Retrato do Artista Quando Velho

 

Eugene Pota, personagem-narrador-objeto do último romance de Joseph Heller, é um escritor cujos livros, embora intelectualmente densos, sempre venderam bem. Respeitado, convidado constante para dar palestras, qualquer nova obra tem publicação certa. Aos 73 anos, não possui problemas financeiros e seu casamento com a terceira mulher é estável, apesar de viver dando em cima das mocinhas de 40, 45 anos. Está passando, porém, pelo terror de todo escritor, ou mesmo de qualquer pessoa que alguma vez tentou colocar um pensamento no papel: a falta de inspiração. No ocaso da vida, sua vontade é de escrever uma obra-prima que tivesse o mesmo sucesso retumbante de suas primeiras obras e, quem sabe, até fosse vendida para Hollywood. No entanto, nenhuma idéia decente aparece; nada que o faça retomar o antigo entusiasmo. Como escrever algo que já não tenha sido dito, e melhor, por outras pessoas de talento, inclusive ele próprio?

Em desespero, se volta para obras consagradas e começa a parodiá-las. Tenta uma versão atualizada da “Metamorfose”, de Kafka, desta vez na Manhattan do final do século XX. Joga-a fora. Vira-se para a Bíblia e tenta imaginar como seria o relacionamento entre Deus e sua Mulher. Mas isso acabaria em uma outra variação irônica da Criação, de Adão, de Eva. Quantos já não fizeram isso? As infidelidades de Zeus contadas por sua mulher, Hera. A vida de Tom Sawyer adulto. O sacrifício de Isaac, do ponto de vista de Isaac. Nada. Nada. A única idéia que lhe parece interessante e que consegue arrancar um saudável sorriso irônico das pessoas ao seu redor, quando anunciada, seria um romance com o título “Uma Biografia Sexual de Minha Mulher”. Mas ele nunca consegue avançar além do título.

Retrato do Artista Quando Velho” foi escrito por Heller aos 76 anos, pouco antes de morrer. Ele não viu a obra ser publicada. É, pois, um inquietante e incômodo relato fictício/autobiográfico. A estranheza vem do fato de que Heller não poupa a ironia pesada e o sarcasmo ao se retratar, ao comentar suas idiossincrasias e manias de velho, suas incertezas de escritor, as dúvidas sobre a qualidade de sua obra, suas infidelidades amorosas, que só não são efetivadas pela sua decadência física. Ao contrário do seu alter-ego Eugene Pota, no entanto, Heller tem a escrita bem firme e esbanja talento, humor (mesmo que cáustico e, no mais das vezes, bem melancólico), e elegância de estilo. Na verdade, os trechos ‘escritos’ por Eugene do diário de Hera são muito engraçados e a versão de Kafka merece figurar em qualquer antologia. Com a ironia já começando pelo próprio título, uma referência direta do clássico “Retrato do Artista Quando Jovem”, de James Joyce, e mesmo o nome do personagem, Pota, é derivada dessa brincadeira (Portrait Of The Artist).

Joseph Heller é considerado um dos mais importantes escritores norte-americanos do século XX. Nascido em 1923, escreveu vários contos e artigos de prestígio, quando lançou no começo da década de 60 uma novela que o consagrou mundialmente, tanto pela crítica quanto pelo público: “Ardil 22”, uma sátira arrasadora da Segunda Guerra Mundial, utilizando sua própria experiência como aviador. Esse livro foi filmado na década de 70, também com bastante repercussão. “Ardil 22” penetrou tão fundo na consciência norte-americana que se tornou um dos símbolos máximos do movimento antibélico e foi tomado como estandarte pelos militantes contrários à guerra do Vietnã. E, segundo o jornalista e escritor Marcelo Barbão, “Catch 22” até virou uma expressão popular, significando uma situação onde não há vencedores.

Heller nunca deixou de escrever, até morrer de infarto em 1999. Sua obra inclui vários outros romances, contos, ensaios, peças de teatro, artigos. Sendo assim, seu último livro se torna, portanto, o seu testamento literário, um auto-ajuste de contas, uma lavagem de roupa suja consigo mesmo, refletindo suas preocupações sobre a vida, o peso da idade, a literatura, fracasso pessoal, a busca por um sentido para sua existência.

Em uma entrevista para Barbara Gelb em 1994, pode-se perceber como isso estava presente em sua mente. Em um determinado momento, ele diz como ficou impressionado ao constatar o quanto a profissão de escritor havia levado tanta gente ao desespero existencial, desembocando no alcoolismo, depressão, suicídio.

Quando Gelb pergunta se ele estava indo pelo mesmo caminho, responde, enfaticamente: “Não… ainda. Eu estou indo muito bem, emocionalmente. Ou, pelo menos, acho que sim”.

Isso acabou se refletindo em algumas das páginas mais impressionantes de “Retrato…”. O jovem Tom Sawyer cresceu e agora quer se tornar um escritor. Vai em busca de conselho. Naturalmente, tenta se encontrar com a pessoa que se tornou famosa as suas custas, Samuel Clemens, mais conhecido como Mark Twain. Ao chegar ao seu endereço, no entanto, constata que Twain está percorrendo o país com palestras pagas para conseguir cobrir as vultosas dívidas contraídas com suas aventuras comerciais. Mais tarde, fica sabendo de suas tragédias pessoais, a morte da esposa depois de uma grave doença, a morte da filha afogada em uma banheira ao ter um ataque epiléptico, o próprio fim melancólico.

Tom Sawyer tenta falar, então, com o lendário Jack London, o protótipo do self-made man norte-americano, criador de obras imortais como “Caninos Brancos”, “O Chamado Selvagem”, exemplo do homem que ficou milionário com literatura. Ele, porém, estava viajando pelo Havaí. E se suicidaria ao voltar. Sawyer acaba indo para Inglaterra encontrar Stephen Crane, autor de “O Emblema Rubro da Coragem”, mas este morrera na Alemanha, de tuberculose, carregado de dívidas, aos 28 anos. Dos ingleses, Henry James vivia recluso e deprimido pelo desprezo da crítica por suas últimas obras, como “Os Embaixadores”, “O Cálice de Ouro” (que só seriam reconhecidas como obras-primas depois de sua morte) e invejoso do sucesso da norte-americana Edith Wharton (que, apesar disso, era explorada por um marido alcoólatra que roubava seu dinheiro). E mais: Bret Harte, Joseph Conrad, todos com histórias trágicas.

Sawyer, horrorizado, desiste de ser escritor e volta para junto de sua tia Polly, decidido a se tornar ferroviário.

Eugene Pota/Joseph Heller chama a isso de Literatura do Desespero.
Heller conduz sua escrita com absoluta precisão. Da comédia desbragada ao drama, da celebração da vida à melancolia do cotidiano. Emocionante, engraçada, sensível, satírica. É uma lição de pura literatura.

cena do filme 'Ardil 22', baseado na obra de Heller

 

 

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