Poesia, Desconcerto, a desabrandar

 

Poesia, no sentido desconcertábil da palavra, não tem relação com um simples jogo formal de arranjo de palavras.

Ou, pelo menos, não se limita a isso. Poesia é um momento de Verdade, de confluência, de Beleza, de infinita epifania.

Obviamente, no contexto deste meu universo/desconcerto, Beleza nada tem a ver com boniteza.

Há Poesia em sinais de tráfego na Avenida Paulista em horário de rush no sábado à tarde; em um copo de cerveja quente perdido no parapeito de uma janela do quarto de um amante esquecido a dormir na inconsciência pesada de uma noite quente de verão urbano; Poesia no halo de um bico de seio fresco sob a língua ainda molhada, ainda desejosa. Há poesia na morte, no abandono dos mendigos jogados na chuva, nas barracas de doces do centro da cidade, e há Poesia na solidão, pois nada se diz que o ser poético também não possa resultar em amargura, indecência, ou vulgaridade. Há um bafo de poesia na mistura de sarro de cigarro e cheiro de vodca barata na boca da pessoa amada, e mesmo que, pensando bem, não deixe de ser um tanto nojento, nada impede que seja poético.

Houve Poesia naquele jantar improvisado de madrugada com peixe assado com alguns amigos quando nos entreolhamos espantados e soubemos que algo especial acontecia, que uma emoção diferente fluia, mesmo que não conseguíssemos verbaliza-la ou, na verdade, sequer vislumbrássemos sua presença. Houve Poesia no buraco de bala na testa da bela mulher estendida no mesa do necrotério, à espera de ser reconhecida e reclamada por parentes. Houve Poesia no primeiro beijo da primeira namorada no nosso primeiro encontro quando lhe confessei envergonhado que não sabia o que era ‘namorar’ e ela respondeu ‘não tem problema, eu te ensino’.

Houve Poesia na primeira vez que assisti o filme do Superhomem.

Houve explosivos momentos de Poesia e Beleza em encontros literários que organizei, em homéricas badernas bêbadas com amigos plenos e suas respectivas arrasadoras ressacas filhas da puta, em mesas de bilhar ou pingue pongue.

Hoje estou um tanto quieto e a Poesia outro tanto abrandada. No entanto, cada centímetro e cada milésimo de segundo de Poesia vivida podem preencher uma vida inteira. Posso dizer com orgulho que possuo algumas vidas acumuladas.

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A Poesia está começando a desabrandar. Os desconcertos poéticos recomeçam. Isso é bom.

(imagem: Wilson Neves)

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