O sexo está chato, mórbido, melancólico e depressivo no cinema.

 

Comportamentos patológicos,  tendências autodestrutivas; painéis históricos em pequeno formato ou foco pessoal contemporâneo (ambos sem emoções) (ou, quando acontecem, são sublimadas e enterradas). Plasticamente bonitos, tecnicamente bem montados, atuações responsáveis, produções razoáveis, e roteiros quase inexistentes, enredos nulos, direções fracas e / ou plácidas e sem vigor, moralmente vazios ou sem nenhum questionamento. Um detalhe importante: corpos bonitos, saudáveis e ‘limpinhos’; nada de sexo ‘sujo’ e aflitivo, nada de violência física brutal, mesmo na descrição de ‘taras sexuais’ estranhas e diferentes, e até mesmo ao ocorrer um ato violento, o furor é deixado de lado e sua substância transformada … em mais vazio. Parece haver uma relação inversa na intensa exposição desses corpos bonitos: quanto mais nudez (e nestes filmes bastante, inclusive frontal masculina), quanto mais naturalizada, constante e comum essa exposição, menor o gozo real e absoluto. Mais intensa é a necessidade de provar de que isso é resultado de alguma coisa errada.

Em ‘Shame’, essa proposta é escancarada. A nudez frontal de Brandon Sullivan (Michael Fassbender) diz exatamente isso: quanto mais o corpo físico é mostrado, mais doente e recalcada é a personalidade. Brandon é profundamente doente, sabemos que sua obsessão por sexo, de todas as formas, e sua vida fechada e regrada, dirigida para a qualquer momento, fazer sexo (virtual, pessoal, com várias ou sozinho), mascara sua fuga de relacionamentos sérios e duradouros, sua falta de vontade de arriscar, de desmontar a fortaleza interna que erigiu.

Sua irmã Sissy (Carey Mullingan) chega para bagunçar essa fortaleza, tanto no espaço físico do apartamento que passam a dividir (por imposição dela, mesmo que diga que seria por pouco tempo) quanto na tensão imposta na diferença de comportamento: ela é aberta, extrovertida e nada regrada. Mas também está doente; sua atitude é a sua forma particular de resposta.

E o filme, na prática, não sai desse ponto. Há referências ligeiras a um passado complicado que explicaria suas vidas atuais e seus problemas íntimos. Há também a indicação de que Brandon poderia, afinal, mudar seu pensamento e, quem sabe, iniciar um tratamento.

Porém, isso não interessa ao diretor. O que lhe importa são os longos planos, muitos quase sem falas, para carregar a sensação de solidão e conformismo dos personagens, cenas que muitos consideram bonitas, mas que para mim não passam de aborrecidas e longas demais. Talvez os planos sejam longos justamente por não terem nada a dizer, já que compreendemos todos os problemas de Brandon e Sissy desde os dez minutos iniciais. O que há de melhor em ‘Shame’ são os atores: Michael Fassbender e Carey Mulligan dão um banho de interpretação, passam uma emoção e sentimentos recalcados com gestos, atitudes, olhares, sensíveis e minimalistas, extremamente enternecedores e reveladores. Pena que, na prática, não tenham o que revelar. Dão um toque de profundidade e sensibilidade para um filme, e uma história, que roda, rola, se repete, e no final simplesmente não sai do mesmo lugar.

Em ‘Shame’, pelo menos, há uma explicação. Pode ser simplista, única, sem desenvolvimento nem solução, mas há uma motivação direta para o comportamento autodepreciativo dos personagens, entendemos bem porque agem daquele jeito. Em ‘Beleza Adormecida‘ (‘Sleeping Beauty’, com roteiro e direção de Julia Leigh) não há nada disso.

Acompanhamos a apatia, a passividade e o desencanto de Lucy (Emily Browning) sem sabermos direito o que determina o seu caráter ou sua impassibilidade. Ela tem contas para pagar, como qualquer pessoa, mas está longe da miséria, ou qualquer motivo absolutamente premente que a induza a empregos estranhos, como servir de cobaia para um laboratório de medicina. Seus relacionamentos são ínfimos, suas ligações afetivas inexistentes, trabalha de bico como garçonete, até ser contratada para um emprego em um clube privado onde as serventes se vestem somente de lingerie. A dona do lugar percebe que ela é perfeita para um outro emprego para os sócios desse clube, como prostituta de luxo com uma proposta diferente: ela se sujeita a ser
dopada e ficar completamente inconsciente durante a noite enquanto o cliente usa e manuseia seu corpo como quiser. A única restrição, e garantia para Lucy, é de que não haverá penetração.

Em verdade, todo o sentido da introdução do filme até esse ponto é de nos prepararmos para o dado de que Lucy é a prostituta ‘bela adormecida’ ideal: ela é bonita, inerte, não demonstra emoções nem repele os clientes. Também não tem como se defender e isso faz parte do pacto. No dia seguinte, ela levanta, não lembra de nada, recebe seu dinheiro (e é bastante dinheiro, embora isso não a motive mais do que qualquer outra razão) e se recupera para outra noite de adormecimento.

