Veja arrogante, Dilma deslumbrada

 

Peço licença para fazer uma coisa que, normalmente, me reviraria o estômago: comentar uma capa da Veja. Em geral, deixo isso para pessoas que conseguem tampar o nariz, revolver o lixo, e ainda fazer considerações bacanas sobre política, mídia de massa, e o que mais vem. Neste caso, com a presença de Dilma Roussef na revista, minha curiosidade mórbida foi muito grande, dei uma olhada no texto de abertura, e devo dizer que fui recompensado com uma das peças de maior humor dos últimos tempos. É muito divertido! Rolei de rir com a suteliza elefantísica do texto, com a ironia escancarada, com a ‘chamada de atenção’ condescendente e, além de tudo, acho que descobri afinal o porque da atitude de babação eterna que Dilma nutre por estes veículos encarquilhados, porque não responde às provocações da mídia, porque não luta por um tratamento jurídico realístico (moral e legal) dessas grandes corporações: ela é uma Deslumbrada.

A ex-guerrilheira torturada, a ex-ministra de força de Lula, a primeira presidenta do Brasil, se derrete toda por uma participação no Jornal Nacional e no Fantástico, por participar em homenagem à Folha de São Paulo, por uma entrevista na Veja. Não creio que sejam gestos políticos. Como Chefe de Estado (em um Estado dito democrático), claro que ela precisa ser aberta e responder à população e conceder entrevistas como parte do trabalho, mas não creio que seja isso o que a faça sentir um glamour todo especial quando bate papo no meio de uma receita com a Ana Maria Braga. Ela gosta. Ser ‘homenageada’ na valadeesgoto/Veja, deve ter um gostinho de ‘revanche’ ou algo equivalente. Só isso para explicar como ela aceita ser insultada, ironizada, caluniada, durante tanto tempo e não fazer nenhum gesto de resposta à altura.

O pior de tudo é acreditar (ou tentar fazer acreditar) que a tal revista tenha tido alguma outra intenção que não fosse a de diminuir a Dilma. Que ela pudesse fazer de verdade uma matéria ou uma entrevista isenta, honesta. Ou, ainda mais ridículo, que ela tivesse se ‘rendido’ à Dilma! Dedicar tantas páginas para ela significa somente que a valadeesgoto/Veja sabe que vai vender bastante revista dessa vez! Portanto, os habituais leitores e comentaristas da valadeesgoto podem ficar sossegados, a revista não se rendeu à Dilma, não virou comunista, muito menos se filiou ao Pt.

É sério! Acompanhe o texto comigo, vou inserir os meus comentários entre parênteses, tenho certeza que concordará o quanto tudo é imensamente engraçado.

Começando pela capa. Admito que realizaram um bom trabalho que, a princípio, pode induzir à confusão e fazer duvidar de que a revista possa ter mudado sua atitude. Afinal, não fizeram tenebrosos efeitos de phoshop na imagem e Dilma aparece confiante, forte, bonita. No site, a pose é ainda mais alegre, com o sorriso escancarado. É uma capa muito bem feita, finamente montada, a ironia é expressa pela frase “Aplaudam, amigos, a comédia terminou”, e consegue confundir, fica-se dividido, pois se mistura à morte do Chico. Já vi gente dizer pela net que essa frase não tem nada a ver, que encontrar crítica ou ironia aqui chega a ser pananóia. Certo. Então, o paranóico Claudinei Vieira pergunta: não havia nenhuma outra frase cabível, de qualquer pessoa, que citasse a morte do Chico e não tornasse ambígua a imagem clara e favorável da Dilma Roussef? Quer dizer que foi uma ‘coincidência’? Talvez, uma ‘terrível coincidência’? Um erro do diagramador? Um lapso do editor? Ora, por favor, pensem um pouco.

Mas digamos que eu seja mesmo paranóico e passemos em frente, pois a diversão começa é no texto (meus comentários entre parênteses):

“Aos olhos de muita gente, a presidente Dilma Rousseff deveria estar uma pilha de nervos na semana passada (problemas, problemas). Ela vinha de uma viagem à Alemanha, onde pareceu, inadequadamente, dar lições de governança à chanceler Angela Merkel. (adorei a palavra ‘pareceu’!, é óbvio que a Dilma não faria isso, nunca teria capacidade ou a cara de pau de tentar dar lições para uma verdadeira, poderosa e inatingível líder européia, Dilma não teria esse descaramento). Na reunião que teria com os maiores empresários brasileiros, ela lhes daria “um puxão de orelha”, (as aspas servem para garantir o tom de ironia, certo?, ao mesmo tempo que faz uma referência velada à falta de seriedade da própria presidenta) e, para completar o quadro recente de tensão (problemas, mais problemas), a base aliada do seu governo no Congresso estava em franca rebelião, contrariando seguidas iniciativas do Palácio do Planalto nas votações. Como pano de fundo da semana caótica (caótica, caos, desastre, crise, são palavras completamente óbvias e previsíveis, pensei que uma era delas viria na primeira frase, mas não, colocaram na terceira), havia o fato de Dilma ainda não ter convencido a opinião pública de ser a grande gestora que o eleitorado escolheu para governar o Brasil em 2010 (isso quando ela acaba de conseguir taxas de popularidade recordes! O importante nesta frase, porém, é como a revista distingue e contrapõe os termos ‘opinião pública’ e ‘eleitorado’. O ‘eleitorado’ não pensa, não reflete, não tem opinião, ele só vota, foi quem colocou Dilma no poder; ´opinião pública’ é diferente, é importante, pensa e muda o mundo. Isto é, ‘opinião pública’ é a Veja. Mais pra frente deve ter alguém que ratifique esse pensamento) Como escreve nesta edição J.R. Guzzo, colunista de VEJA, capturando uma sensação mais ampla, “a maior parte das atividades do governo brasileiro hoje em dia poderia ser descrita como ficção” (HA!) (a Veja diz, a Veja prova, citando um colunista da própria revista…). Mas Dilma não estava nem um pouco tensa quando recebeu a equipe de VEJA (Eurípedes Alcântara, diretor de redação, e os redatores-chefes Lauro Jardim, Policarpo Junior e Thaís Oyama) na tarde de quinta-feira passada para uma conversa de duas horas em uma sala contígua a seu gabinete de trabalho no Palácio do Planalto, em Brasília.

