Prado, os “que estão loucos pra viver e jamais dizem coisas comuns” do Kerouac, os “imaturos” do Gombrowicz.

Quanto à poesia nisso tudo, todos que trabalham com ela, ou qualquer outro tipo de criação, estão metidos até o talo, são produtos inevitáveis desse tempo. Aí cada escritor lida com isso de um jeito. Tem um historiador, por exemplo, que diz que toda história é contemporânea. Se alguém escreve, agora, sobre os hititas, fatalmente está falando algo dos dias de hoje. O que eu quero dizer é que você não precisa citar, sei lá, terroristas árabes ou o desabamento das Torres Gêmeas. Se tem a ver com o texto, ótimo. Mas isso, por si só, não quer dizer nada. Numa outra chave, não precisa repetir – no sentido dos quinhentos quilos nas costas – os procedimentos de linguagem dos chamados inventores. O Bruce Springsteen tem um lance genial. Ele fala que o que todas as grandes obras fazem é te oferecer “pontos de partida” para a sua própria. Só isso. E tudo isso! Cada um faça o que tiver a fim de fazer, mas me incomoda quando algo soa forçadamente contemporâneo, enganosamente moderno, sabe?

Lógico. Tem o lance de que a maioria tende a ver “mais contemporaneidade” nos rebuscamentos do que na simplicidade, por exemplo. E não é difícil entender isso. Nas coisas aparentemente simples – o que eu costumo chamar de “simplicidade sofisticada” – os, digamos, componentes de atualidade, o engenho literário, a recusa ao fácil, são mais sutis, menos evidentes. Eu sempre penso que enquanto o Godard radicalizava cada vez mais, e corajosamente, suas idéias do cinema como anti-espetáculo, o Truffaut fez, também corajosamente – esse é o ponto – “Noite Americana”. Que o Domingos Oliveira fez “Todas as Mulheres do Mundo” em pleno domínio do Cinema Novo. Que no auge dos anos de chumbo, poucos soltaram berros como os de Roberto e Erasmo em “Se você Pensa” ou “Sua Estupidez”. Então, como brinca meu amigo Mario Bortolotto, “existem mil maneiras de se preparar Neston”.

 

– Influências, influências. Você já se referiu à admiração e o respeito que possui em relação à poesia de João Cabral de Melo Neto. Embora formalmente seus trabalhos sejam distintos, há uma forte relação de companheirismo, de emoção, de paixão. Isso acaba influindo no seu texto?

O que mais me encanta no João Cabral de Melo Neto é como as palavras se relacionam dentro de cada poema. Há um contato – seja por atrito ou combinação inesperada – geométrico e apaixonante entre elas. O Augusto de Campos, no Poesia da Recusa, diz que o que caracteriza a condição do poeta moderno “não é tanto a objetividade exteriorizante ou a introspecção lírica, mas a autonomia do discurso poético”. E cada poema do João Cabral é exatamente isso: um organismo autônomo, e vivo. Não há nada que sobre ou falte. É um bloco. Ético e estético. Como um filme do Clint Eastwood.

Guardadas todas as óbvias proporções, tento sempre construir, do meu jeito, esses organismos autônomos. Tem também um verso inesquecível no poema que o Cabral dedica ao Vinícius (“Camarada Diamante”): “de quem por incapaz do vago/ quer de toda forma evitá-lo”. Sem falar na “mão contida e extrema”, que tem a ver com o Yeats, outro poeta que gosto muito: “todas as revisões que fiz foram no sentido de deixar meus poemas menos poéticos”. Enfim. Eu sempre digo que meus textos são um misto de João Cabral e Jerry Seinfeld.

 

– Literatura, cinema, música, cotidiano, tudo se amalgama e se transforma em sua escrita, no qual um exemplo maravilhoso foi o lance que surgiu de um papo com o Ademir Assunção e da noite que ele ficou assistindo Hitchock. Como foi isso?

