Marlon Brando também exagerava. Desde moleque.

 

Neste fim de semana passado, eu supri uma falta grave da minha paixão cinéfila: finalmente assisti a ‘Uma Rua Chamada Pecado’, um dos primeiros filmes de Marlon Brando.

Apesar de conhecer tanto da peça original de Tennessee Williams (´Um bonde chamado desejo’ foi uma das primeiras peças que eu li na vida, muito antes de sequer assistir uma ao vivo), de saber das histórias dos bastidores da adaptação para o cinema, de ter visto algumas cenas e trechos empolgantes, e de acompanhar a impressionante carreira de um dos maiores atores de cinema do mundo e de constatar o quanto ele foi grande, ou talvez exatamente por tudo isso, eu tinha um tanto de receio de que minhas expectativas tivessem sido infladas ao longo dos anos. De que o filme mítico tivesse muito mais de mito do que arte.

Afinal, era bem plausível que alguma coisa, ou muita coisa, tivesse envelhecido ou não tivesse a mesma força (o filme é de 1951). Brando ainda era muito jovem, apesar de seu talento já estar sendo bem reconhecido (tinha feito somente um filme antes, com bastante sucesso, mas já era respeitado como ator de teatro), e Vivien Leigh, bem, tinha sido a Scarlet O’Hara, de ‘… E o Vento Levou’, o que para mim não era exatamente uma boa recomendação. Será que Brando, como Stanley Kowalski ainda conseguia impressionar como símbolo de uma sexualidade selvagem e brutal batendo de frente com a fragilidade e doçura demente e insana da Blanche DuBois, da Vivien Leigh?

O que posso dizer? Sim e Sim. Brando é uma explosão sexual latente e dolorosa, visualmente impactante, e um ator espetacular, desde já (e isso apesar da cara de moleque e da voz esganiçada, o que só prova sua força de atuação). E a etereidade irritante de Vivien Leigh só realça a crescente demência da personagem e seu mergulho cada vez mais fundo no seu mundo de fantasia particular, como fuga da realidade feia daquele bairro operário e da presença sexualmente opressora de Kowalski (tanto que ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz daquele ano, um dado que eu já sabia, mas tinha sublimado e deixado de lado).

Talvez a mão forte do diretor Elia Kazan pese um pouco, evidenciando ainda mais a origem dramatúrgica, mas essa foi uma opção pensada: o fato da maioria absoluta das cenas se passarem no mesmo ambiente torna o clima ainda mais sufocante e claustrofóbico e os embates entre os personagens mais pungentes. De qualquer forma, o texto deTennessee Williams é mantido na íntegra e este continua poderoso e visceral, absurdamente bem escrito, e funciona totalmente, mesmo hoje.

Amei o filme, amei Brando e Vivien Leigh. Mais de sessenta anos depois e ‘Uma rua chamada pecado’ (apesar desse nome típico de novela mexicana) nada perdeu de seu impacto e força. Bacana.

 

 

 

 

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