Habitante Irreal, de Paulo Scott, uma jornada ética, um livro absurdamente necessário

 

Acabei de ler, emocionado e contente ( e finalmente, pois o livro foi lançado ano passado) a última obra do contista, romancista e poeta, Paulo Scott, o ‘Habitante Irreal’.

Que belíssimo livro, que literatura sofisticada, que trabalho maduro, tão bem construído (apesar de algumas imperfeições), fluido e agradável de ler (uma leitura extremamente prazerosa) com uma narrativa de aparência simples, à primeira vista, e com um universo de intenções e interpretações possíveis como embasamento. Embora inicie-se como uma reflexão política, através da trajetória de um militante desiludido, a obra não finaliza como um manifesto e sim como uma reflexão profunda sobre escolhas éticas (ou falta de) e de suas consequências (embora imprevisíveis, inexoráveis, algumas trágicas).

Durante esse tempo desde seu lançamento no ano passado, me abstive de ler críticas ou comentários afora, minha pretensão era de chegar ‘puro’ à obra, sem intermediações de pensamentos alheios. Não foi uma pretensão muito bem realizada, acabei vendo alguma coisa ou outra, embora tenha realmente tentado me desligar de outras opiniões. A minha expectativa era grande, por motivos intelectuais, literários e pessoais, e tinha receio de ser novamente decepcionado, como aconteceu algumas vezes (e há pouco tempo). Portanto, neste primeiro parágrafo, antes de prosseguir eu gostaria de deixar claro dois pontos primordiais, duas recomendações: não leia este meu texto. Não neste momento, pelo menos. Não forme preconceitos; vá de cabeça limpa, esqueça esse pobre resenhista. Pois minha segunda recomendação é Leia o livro Agora, de Imediato, pois é dos mais importantes que apareceu na literatura brasileira nos últimos anos.

Dito isso, também devo enfatizar que posso cair em uma apreciação não muito isenta. Há muitas questões externas a uma análise de pretensa objtetividade que podem comprometer meu pensamento, o que  reconheço desde logo ser uma lástima. Tentarei deixa-las todas claras à medida que ocorrerem. Ao menos, prezarei a sinceridade.

Para uma primeira aproximação, o básico: a linha narrativa e a construção formal da linguagem. O enredo é simples. Paulo é um militante do PT no final da década de 80 (o livro começa bem especificamente, em 1989), desiludido e desanimado com os caminhos de acomodação política e de disputa de poder que o partido está tomando, mesmo que saiba ser o rumo óbvio de um grupo que, afinal, está conquistando seu espaço. Paulo sabe, também, que seria fácil seguir os mesmos passos, montar as peças de uma carreira, e se destacar; tem cacife, anos de militância e um certo reconhecimento. Porém, percebe que isso o deixa completamente apático, não possui essas ambições, e vê-se, assim, desprovido de perspectivas. A mudança abrupta em sua vida acontece quando conhece uma índia adolescente, Maina, parada ao lado de uma estrada, a quem oferece uma carona. A carona evoluirá para um relacionamento e para acontecimentos que remodelaração suas existências e não necessariamente para o melhor. Por mais previsível que seja, porém, a tragédia não deixa de ser inevitável. Os caminhos se bifurcam, as rotas pessoais se dividem, Maina engravida, Paulo se muda para Londres, outros personagens e outras histórias aparecem e tomam conta da narrativa, e mesmo Paulo retoma, sua importância é relativizada, outras são as preocupações, assomando-se assim uma primeira grande questão: Quem é, de fato, o personagem principal, e para onde ele, e o romance, nos levam.

Não é uma falsa questão. Quando, ao acabar a minha leitura, fui colher curioso o que outros teriam dito e como foi a reação geral, percebi que há uma grande confusão, mesmos entre aqueles que elogiaram a obra. Constatei, divertido, a irritação de quem pensou que o livro não leva a lugar algum. São os que interrompem sua interpretação somente por meio da história, e perdem suas inferências. Mais para frente, digo qual a minha resposta e porque a considero tão fundamental.

Formalmente, ‘Habitante Irreal’ é uma surpresa, considerando-se os trabalhos anteriores de Scott. Muito diferente de suas experimentações linguísticas de seus poemas e inclusive de sua prosa: seu livro de contos, ‘Ainda Orangotangos’, exibia uma volúpia luxuriosa e libertária, mesmo que tensa e pesada em alguns momentos, além de trazer um cd no encarte com músicas para serem lidas durante a leitura de cada um dos contos. Seu romante anterior, ‘Voláteis’ aumenta a intensidade, mesmo que adote uma linha mais ‘psicologizante’, o que me fez esperar que ‘Habitante Irreal’ as experimentações fossem aumentar.

