Paulo de Tharso, Poesia. Visceral, atordoante, rasgante. Poesia.

 

Desalento

Eu deixei meu coração em tuas mãos
E isso não se faz
Eu estraguei minha juventude
Em noites vazias, cheias de argônio
E sonhos delirantes
Eu bebi todo o mar
Na esperança de aproximar os continentes
Fui devorado pelos percevejos
Enquanto fugia dos tubarões
Desafiei os deuses pagãos
Que foram os primeiros cristãos convertidos
Resmunguei canções populares
E blasfemei orações nas calçadas
Fazendo o sinal da cruz
Convivi com sugadores de sangue
E falsificadores de idéias
Que usavam máscaras douradas
Da razão pura, para enganar trabalhadores.
Muito ler os olhos cansa
Não fiz economias para os piores dias
A guerra é demasiado cara
Mas a América não se importa
Se há crianças em minas de carvão
Atrofiando sua musculatura
O belo tempo da infância não dura
E definitivamente, não é com bombas
Que um menino cresce.

 

 

(sem título)
Fiz todas as paciências, vomitei o Kirsch todo, empilhei todos os meus escritos no fogão, amei todas as mulheres até que tudo cheirasse mal. Em breve minha orelha cairá de tão podre que está em ouvir tanta barbaridade. Por que não há paz? Por que tanta gente no meio das ruas sem fazer nada a não ser produzir lixo e gritar e nas praças, tem a policia atirando contra a freguesia… Quem quer que procurem, sei que não sou eu que procuram, e no entanto, me encontram. Com as tábuas das leis acabaram-se os sonhos. Tudo são vícios, tudo é politikamente errado…fazer versos é coisa por demais comum. O pior, é que o diabo não vem mais buskar os melhores fregueses.

 

 

Tradução.

Meu trabalho de ocasião
Meu problema? Metalinguagem.
Do significado para o significante
Do texto para o contexto.
Passar do sema para o lexema
Do semema para o classema
Do léxico pra a sintaxe
( nego essas traduções digitais)
A tradução automática, mostra claramente a desimportância
do léxico.

Por isso fico com as alegrias não medidas
E com as peles não extorquidas
Ontem, conversando com meu amigo provocador Mário Bortolotto
E minha perseverante mulher Adriana Brunstein
Concluímos que as melhores Histórias
São as ininteligíveis.
E que os melhores conselhos, são os inexeqüíveis.
Artes, as não rendáveis.
Críticos, os enterráveis.

Antes dessa conversa
Em outra mesa, num outro sonho,
Com outro amigo não menos provocador, Marcelo Mirisola
Afirmamos que os melhores inimigos são os sensíveis
E que os únicos amigos são os incorruptíveis.
Por isso, decadentes louvaminheiros;
Deixem as mensagens para os mensageiros.

 

 

1º de Maio

É bonito usar da palavra na luta de classes
Klamar alto e bom som pela luta das massas
Levantar bandeiras vermelhas ao som da Internacional
É bonito a propaganda: Brasil, um país de todos!
É bonito flanar em plena terça-feira
E não pensar que a puta da direita espreita, de mãos dadas
com a esquerda vendida.
É bonito pensar que a vida é a propaganda da Petrobrás
E que tudo está na paz de Deus.
É bonito dizer que não há nacionalidade
no espaço mental, quando Glauber Rocha
gritava Terra em Transe.
É bonito esquecer o sangue derramado
para que existisse o 1º de Maio.
Quem ousará o distanciamento Brechtiniano
Quando todos querem um pedaço da Rede Globo?
É feio citar revoluções e flores pisoteadas por canhões.
É feio cantar Mrs. Robinson sem nenhuma emoção.
É feio comemorar o dia do trabalho sem a liberdade
de um cigarro que a gente, sem gravata, não fuma mais sob a sombra
demokrátika.

É estranho rezar o pai nosso sem o pão na mesa.
É bizarro não saber mais em que ano estamos depois de 1984.
É bonito falar em Estado de direito, quando só resta o Estado
policialesco.
Parabéns trabalhadores! Escravos do Estado sem nenhum direito.
Que dia glorioso!
Viva Getulio Vargas e o teu salário mínimo!