A gente tava bebendo e conversando nos Parlapatões, na Praça Roosevelt. Uma hora um amigo nosso, o Cassiano, liga chamando o Ademir Assunção pra vir tomar uma com a gente. E o Ademir disse que tava mais a fim de ficar em casa aquela noite, já tinha até separado um filme do Hitchcock pra rever. Algo assim. Eu tava do outro lado da mesa e não ouvi o papo. Aí o Mario Bortolotto – que estava sentado ao lado do Cassiano – fala pra mim: “Aí Marcelão, ó o programão do Ademir pra hoje à noite. Vai ficar em casa revendo um Hitchcock”. Rimos, lógico. É o tempo todo um rindo e alugando o outro. Na verdade, a maioria dos meus amigos mora naquela categoria inclassificável de inadequados que tentei esboçar, meio romanticamente, até, na sua primeira pergunta. E esse convívio é uma influência por si só. Falei pro Marião: “pô, isso dá uma música hein? Revendo Hitchcock”. E ele, “pode crer”. E um segundo depois já emendou o que viria a ser o refrão: “Eu tô de bode/ Revendo Hitchcock”. No dia seguinte esbocei uma letra e mandei por email pro Mario e pro Ademir (que nem sabia direito da história ainda). A idéia era que os dois a melhorassem. Mas o maluco do Mario musicou a letra, do jeito que eu mandei, naquela tarde mesmo. Ficou do caralho. Um rockzinho swingado, contagiante.

 

Postal

Daqui a 30 anos, digamos,
que alguém leia este poema.
Todos os pequenos laços
que o ligam ao mundo
fora dele e à vida de um
poeta fudido entre milhões
de pessoas lugares motivos não estarão
mais aqui para socorrê-lo.
Daqui a 30 anos a coisa
será somente a coisa mesmo.
Uma cápsula amputada do tempo,
um bife arrancado do amor.

(in Garagem Lírica)

 

Mapas

Mapas malucos em muros úmidos.
Bolhas num adesivo.
Dedo cortado por uma página.
O espanto é um bairro
no olhar do meu filho.

“Não se salva um navio
não o construindo.”
Cicatrizes mudas
no braile do carinho.

As janelas dos carros
fatiando meu reflexo.
Um esguicho de música
no cofre do ouvido.

(in Garagem Lírica)

 

Robert Creeley Band

Monga, a mulher-gorila:
na dúvida, rindo da vida;
aqui, grudada no corpo,
como uma calça jeans
encharcada de chuva –
a preparação do salto
na cabeça do cervo morto.

A musa fatiada na véspera
do mágico. E o jeito encantador
com que a executiva
mexe o canudo
no copo de suco.

Na quermesse dos sentidos,
onde a noite troca de pele
com o dia – O céu esfolado,
anjos em velocípedes –
A esfiha que sobra
na lanchonete que fecha –
Onde o espanto
lustra seus rifles.

(in Garagem Lírica)


 

Sinopse

Canetas que falham ao lado do telefone.
O baque das havaianas na escadaria.
O labor sigiloso de um poema.
Um gemido de geladeira
nalgum ponto perdido do dia.

Um copo que nosso brusco
e cômico malabarismo
evitou que se quebrasse.

(in Orfanato Portátil)


 

Matinê

Às vezes saio do cinema
E me ponho a andar
Cartografias pessoas
Apenas olhar
Ter a leve impressão
De que a cidade está grávida
De um outro lugar

(in Orfanato Portátil)


 

Exile on Main Street

O balde azul claro. O velho quintal.
O cabeçote sujo da memória.
Um filme que se soletra, a tacape, desde o fim.
Forte apache. Benflogin. A lisura do serviço.
Que ser moderno, meu bem, dá nisso.
Poemas sóbrios, beges, concisos.
E evitar no poema palavras como: Bugiganga.
220 volts. Rick Wakeman é o Olavo Bilac do rock.
Nem todo perna de pau tem seu dia de craque.
Estelionato. Western Spaguetti. Birra de criança.
Charme incerto de forasteiro, baby.
Que o cachê cobre a fiança.

(in Orfanato Portátil)

 

entrevista resgatada, por estar perdida no meu antigo site, para comemorar o lançamento e re-lança dos livros de Montenegro; os poemas e mais informações no seu blog http://tranqueirasliricas.wordpress.com

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