Feras no Jardim – Don’t Let’s Go to the Dogs Tonight

 

O apelido de Alexandra Fuller quando criança era Bobo. Um detalhe semântico aparentemente ínfimo diante de todo o contexto de sua infância, mas que, no final, adquire uma impressionante importância. Essa infância deveria ser a mais comum possível, com algumas vantagens adicionais. Isto é, seus pais eram brancos, de origem inglesa (portadores, portanto, de uma intensa e antiga carga de comando imperialista) e viviam em um continente onde a ínfima minoria branca comandava, dirigia e explorava: a África.

Qual o problema, então? Acontece que estes mesmos pais eram alcoólatras, neuróticos e fracassados social e economicamente, que já haviam morado na África e voltaram por não terem conseguido construir uma vida razoável em sua terra natal. Sua mãe era maníaca depressiva, principalmente depois de perder três filhos em idade pequena e dizia que o nascimento de Bobo havia sido encaminhado somente para compensar a morte do seu filho anterior. E, mais do que tudo, esta família branca, racista, neurótica e prepotente vivia em uma África convulsionada em plena guerra civil. A qual seria vencida pelos africanos negros quebrando finalmente a longa tradição colonialista.

A infância de Bobo foi marcada, então, pela intensa necessidade de encontrar balizas físicas e mentais pela sobrevivência, dia a dia, quase minuto a minuto. Aprendeu a engatilhar armas com seis anos de idade; com oito anos já tinha feito um curso de primeiros socorros aprendido como atividade escolar e saberia cuidar de um parto de emergência, fazer talas e conter hemorragias, embora também lhe fosse ensinado que só deveria cuidar destas coisas se não houvesse nenhum adulto por perto. Isso, aliás, é um eufemismo. A lição era bem clara: se todos os adultos ao seu redor estivessem mortos.

Ir para a escola significava prestar atenção nas encruzilhadas para não serem emboscados pelos guerrilheiros ou utilizar veículos especiais que pudessem passar por cima das minas sem explodi-las. Ir trabalhar na fazenda de tabaco da família ou participar das patrulhas armadas organizadas juntamente com os vizinhos fazendeiros implicava sempre em dúvidas se o seu pai iria voltar para casa ao cair da noite.

Ficar em casa, no entanto, também era perigoso. Como quando uma enorme cobra entra esguichando veneno e sua mãe, péssima atiradora, destrói a sala e gasta um pente inteiro de balas até conseguir mata-la. Ou quando um empregado rouba a família, mata a facadas a criada e tenta fugir pela floresta carregando um enorme saco repleto de quinquilharias.

Os negros vencem a guerra. Os antigos explorados agora estão no poder. A Rodésia muda de nome para Zimbábue. A família de Bobo tenta se adaptar, muda para Malui, depois para a Zâmbia, mas são sempre prepotentes, estão sempre deslocados. Talvez, principalmente, de si próprios (de onde não há mudança possível).

Bobo mergulha em suas memórias, navega pelas dores passadas. Sem complacência, sem autopiedade ou mistificações. Mas, também sem falsos moralismos nem pré-julgamentos. O mais admirável é que Bobo consegue transportar para o papel toda essa realidade crua, forte e chocante sem cair em maniqueísmos simplistas e facilitadores. Ao retratar seus pais de forma tão impiedosa, com todas as suas falhas e defeitos, neuroses e preconceitos, ela retira a frágil aparência das máscaras e desnuda o ser humano.

Não foi fácil alcançar esse ponto. Bobo tentou escrever vários romances tendo a África como personagem principal e as tramas seriam conduzidas pelos núcleos de fazendeiros brancos. Ela diz que não foi possível, algo sempre emperrava, os enredos eram falsos e vazios, os personagens aéreos e sem substância. Morou no Canadá, onde se graduou em literatura inglesa e durante anos começou a escrever sete, oito, nove vezes em seguida. Quando decidiu deixar a ficção de lado e assumiu que precisava escrever sobre sua própria vida, a escrita jorrou e, em poucos meses, o livro estava pronto. Era como se, em sua mente, tudo estivesse preparado; a memória foi o seu grande guia e depositário. Só que, para poder deixar que esta memória extravasasse, não poderia haver invenções nem fantasias. Se a carne tinha que se expor, então teria que ser real, assim como a faca e o sangue. A franqueza e a sinceridade foram suas grandes armas. Ela disse em uma entrevista para a New York Times que seus sentimentos de recalque e culpas pessoais a impediram de se exprimir durante muito tempo: “Então, eu decidi que as pessoas poderiam me acusar de tudo menos de dizer a verdade”. Ela tinha que contar como as coisas realmente aconteceram.

O resultado em “Feras no Jardim” é estonteante.

É óbvio que franqueza e sinceridade não garantem de forma nenhuma qualidade literária. Bobo passa por cima de uma simples narração de fatos chocantes. Estamos diante de uma obra acabada de uma escritora que encontrou sua escrita. O que conta aqui é a habilidade da autora em contar dados dramáticos sem nunca perder um sentido de sutileza e observação psicológica profunda, ao lado de um senso de humor e ironia mordazes. Há humor nestas páginas! Não do tipo que provoca risadas e depois, com a consciência tranqüila e sossegada, esquecemos o que acabamos de ler. É um humor incômodo, pesado, que faz-nos lembrar o quanto a vida é irônica e cruel. E, acima de tudo, verdadeira.

Com tudo isso, o apelido se torna mais do que uma lembrança de infância. É uma verdadeira tomada de consciência de uma africanidade assumida, mesmo que atualmente esteja casada com um norte-americano e viva nos Estados Unidos. Foi na África que conheceu seu futuro marido, pois ele trabalhava como guia de turismo no continente. Seus pais e sua irmã continuam morando em território africano, mesmo que mudando constantemente de país. E ela está desgostosa com a vida de competição e de shopping center norte-americana e não quer que seus dois filhos cresçam comendo no Mac’Donalds e jogando videogames. Por isso, seus planos são de se mudar para a Tanzânia.

O seu nome, Alexandra Fuller, aparece somente na capa do livro.  Bobo, então, é seu nome real e é por ele que ela gosta de ser chamada. Com todas as lembranças, dores e responsabilidades consequentes.

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