(uma pausa e pensemos nessa Dilma descrita agora, depois da enumeração dos desastres, do clima de caos, da rebelião das bases, do não-convencimento da ‘opinião pública’: ou ela é uma boa atriz, que esconde todos sentimentos de terror em uma fachada de simplória tranquilidade, ou então ela realmente está convencida de que está tudo bem, e portanto, é uma inconsequente, ignorante da gravidade da situação a sua volta).

Dilma vinha de encerrar a reunião com os empresários, em que, disciplinadamente, cada um dos 28 presentes teve cinco minutos para falar, e não pareceu ter dado — ou levado — metafóricos puxões de orelha. “Tivemos uma conversa séria. Coisa de país que sabe onde está no mundo e aonde quer chegar”, disse ela. “Ficamos todos de acordo que os impostos têm de cair, os investimentos privados e estatais têm de aumentar e o que precisar ser feito para elevar a produtividade da economia brasileira e sua competitividade externa será feito.” Para quem vinha tendo os ouvidos atacados pelo buzinaço estéril da “guerra cambial” contra o Brasil — expressão que, como mostra a entrevista, ela não acha própria —, a frase de Dilma, mesmo sem a sonoridade do português castiço, soa como música (podemos todos ficar aliviados, pois Dilma está finalmente dando ouvidos à ‘opinião pública’)

É saudável quando o governante não põe em inimigos externos toda a culpa por coisas que não funcionam. Melhor ainda quando reconhece que seu próprio campo, além de não ter soluções para tudo, é também parte do problema. (Sinceramente, não há necessidade de comentários a isso; é impossível ser mais claro e objetivo. O que dá para destacar é o tom condescendente, paternal, do tipo ´é verdade, você está crescendo, está reconhecendo seus erros’. O que não é dito, mas está completamente implícito é a frase ‘viu como nós estávamos certos?’)“Não dá para consertar a máquina administrativa federal de uma vez, sem correr o risco de um colapso. Nem na iniciativa privada isso é possível. No tempo que terei na Presidência vou fazer a minha parte, que é dotar o estado de processos transparentes em que as melhores práticas sejam identificadas, premiadas e adotadas mais amplamente. Esse será meu legado. Nosso compromisso é com a eficiência, a meritocracia e o profissionalismo.”

“Eu disse aos empresários que seremos aliados nas iniciativas para aumentar a taxa de investimento da economia — e não mais apenas o crédito para o consumo”, contou ela. Suas propostas lembram o gato do chinês Deng Xiaoping. Não importa a cor. O que interessa é que ele cace ratos. (Dilma está sendo pragmática, está mostrando vantagens, a Veja ‘reconhece’ isso. Mas, o reconhecimento é só porque existe um Porém) Dilma Rousseff, porém, continua sendo a Dilma da lenda da mulher durona, de coração nacionalista (pois é, a lenda criada, divulgada e amplamente espalhada pela própria Veja, um mero detalhe). Confrontada com as críticas de que a Petrobras não pode ser um braço de política industrial do governo, ela reagiu: “A Petrobras tem de saber que o petróleo é do Brasil e não dela”. Felizmente (Felizmente!), Dilma admite que a extração do petróleo do pré-sal tem prioridade até sobre a sacrossanta exigência de 65% na taxa de nacionalização dos equipamentos (‘sacrossanta’, isto é, ‘absurda’. Por que uma empresa brasileira que dá lucro tem que continuar sendo brasileira?) — o que inviabiliza ou encarece muitas operações. Ela não verbaliza que a taxa pode ser reduzida, mas diz que, entre a manutenção do patamar de nacionalização e a garantia de produção dos campos do pré-sal, fica com a produção (Felizmente, a Dilma, no fundo, no fundo, mesmo que não verbalize, sabe que a Veja, isto é, a opinião pública, está com a razão, sempre esteve com a razão, e quem sabe, acabe não caindo nessa balela do nacionalismo).

(A valadeesgoto/Veja dá assim o seu recado. Independente do que a própria Dilma fale com suas palavras no desenrolar das páginas, é essa apresentação que conta: é a Veja, que adora escarnecer de uma presidente ‘em crise’ ‘caótica’, que condescende em abrir suas páginas, em dar lições de moral e até reconhecer que Dilma pode fazer alguma coisa de útil desde que deixe de lado a sua ‘lendária’ figura de ‘mulher durona’. Não deixa de ser importante, também, o dado de que essa edição vai vender bastante.

E se a Dilma for convidada novamente, sem dúvida, vai aceitar.

É ou não é mortalmente hilariante?!)

 

 

 

Explore posts in the same categories: Desconcertos

Tags: , , , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s