Heroínas arregaçam as portas de Hollywood

Com a próxima estréia de ‘Jogos Vorazes’ ainda essa semana, a atriz Jennifer Lawrence estará enfrentando um triplo desafio: vencer uma disputa mortal em um Estados Unidos distópico, autoritário e decadente, de futuro não muito distante; encabeçar uma nova franquia que garanta uma safra de novos filmes rentáveis dirigidos para uma faixa de público adolescente carente das finadas franquias do Harry Potter e Crepúsculo; e, por fim, dar a partida para uma nova geração de mulheres fortes e carismáticas que provem o quanto elas podem fazer sucesso como protagonistas de filmes de ação, em geral restritos e dirigidos para um público masculino.

Já comentei sobre o fato de haver um preconceito sobre mulheres protagonistas e o quanto é difícil e raro alguma conseguir furar a preponderância masculina. Em geral, a elas é destinado o papel das heroínas-cabide para, fundamentalmente, para embelezar o filme e servir de escada para uma maior masculinidade do personagem principal. Quando conquistam um pequeno espaço, a maioria termina em filmes porcamente realizados, o que só serve para alimentar o preconceito (para um monte de outros detalhes eletrizantes sobre as heroínas-cabide no cinema e nas histórias em quadrinhos, é só ler o texto completo: “Hollywood promove a nova onda das heroínas-cabides“).

Ao que parece, paira no ar a tremenda a vontade de mudar essa atitude, com produções de nível e financiamento decente, boas direções e enredos cuidadosos, calcados, quando possível, em séries literárias já comprovadas. Mesmo porque, Hollywood não é cega nem idiota de deixar de perceber o grande apelo e as possibilidades (além do aspecto lucrativo, é óbvio) que as franquias anteriores citadas demonstraram fartamente. Neste ano de 2012, pelo menos três filmes, completamente independentes um do outro, chamam a atenção para esse aspecto e assumem a responsabilidade, pois com certeza, muita coisa no universo hollywoodiano pode mudar, dependendo do resultado que eles tiverem:

‘Jogos Vorazes’ (The Hunger Games), baseado nos livros de Suzanne Collins; ‘Valente’ (Brave), a novíssima aposta da Pixar, muito para compensar o ridículo de ‘Carros 2’; e ‘Branca de Neve e o Caçador’ (Snow White and the Huntsman), com a mesma Kristen Stewart de ‘Crepúsculo’, que promete uma Branca de Neve guerreira e destemida, como nunca vista antes, nada tímida ou fraquinha, que picotaria Bella em um piscar de olhos (os trailers e imagens divulgados até agora não deixam dúvida dessa intenção, vejamos se será cumprida).

Não que as heroínas-cabide tenham saído de moda. Muito pelo contrário. Em ‘Os Vingadores’ (The Avengers), Scarlett Johansson briga (e discutiu muito) para que seu papel como Natasha Romanoff, a Viúva Negra, tenha uma relevância maior e esteja no mesmo patamar de importância que todos os demais superheróis-machos. Dificilmente conseguirá isso, mesmo com toda a estrela de Scarlett. Seu melhor resultado seria a realização de um filme-solo da personagem, como já foi cogitado, e isso sim seria sensacional!

Enquanto isso, no final da saga do Batman de Nolan (‘O Cavaleiro das Trevas Ressurge’, The Dark Knight Rises), a maior discussão sobre a participação de Anne Hathaway como a Mulher Gato era saber se sua máscara, afinal de contas, teria ou não orelhas de gato, ou qual seria o seu tamanho. São detalhes fundamentais assim que praticamente definem uma heroína-cabide.

o desenhista e cartunista norte-americano Kevin Bolk revela (desbunda) o grau de machismo em Hollywood ao mostrar graficamente como seriam retratados os heróis-machos se lhes fosse dado o mesmo tratamento que a Viúva Negra (Scarlett Johanson) recebe (clique na imagem para ampliar)

Em 2011, houve duas tentativas interessantes de se colocar mulheres fortes protagonistas em filmes de ação. Pela expectativa criada, foram duas profundas decepções.

Em ‘Hanna’, Saoirse Ronan é uma garota criada em um remoto e geladíssimo lugar afastado da civilização e treinada pelo próprio pai para ser uma assassina perfeita e matar Cate Blanchet, por razões obscuras que serão descobertas arduamente pela matadora adolescente. O diretor Joe Wright vem de densos e competentes dramas de época (‘Orgulho e Preconceito’, ‘Desejo e Reparação’, ‘O Solista’, e está acabando de filmar uma nova versão de ‘Anna Karenina’) e tentou criar um clima diferenciado para uma trama policial básica de assassinato e perseguição, enveredou para uma direção sóbria e introduziu toques de crítica social e personagens bizarros. Uma espécie de ‘Identidade Bourne’ feminino com levada de cinema indie. O resultado foi uma perda de identidade do próprio filme que não se assume como obra de entretenimento ou como reflexão, e nunca entusiasma de verdade.

