Para Guimarães Rosa, um nome nunca é somente um nome.

 

Guimarães Rosa não é somente uma literatura: é todo um universo sensível lingüístico, literário e cultural agrupado em uma só pessoa. Um escritor fenomenal com uma impressionante capacidade mental do qual parece não haver fim. Suas obras são como camadas da superfície da terra que, por mais que seja escavada, sempre revela outra e outra camada, um matiz diferenciado e insuspeitado. Com a diferença de que a Terra não faz isso conscientemente.

Em Rosa, tudo é arquitetado, minuciosamente construído, previamente concebido. Por isso, a leitura dos seus livros também possui diversas camadas, várias fases, que vai além, muito além, do primeiro impacto, de conhecer as histórias e os enredos e se deliciar com as milhares de brincadeiras semânticas, sonoras, brilhantes, espalhadas ao longo dos textos. Mas, também é fascinante descobrir o trabalho do autor, atravessar as tessituras, compreender os sentidos. Rosa é tão grande que montou vários jogos interpretativos, logo abaixo da fina superfície narrativa. E como verdadeiro mestre de cerimônias convida-nos a entrar no jogo, compreender as nuances, viajar pelas palavras.

Ana Maria Machado parte desta primeira constatação: em Guimarães Rosa, nada é por acaso, nada é à toa, tudo possui um propósito específico e consciente. Ate aí, nada de mais. Basta ler qualquer livro para o perceber. Mesmo a questão dos Nomes rosianos já foram estudados: sua etimologia, as construções originais, a contribuição de tantas e diversas línguas dos quais Rosa era mestre.

O nome próprio em um texto como o de Proust ou o de Guimarães Rosa é, portanto, uma palavra poética, um signo espesso e rico que escapa sempre aos limites de cada sintagma, enviando ao conjunto do texto, e mesmo para além do texto.”

Ah, mas Ana Maria Machado envereda por caminhos diferentes e traz à luz uma profundidade insuspeitada: os Nomes Próprios para Rosa possuem uma função não só designativa, não são somente uma caracterização dos personagens, não são decisivos somente para demonstrar a personalidade ou a alma de um Diadorim, de um Riobaldo, ou de um Miguilim. Os Nomes próprios são determinantes para a própria narrativa!

O Nome, em Guimarães Rosa, não atribui ao personagem uma característica marcante que o acompanha em todas as situações vividas, mas ao contrário, vai recebendo em cada novo momento um novo significado e, freqüentemente, um novo significante, num processo de permanente mutação do signo. Assim, o nome próprio não é um atributo mágico descritivo, que confere características ao personagem, mas um signo do funcionamento da narrativa e do desenrolar da ação.”

Vejamos como isso funciona na prática, com um exemplo: em “Grande Sertão: Veredas“, Diadorim, além de carregar suas milhares de possibilidades interpretativas (DIADORIM: Diá como Diabo; Diá, como Dea, referindo ao outro pólo, Deus; conjugação do verbo Dar; Dia, em suas conotações de tempo, luz, brilho; Dor; Adorar, deadora, deamar; Durar; Ódio, odiar; Odor; Rio e etc), ela também traz uma história própria, sua. Quando Riobaldo conhece Diadorim, é sempre como O Menino, ou Menino do Porto ou o Menino-Moço; depois, seu nome é Reinaldo; e só por fim, vem Diadorim. Cada apresentação do nome corresponde a um momento dramático preciso e objetivo do livro, determina o andamento da trama e da aproximação dos personagens.

Isso já é muito interessante, mas Ana Maria é uma verdadeira arqueóloga literária: fuça nas entranhas da terra, escava e nos mostra os ossos: Em “A Hora e a Vez de Augusto Matraga“, acompanhemos a história, a narração, através dos nomes dos personagens. Neste conto, o personagem principal é um prepotente que, depois de escapar da morte, acaba levando uma vida dedicada à pobreza e morre quase como um santo. Pois bem, Ana Maria assinala:

um Augusto personagem, cujo sobrenome (Esteves) assinala o caráter transitório de seu estar no mundo, é mais conhecido como Matraga. Para quem segue um caminho de ascensão espiritual, tendo casado com Dionora, nora de Deus, passado pelo obstáculo de Flosino Capeta, se aproximado de Joãozinho Bem-Bem junto a Epifânio, e tendo sido mandado num jumento para salvar desamparados, tudo leva ao atingimento de sua hora e vez, que ele entrega a Deus, conforme lhe fora ordenado em próprio nome, Matraga.”