Li em algum lugar que parte do estranhamento do filme se deve a um certo tom de pedofilia, já que o corpo de Emily Browning é miúdo, de seios pequenos e seu rosto a faz parecer ser bem mais jovem do que é. Discordo, embora entenda o argumento. Mais do que uma menina, ela está lá para ser uma boneca: um brinquedo de carne, pulsante e sem reação. As primeiras atitudes dos ‘clientes’ são nesse sentido, o de primeiro mexer em partes ‘neutras’ do seu corpo para ver como funciona a brincadeira, como a de levantar seu braço e deixá-lo cair.

Portanto, há sim um estranhamento em ‘Beleza Adormecida’ (assim como havia uma angústia da solidão em ‘Shame’), mas que é garantido, antes de mais nada, pela direção modorrenta de Julia Leigh e por um roteiro que também não diz a que veio, o que deseja provar e aonde quer chegar. Se quer chegar. Não há profundidade, nem histórias íntimas, nem tentativa de empatia ou de aproximação. Há momentos em que Lucy demonstra emoção, até chora, mas a câmera retrata a cena da mesmíssima forma quando ela está andando ou deitada com o cobertor até o pescoço.

Julia Leigh faz questão de ressaltar sua frieza e falta do que dizer: logo após uma explosão de choro e desespero de Lucy, a câmera se volta para uma cena absolutamente estática, onde não acontece nada, por dois minutos! Uma espécie de punição para quem assistiu até agora pensando que poderia sair alguma coisa de bacana deste filme.

Em ‘L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância’, a estranheza é de outro gênero: o da prostituta que teve o rosto cortado e cuja cicatriz a mantém com uma espécie de sorriso perene. Há os que estranhem e há os que apreciem, tornando-a uma ‘atração’ bizarra em um bordel de luxo na França, no final do século 19, começo do 20. Final de uma época, final de um tempo onde as prostitutas poderiam sonhar em ter uma vida melhor. Sonho, como sempre, uma ilusão; logo aprendem a conviver com a realidade nada onírica.

O filme acompanha o dia a dia, seus pequenos problemas, o cotidiano da arrumação das roupas, das discussões, das rivalidades, do apoio que se dão, da luta pela manutenção do lugar, até o seu desaparecimento. O que o diretor Bertrand Bonello faz é derramar uma forte luz de melancolia saudosista e conclui que, por mais problemática e séria fosse sua situação, para as prostitutas tudo é ainda pior, mil vezes pior, hoje em dia.

Com produção cuidadosa e primorosa, reproduzindo o luxo do ambiente e das vestimentas e calcada em quadros e reproduções da época, o verdadeiro personagem é o bordel em si: as histórias pessoais e particulares não são aprofundadas, nem é o interesse. Ou só interessam na medida em que sirvam para montar o mosaico, e para que não  haja dúvidas isso é ainda mais reforçado em cenas onde a imagem se divide em três ou quatro, mostrando vários quartos ou personagens diferentes ao mesmo tempo. O bordel é retratado assim como uma grande família, com suas diferenças, com suas discordâncias, alegrias e tristezas. Com sexo comercial.

No entanto, apesar de tanta nudez e deste ambiente, digamos assim, propício, o sexo na verdade, fica em segundo plano. Isto é, há sexo, mas não volúpia nem luxúria nem prazer. Há beleza. A luxúria está no cenário rico, no vestuário elegante, nos risos de boa educação, mesmo que fingidos. O diretor, ao retratar uma cena de orgasmo, mesmo que os corpos estejam ao centro, está mais interessado em mostrar o entorno, e como esses corpos estão relacionados com o ambiente direto que os cerca. O resultado é bonito, bem montado, realmente bem fotografado. E sem, absolutamente, substância, densidade, fervor. Ou emoção.

Saudades dos bordéis antigos, é o que o filme diz. E somente.

O que atravessa estes três filmes é o fato de nunca, em momento algum, resvalarem para algum traço de erotismo. Nem como elogio, nem como crítica. Com tantas cenas de sexo e nudez em abundância, não nos envolvemos, não gozamos, e também não nos horrorizamos. Não nos importamos, nem eles pretendem isso. Não são filmes que apontam para a doença ou a apatia em relação ao sexo. Os próprios filmes são, em si, doentes, apáticos e mórbidos.

 

 

 

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3 Comentários em “O sexo está chato, mórbido, melancólico e depressivo no cinema.”


  1. Excelente texto, eu já havia ouvido falar de dois dos três filmes citados, mas somente agora tive mesmo vontade de vê-los (com um olhar crítico mais atento a eventuais defeitos do que às suas qualidades, como, de resto, costumamos agir com as pessoas). Pretendo ser um visitante assíduo, realmente gostei do blog.

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