Há boas caracterizações, Cate Blanchett está excelente como sempre, e Saoirse Ronan faz um ótimo trabalho (acreditamos realmente na ferocidade e sangue frio dessa assassina), mas sua performance é infelizmente prejudicada por um roteiro confuso e atrapalhado, se perdendo com piadinhas baratas e situações estranhas e sem sentido que não levam a lugar algum); e bons momentos como o treinamento na neve, a apresentação da garota, a fuga da instalação militar, fazem um ótimo começo, são instigantes e prometem uma boa continuidade, mas (de novo) tudo se perde com um roteiro falho, com furos feios, e uma direção relaxada. Uma pena.

Zoe Saldana está acostumada a ser heroína-cabide (‘Star Trek’, ‘Avatar’, ‘Os Perdedores’) e teve uma oportunidade de ser a protagonista, em ‘Em Busca de Vingança’ (Colombiana).

Em poucas palavras, o filme é um lixo.

Zoe é muito bonita e tem boa presença (embora seja do estilo esquelética magra-anoréxica, que definitivamente parece mais doença do que beleza), mas o filme é somente uma avalanche de clchês mal conduzidos e nem um pouco aproveitados, que descamba para um vale-tudo, uma salada com muito barulho e explosões e nenhuma substância. Apesar de movimentado, é apático, nulo de emoções, quase sonífero, uma pura perda de tempo.

Por outro lado, há o exemplo de duas franquias de relativo sucesso, com mulheres poderosas na liderança, que se fundamentam na força de suas atrizes e que provam (numa aparente contradição à primeira vista) a necessidade de uma urgente renovação: Kate Beckinsale tem se provado uma ótima atriz, que busca diversificar seus trabalhos alternando filmes sérios com outros de maior apelo popular (que, imagino, devem ser os que realmente pagam suas contas); a recepção morna da quarta edição da série ‘Anjos da Noite’, o ‘Despertar’ (Underworld: Awakening) sinaliza que a fórmula deve estar desgastada. O filme é fraco, percebe-se bem que não têm muita ideia de para onde realmente querem ir e acabam fazendo mais do mesmo, se apoiando integralmente no carisma e presença de Beckinsale. É sempre muito bom vê-la a qualquer momento, mas o filme é cansativo e um tanto irritante.

Com Milla Jovovich, é ao contrário. Ela está tão à vontade e até um tanto acomodada com a série ‘Resident Evil’ que parece não querer fazer outra coisa. Na verdade, a identificação de Milla com a série é tão grande que não nos damos conta de tudo o que ela realiza: somente ao conferir sua carreira no site IMDB foi que constatei que entre Resident 4, de 2010, e o próximo Resident 5 (Resident Evil: Retribution) marcado para estrear no Brasil em setembro, ela participou de 6 filmes! que não têm nada a ver com ficção científica, games, ou coisas do tipo, e já está trabalhando em mais dois.

Seja como for, eu gosto da série ‘Resident Evil’. Apesar de tão criticada pela sua distância cada vez maior do game original, isso nunca me incomodou; eu não jogo nenhum tipo de game eletrônico, portanto nunca passei pela pressão da comparação e pude assisti-la como são : passatempos ligeiros e divertidos, sem nenhum compromisso com realidade ou profundas reflexões, brincadeiras para relaxar e esquecer. Para mim, funcionam assim, nada menos, nada mais.

Com antecedentes tão precários, como se pode dizer que estes próximos filmes farão diferença e abrirão novas portas para filmes de ação firmando como prática contínua em Hollywood personagens femininos com real importância?

Bueno, nada garante isso. Os trailers podem ser enganosos e nos passar uma falsa impressão; os resultados podem ser desastrosos e confirmar a opinião generalizada do ‘verdadeiro’ lugar das mulheres no cinema. Acredito porém que os sinais são bem favoráveis. O cuidado e a atenção que ‘Jogos Vorazes’, ‘Valente’ e ‘Branca de Neve e o Caçador’ estão recebendo, o apuro visual, a diversificação de personagens e caracteres, as tramas diferenciadas, até o momento mostram-se extremamente positivos. Teremos que esperar para conferir.

Jennifer Lawrence, com ‘Jogos Vorazes’ logo logo nos cinemas, dá a partida.

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