No capitulo 5, no entanto, Ana Maria vai mais longe, ao desmontar o edifício de “Recado do Morro“, uma das novelas de “Corpo de Baile“. A questão que ela se coloca é a seguinte: como hipótese teórica é possível trocar os nomes dos personagens de um escrito de Rosa? Calma, tranqüilamente, ponto por ponto, com sua prosa suave, Ana Maria prova que não. E mostra a importância disso.

Grosso modo, “Recado do Morro” conta uma viagem de sete dias de um grupo guiado por Pedro Osório. Cada nome dos personagens tem relação com o nome dos donos das fazendas por onde eles passam que corresponde diretamente ao nome do dia da semana específico que determina a ação que cada um vai cometer. Este é somente um dos fios tomados por Ana Maria. Não é possível aqui refazer esta trilha, mas não posso me furtar a exemplificar: Domingo é dia do Sol, Apolo, (sun-day) e eles estão na fazenda do seu Apolinário; terça é dia de Marte, deus da guerra (martedi, mardi, martes), na fazenda do seu Marciano, onde acontece uma briga; sexta-feira é dia de Vênus (venerdi, vendredi, vernes), na fazendo Bõamor, de Dona Vininha, onde sai um namorico com a filha da dona, Lirina (e Lírica é filha do Amor, na mitologia grega). E por aí vai. Creio que foi suficiente para demonstrar que Ana Maria é minuciosa, cata os exemplos, cita as palavras, nomeia as páginas. Elegantemente, prova sua tese.

Com essa discussão, ficamos conhecendo uma figura intelectual que não é muito conhecida, ou melhor dizendo, praticamente desconhecida: Ana Maria Machado, a ensaísta! Escritora tão famosa de livros infantis e infanto-juvenis, membro da Academia Brasileira, já ganhou o “Prêmio Nobel” da literatura infanto-juvenil mundial, o “Hans Christian Andersen”, já vendeu quase 14 milhões de livros, com quase cem obras escritas. Mas, também, como vimos, é uma ensaísta espetacular.

“Recado do Nome” é sua tese desenvolvida nos anos de 1969 a 1972 na França, no Brasil corria brava a ditadura, sob a orientação de Roland Barthes. Foi publicada somente em 1976, tornando-se desde já um clássico da ensaística literária. Segundo a apresentação da edição da Nova Fronteira, Barthes teria dito que Ana Maria fizera o que ele mesmo não conseguira fazer com Proust; e Carlos Drummond de Andrade dizia que só lamentava duas coisas: “que Guimarães Rosa não estivesse vivo para ler este livro … e que Ana Maria não tivesse escolhido voltar seu olhar para a obra dele, Drummond, pois era a leitora que ele sempre gostaria de ter tido“.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer

 

 

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2 Comentários em “Para Guimarães Rosa, um nome nunca é somente um nome.”

  1. Neuza Paranhos Says:

    Claudinei, Guimarães Rosa é quase uma seita pra mim. Tipo: faço yoga e Guimarães Rosa. Há muito tempo perguntei a uma porção de gente que livro teórico seria legal ler sobre ele e ouvi respostas do tipo “há, mas vc vai ler sobre Guimarães a estas alturas do campeonato?” Agora vc desvendou pra mim esse livro da Ana Maria Machado – gostei da genealogia dele. Tenho inveja das pessoas que conseguem pensar, organizar, equacionar e… criar. O pouco que tenho conseguido fazer acontece intuitivamente e olhe lá. Por isso, vou tentar ler a Ana Maria sobre os nomes em Rosa. Vai que bate…. Beijos.

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    • Claudinei Vieira Says:

      Neuza, em períodos quando pretendo escrever ficção, a última coisa que posso fazer é reler Guimarães. A sensação de humilhação é tão grande que entro em depressão e me pergunto ‘escrever pra quê?’ e fico miudinho no meu canto.
      Eu recomendo o livro da Ana Maria, é simples, muito gostoso de ler e revelador. Tenho certeza que você vai curtir também. grande beijo.

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