Ao contrário. A prosa agora é contida, simples, quase melancólica, mesmo em momentos de crise ou violência, nunca, porém, ‘devagar’ ou parada, pois sempre fluente, sempre em movimento, o que às vezes provoca um belo contraste entre a contenção da palavra e a aspereza violenta da ação narrada. Esse movimento constante da ação está presente o tempo todo, mesmo quando não existe, na verdade, uma ‘ação’ propriamente dita, quando penetramos em seus pensamentos e elucubrações íntimas. Boa parte da narrativa é conduzida assim, aliás, e o fato de sermos tomados e não despegarmos os olhos das páginas é mérito total do controle criativo de Paulo Scott.

Há falhas, no entanto; esse controle é perdido, algumas vezes. Por exemplo, instantes onde se instala uma espécie de ‘didatismo’ (não gostei muito dessa palavra, mas parece expressar o que estou sentindo, por enquanto) quando o narrador paralisa a ação ou insere uma fala que explica em demasia, focaliza um ponto sem necessidade, ou começa a enumerar ítens, um recurso interessante quando bem utilizado, mas que aqui parece tímido, sem que sua potencialidade plena seja atingida, como em uma cena de sexo, quando o personagem começa a citar para si e para o leitor os acontecimentos políticos importantes que o rodeavam naquele exato momento e que deveriam chamar sua atenção. Como painel explicativo da época, o didatismo quase infantil apresentado é flagrante; como recurso estilístico, é fraco e insuficiente.

Para explicar melhor, penso em obras como ‘Quarup’, de Antônio Callado, engajadamente política e militante, que conta a transformação de um padre em guerrilheiro contra a ditadura, quando ao abrir um capítulo, deparamo-nos com a descrição de  uma farmácia da época, com a enumeração de cada um dos itens das prateleiras; minuciosa e exaustiva (até demais) a descrição leva bem umas três ou quatro páginas!, o que tem sua intenção dentro do romance. Outra obra (muito menos importante) que faz isso e possui também um impacto é ‘Viva o Povo Brasileiro’, de João Ubaldo Ribeiro (neste caso, o impacto é negativo, o recurso é em latim, uma bobagem longa, exaustiva e pedante). Na obra de Scott, não é pedante, mas é tímido, sem vigor, sem plena utilidade.

O ‘didatismo’ não me refiro somente aos momentos diretamente políticos. Uma cena que me irritou em particular é quando, em uma conversa sobre trotskismo e de sua vida como militante, Paulo fala de sua existência vazia: “Às vezes tenho a impressão de que só comecei a militar porque queria ser diferente, precisava aparecer, precisava chamar a atenção. Sou um cara vazio, Rener, um cara oco.” Poucas páginas depois, Paulo telefona para seus pais no Brasil (ele está em Londres) e deixa um recado na secretária eletrônica. Frases soltas e clichês, tentativa infrutífera de expressar uma emoção ou um sentimento verdadeiro. É somente um parágrafo, mas a sensação final é de uma pungência pesada e melancólica, que nos diz muito mais sobre o vazio e o oco do personagem do que em todo o diálogo explícito anterior.

O que há de forte, bonito e bem construído nesta obra compensam, de longe, as deficiências fortuitas. O escritor nos conduz aonde quer, domina nossas emoções, nos obriga, de puro prazer, a continuar a leitura. A construção dos personagens é primorosa: entendemos, nos identificamos, nos importamos, ficamos apreensivos com o futuro de Paulo, Maina, Donato, Luisa, Catarina, eles possuem ossos e carne e personalidades, inclusive os personagens passageiros, ‘coadjuvantes’, são marcantes e fazem presença, Rener, Henrique, Passo Fundo, o Espectro, são pessoas. Como seria fácil cair nos estereótipos!, o militante frustrado, a índia nativa, o índio aculturado, o policial estúpido… Eles são isso, só que muito mais, são concretos.

E há trechos poderosos, belos: o final da primeira parte (todo o capítulo ‘desenhos romanos’), a educação de Donato, a consulta de Maina durante a gravidez, a luta com os libaneses. Preciso especificar uma cena: a conversa com a velha senhora, à noite, em uma esquina antes da invasão da casa abandonada: a profunda sensação de estranheza e a bizarrice daquele diálogo, o desconforto quase pânico de Paulo, criam um clima de filme noir ou de literatura fantástica… amei essa cena e, desde já, é um dos trechos preferidos de tudo o que já li.

