Obama, Uhura, e o beijo interracial galáctico

 

Nichelle Nichols, a Tenente Uhura da clássica série de ficção científica, Jornada nas Estrelas, sendo recebida na Casa Branca pelo único presidente negro da história de um dos países mais preconceituosos e intolerantes do mundo, ambos  fazendo a saudação vulcana, o famoso gesto-símbolo do seriado. No entanto, o que deveria ser uma cena épica, carregada de um simbolismo tremendo, quem sabe até mesmo altamente contestador, tornou-se… vazia. Em outros tempos, talvez causasse impacto; hoje em dia, porém, provoca uma sensação fria de indiferença.

Nichelle já contou dos perrengues que sofreu e dos problemas que passou na época da série, que começou em 1966 e durou três anos (com muito esforço e apesar da aflitiva mesquinharia gananciosa dos produtores, nada interessados na importância histórica ou artística de um programa que não lhes dava o retorno financeiro pretendido): a pouca importância que seu personagem tinha nos enredos, quase sempre se limitando a uma frase ou duas no episódio inteiro; as crises de estrelismo de William Shatner, o capitão Kirk, que sempre queria tomar mais e mais espaço e não se incomodava de tentar diminuir a participação dos demais atores; as longas jornadas de trabalho e a precária preparação (todos tinham que correr e fazer o máximo no menor tempo possível para diminuir os custos e escapar do fantasma do cancelamento que  sempre os assombrava e os ameaçava a cada final de temporada), além dos contínuos problemas de produção, cortes de despesas, falta de pessoal, etc.

‘Jornada nas Estrelas’ era o projeto pessoal de Gene Roddenberry que acreditava ser possível fazer discussões profundas através de um produto eminentemente de entretenimento, mesmo na televisão, mesmo na década de 60 nos Estados Unidos. Sua primeira tentativa de realizar suas pretensões deixou os produtores perplexos: no episódio de apresentação, o personagem principal, Capitão Christopher Pike, era um caucasiano corajoso, inteligente e destemido, feito pelo branquíssimo Jeffrey Hunter, e até aí, tudo bacana. O problema começava pelos personagens coadjuvantes imediatos: na ausência do capitão, quem tomava conta da nave era uma mulher! eficiente e também muito destemida; outro personagem muito importante era um ‘marciano’ com aparência de diabo, orelhas pontudas e sobrancelhas finas arqueadas; e era uma sociedade igualitária, onde os humanos eram somente parte de uma federação que englobava várias raças diferentes. Para dourar a perplexidade, as missões daquela tripulação tinham um cunho de pesquisa científica  e levavam uma mensagem de paz para o universo. Sem guerras interplanetárias, sem aliens malvados e sedentos de invasão da Terra, sem a propagação da ‘natural’ superioridade humana (branca e norte-americana) por outros mundos.

A rejeição dos produtores foi imediata, e o episódio foi arquivado imediatamente, mas alguma coisa deve ter tocado suas mentes (e seus bolsos) pois permitiram que Roddenberry tivesse mais uma chance, Desde Que tirasse aquela mulher do comando (mulheres deveriam ser bonitinhas, insossas e servir como interesse romântico do capitão), esquecesse aquele ‘marciano’ esquisito, e agilisasse a história. Roddenberry disse ‘sim’ para tudo, sacrificou a personagem feminina, e manteve quase todo o resto exatamente como pensava antes. Em alguns pontos, até radicalizou: não só manteve o alienígena de orelhas pontudas, como o promoveu a Segundo em comando; mudou o ator principal; e, principalmente, aumentou a diversidade racial e intergaláctica da tripulação, colocando como auxiliares diretos um nipônico, um russo (em plena Guerra Fria) e uma mulher negra, Nichelle Nichols, como Tenente e Chefe das comunicações da nave Enterprise.

Nichelle sempre teve muita consciência do imenso valor simbólico de sua presença em uma mídia tão importante, principalmente na época do fervor dos movimentos de direitos civis, da contracultura e dos grupos negros de contestação, o que não relaxava a pressão que sentia e a deixava exasperada. Mas a coisa realmente piorou com o episódio do mítico Beijo Interracial Intergaláctido. Que não aconteceu.

Roddenberry sabia bem que pisava em terreno ultradelicado quando cogitou a idéia de uma história onde o Capitão Kirk beijava a Tenente Uhura, uma cena que seria histórica na televisão mundial (seria o primeiro beijo interracial em transmissão nacional), portanto preparou-a com bastante cuidado: escreveu um enredo com sentido e onde o beijo não seria gratuito, avisou os atores com bastante antecedência (até mesmo perguntaram para William Shatner se ele se ‘importaria’ de fazer a tal cena, e ele respondeu ‘Vocês estão me “pedindo” para beijar a Nichelle? E ainda vão me pagar?”). Nichelle ficou eufórica: além de sua participação no episódio ser bem maior do que o normal, o simples fato de existir aquela cena era do tipo de marcar a carreira de qualquer ator ou atriz. A série e seus participantes atingiriam de imediato outro patamar de importância.