Bonito mesmo são os olhos desse menino
querendo ser Villa Lobos.

 

 

Cantor, músico, ator, poeta, prosador, o que busca Paulo de Tharso, o que move sua existência, suas vísceras? Sua voz, seus gestos e pensamentos ecoam pelas ruas e pelas noites de São Paulo e fazem vibrar a consciência. Em certo momento, falando de suas letras de músicas, ele diz “São canções que buscam a verdade, ou perto disso”, o que está bem próximo também de sua arte e de sua vida. 

 

(comentário sobre ‘1° de maio’)

Nessa madrugada escrevi um texto – prosa sobre 1º de maio. Foi bem compartilhado, mas isso não importa. Acredito até, que a foto do menino (de quem desconheço o nome do autor, e foi o que mais tocou os corações), tenha movimentado as almas. Mas o que eu pretendi dizer com o texto, é que todos nós temos uma responsabilidade com a porra dessa vida, que é uma incógnita geral. O quid eterno do homem que se pergunta o tempo todo de onde veio, para que veio e para que lugar irá, quando tudo akabar. A imobilidade incomoda o século. Temos em nossas mãos um instrumento poderoso e o que fazemos com ele? Nada! É um fricoti-fricota, brigas sem sentido, sorrisos de bokas desdentadas por qualquer piada sem graça. Um tal de kkkk, rsrsrsrs, ops… Escuta pois kamarada maldito, kamarada miséria; O teu silêncio não é ouro. Aqui é crime! Miséria é o nome da minha kadela que só tem três patas. Nessa madrugada, percebi kamaradas tranqüilos e prósperos transcrevendo o que eu disse. Mas eu pergunto; o que foi que eu disse? O que foi que eu escrevi que não era sentido ou conhecido por todos? Troco o logos de Éfeso, o da posteridade pelo da prosperidade geral sem pestanejar. Eu desejei falar daquele que construiu Tebas, a das sete portas. Desejei mostrar que nos livros vem o nome dos reis. Mas foram os reis que transportaram as pedras? Atrás destes teclados todos tem coragem. Mas contra quem? Não negam o que disseram, mas o que disseram? Tem sua opinião? Mas que opinião, se na manhã seguinte, por meio de kanetadas obscuras, tiram o teu direito de ir e vir? Do que vale a porra da tua opinião se ela não vai para as ruas, se empacotar na desordem das massas? Não sou dono da verdade, ninguém é! Então por que balançam verdades todos os dias, com o dedo em riste em propagandas orgânicas? Foge da sombra por um momento e te arrisca na tempestade da crítica, do ridículo e por um momento, um só momento te afasta do medo e busca a glória da luta pelo próspero alheio, mesmo que te pareça inglória a tua luta.

É verdade, meus inimigos dizem que sou um bêbado sem futuro, um perdedor __como me alcunham alguns funcionários públicos que falam das canções que nunka escreveram e dos romances que jamais leram __, mas que adoram freqüentar as mesas dos notáveis. Mas é verdade também, que aqueles que me conhecem, sabem bem que sou um animal provokador, com um enorme coração pronto a chafurdar na merda por qualquer hum que precise de uma voz. E a minha é boa. É forte, apesar de rouca. Sou um purista e não me envergonho disso. Enfim, se você teve a paciência de me ler até aqui, já percebeu que não existe mais nada! Mas eu não vou me assumir numa líquida senescência. Sou um negro branco que come merda todo santo dia porque sou negro e me chamam de branco sujo. Obrigado pela atenção.

Paulo de Tharso

 

Dia 26 de maio, o impacto da voz profunda de Paulo de Tharso, junto com Diego Basanelli e Marcelo Watanabe, poderá ser apreciada ao vivo em sua apresentação no espaço Estação Caneca (Rua Frei Caneca, 384 – Consolação). Sua voz continua presente e poderosa em outros espaços:

https://www.facebook.com/pdetharso

Lenta Senectude
http://salvemofelix2.blog.uol.com.br/

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