‘Habitante Irreal’ preenche, ou se pretende, uma falta que a moderna literatura brasileira não se engaja, nem encara: a da feição do Brasil presente como derivado da ditadura militar. Interessante observar como possuímos uma portentosa arte de resistência que, mesmo quando não-explícita (por censura ou auto-contenção), era consciente plena de sua postura. Esse fervor e urgência foram diluindo com os anos, com uma ‘redemocratização’ e uma certa ‘acomodação’ de alívio. Para a geração que nasceu no final da década de 60 e, portanto, passou sua infância e começo de adolescência inconscientes justamente na instalação e maior vigor da ditadura militar, a situação ideológica é muito confusa: somos depositários da mentalidade das grandes utopias do século e participamos do (ou assistimos o) final de uma ditadura dentro um contexto mundial político e econômico completamente diferentes do que nos era posto durante nossa formação pessoal e intelectual, ao mesmo tempo que presenciamos impotentes a derrocada das respostas totalizantes (ou de ‘ilusões prepotentes’, conforme seu foco). A reação geral foi de distanciamento, de não comprometimento, eu diria até mesmo de fuga. Atitude de diametral diferença às adotadas por outros países com históricos semelhantes (veja-se como é absurdamente difícil impor uma agenda de discussão e responsabilização pelos terrores da ditadura e compare-se o que já foi feito nesse sentido em países como Chile e Argentina; compare-se com o que as respectivas literaturas e as artes igualmente refletem). Essa percepção, essa ‘desacomodação’, esse conflito interno, é quase inexistente no Brasil, aparece esporadicamente em pontos esparsos. Só por esse motivo, só por provar que é possível fazer essa discussão no universo artístico, no universo literário, e, mais do que isso, realiza-la de modo tão bem e belamente construída, já valeria um posto único para ‘Habitante Irreal’.

Mas, isso é insuficiente.

Ao término da minha leitura, apesar do meu entusiasmo, estava incomodado. Senti que faltava alguma coisa e fiquei em dúvida se era uma falta de percepção minha ou se havia uma nota discrepante no trabalho de Scott. Demorei um pouco para descobrir que havia caído na mesma armadilha de alguns outros críticos (tanto os favoráveis quanto os discordantes) e ficado satisfeito e paralisado na primeira e superficial apreciação da história e esta, no final das contas, por mais surpreendente que seja, não é o mais importante! Permita-me explicar:

Os grandes saltos temporais, as mudanças geográficas, os pequenos painéis históricos, as mudanças dos personagens principais que se alternam entre Paulo, Maina, Luisa e Donato (os principais, mesmo que não ameacem a preponderância de Paulo, ainda que ele não esteja presente em metade do livro), podem nos fazer pensar em que tudo termine em uma espécie de beco sem saída (literário, o de Scott, e narrativo, dos personagens). Pois há uma pergunta que eu nem imaginava fosse tão importante e se revelou fundamental: quem é o personagem principal? É um desses citados? É o Brasil, como um todo? (Por um momento, pensei que fosse o filho de Maina, Donato, o verdadeiro responsável, e Paulo como um introdutor) Ou talvez uma idéia mais abstrata, a Política? Ideologia?

Creio que quem chega mais perto de uma boa resposta é Carlos André Moreira. Eu fiquei muito feliz de ler seu texto ‘Brincadeira de Forte Apache’ (Zero Hora), principalmente no trecho “O trajeto romanesco de Habitante Irreal é, assim, também um trajeto ético, uma vez que cada decisão parece gerar mais dúvidas e provocar consequências contrárias às intenções que as balizavam na origem.” É esse o principal!

É o que perpassa e fundamenta todo o romance de Paulo Scott e que, afinal, constitui sua real importância e nos explica seus personagens. São estas escolhas, suas consequências, suas aspirações e seus resultados, enfim seus posicionamentos éticos determinam (ou induzem) suas respostas e o que sofrerão de volta. O retorno da realidade é o fruto de suas ações (ou a falta de). A incapacidade congênita de Paulo, ou sua perene falta de coragem, a busca de identidade de Donato, a militância pseudo-anarquista de Rener, impoem, ou ao menos tentam impor, sua marca na vida, em sua existência, mesmo quando se deixam simplesmente levar pelos acontecimentos. Mesmo o ato final de Maina transcende sua pessoa, pois resvala inexoravelmente em outros. São todos responsáveis, todos os personagens, mesmo que as respostas recebidas sejam quase todas dolorosas (o Brasil é um dos personagens, realizar eleições e disputar poder são suas atitudes, o Brasil moderno, seja qual for, é sua resposta). Somos todos responsáveis, mesmo que inconscientes ou inconsistentes, inclusive o autor. Inclusive o leitor.

‘Habitante Irreal’ é um manifesto, sim, mas não político (pelo menos, não somente político). É uma bela obra que levanta a questão do ser humano como ente ético e suas tremendas consequências, até mesmo a morte, que o acompanham.

 

 

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