Os produtores não entenderam desse jeito. Na verdade, ficaram horrorizados. Brigaram e tentaram retirar a cena. Roddenberry bateu pé e insistiu com veemência, mas foi obrigado a amenizar o máximo que pôde: o capitão estava sendo forçado a beijar a tenente, por conta do poder mental de alienigenas despóticos! (Shatner disse que até faria uma careta para enfatizar que o capitão estava sendo ‘forçado’ a isso). Não adiantou. No final das contas, o beijo ficou somente na simulação: quando o capitão se aproxima, a câmera se afasta e se fixa em suas costas durante todo o tempo em que dura o ‘ato’ e só se aproxima de novo quando os corpos se afastam. Shatner descreveu o momento patético ou simplesmente ridículo: os produtores fizeram questão de assistir a filmagem e ficaram ao redor, bem de perto, para se certificarem que os lábios dos dois nunca se tocariam de verdade…

O desânimo de Nichelle foi imenso, naturalmente. Para um seriado que se passava em uma avançada sociedade do século 23, o racismo era ainda muito próprio do mero século 20.

O cansaço e a irritação foram minando as resistências de Nichelle que pensou em desistir e teria até mesmo pedido demissão a Roddenberry. Na mesma época, durante um evento do movimento negro no qual participava, vieram lhe chamar e disseram que um grande fã seu queria lhe conhecer. Curiosa pelo tom de voz de quem lhe falou ‘um grande fã’, ela foi até a mesa e se viu sentada ao lado de Martin Luther King!, que lhe professou uma genuína admiração. Conforme a conversa evoluiu, ela acabou se soltando e desabafou os problemas da série e de sua vontade de se demitir. Depois de ouvi-la com atenção, King respondeu:

“- Não faça isso, Nichelle, você não pode fazer isso. Você não percebe que o mundo, pela primeira vez, está começando a nos ver como iguais? Seu personagem partiu para o espaço numa missão de cinco anos. Ela é inteligente, forte, capaz e um modelo maravilhoso de papel, não apenas para o povo negro, mas para todas as pessoas. O que você está fazendo é muito, muito importante, e eu odiaria ver você simplesmente abandonar tão nobre tarefa.” (‘Jornada nas Estrelas – Memórias’, William Shatner e Crhris Kreski, ed. Nova Fronteira)

Receber um pedido de uma figura de tal porte fez Nichelle Nichols recuperar o fôlego e continuar sua jornada. Por onde se vê o quanto Martin Luther King influenciou até mesmo a cultura pop do seu país!

Quase quarenta anos depois da estréia do primeiro episódio de ‘Jornada nas Estrelas’ na televisão, ainda é complicado avaliar os tremendos avanços dos movimentos negros norte-americanos na sua luta contra o racismo e pela plena inserção da população negra na vida orgânica do país, ao lado da manutenção das imensas desigualdades ainda vigentes. O que, em última instância, foram o que garantiram a posse de um homem negro na presidência dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que ele mantém, com todo garbo, carisma e elegância, a mesmíssima política (econômica e social, militar e civil) de todos os demais branquíssimos presidentes anteriores. Se não se pode concordar com todas as linhas com um cartum publicado logo no primeiro ano da gestão de Obama que o representava como somente um Bush com pele e traços afro-americanos, não se pode igualmente deixar de reconhecer que ele nunca se elegeria se não tivesse sido bancado, financiado e apoiado por boa parte da elite branca burguesa, cuja única preocupação é a manutenção eterna de seus privilégios.

Ainda hoje, beijos, sexo e relacionamentos interraciais, embora bem mais comuns, não são plenamente aceitos e respeitados, mesmo que não produzam escândalos violentos (pelo menos, publicamente).

Por conta de tudo isso, a simpática foto de Barack Obama ao lado de Nichelle Nichols é repleta de contradições, ironias e significações. É reconhecida e divulgada a ‘nerdice’ do presidente, que adora cultura pop, cinema, traquinarias eletrônicas e quadrinhos, e já foi retratado e reverenciado na companhia de vários superheróis. Ele, o primeiro presidente negro. Ela, a primeira tenente e chefe de comunicações negra da Frota Estelar, que pôde levar uma mensagem de paz e igualdade para além de universos conhecidos, embora não tenha podido beijar seu comandante branco. Seria demais esperar, seria ingenuidade-monstro da minha parte, acreditar que tal encontro deveria significar mais e ter um significado muito maior do que uma simples pose bonitinha?

Eu não esperaria nada de bombástico ou estratosférico. Com certeza, não aconteceria o fim do preconceito racial, uma tempestade protônica galáctica, a invenção do holodeck, muito menos a mudança radical nos rumos políticos e econômicos do presidente democrata. Mas, com certeza, Nichelle Nichols merece mais, muito mais do que um simples aperto de mão ou saudação vulcana, mesmo que de um ‘irmão negro’ tão poderoso.

Quem está sobrando nessa foto é Barack Obama.

 

 

 

 

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3 Comentários em “Obama, Uhura, e o beijo interracial galáctico”

  1. Denise Quintal Says:

    Muito bom, Claudinei, muito bom!!!

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  2. Maiara Cordeiro Says:

    Que postagem maravilhosa!

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