Houaiss, o dicionário racista?

A princípio, pensei tratar-se de uma estupidez. Certo, as palavras têm poder, machucam, podem destruir, propagam e destilam preconceitos, racismos, ódios. Certo, os ciganos são perseguidos e discriminados, e boa parte da perseguição acontece justamente através da linguagem. Portanto, para se diminuir a carga do preconceito há que se pensar não somente em medidas concretas de ação diária, mas igualmente tentar diminuir a pressão da carga negativa da linguagem, o que só vai acontecer se mudarem a atitude e o pensamento originais que deram vazão para a mentalidade preconceituosa.

O Ministério Público Federal (MPF) em Uberlândia ajuizou ação civil pública contra a Editora Objetiva e o Instituto Antônio Houaiss, para a imediata retirada de circulação, suspensão de tiragem, venda e distribuição das edições do Dicionário Houaiss que contêm expressões pejorativas e preconceituosas relativas aos ciganos. Os réus também deverão recolher todos os exemplares disponíveis em estoque que estejam na mesma situação. O objetivo é obrigá-los judicialmente a suprimir do dicionário quaisquer referências preconceituosas contra uma minoria étnica, que, no Brasil, possui atualmente mais de 600 mil pessoas.“(http://www.prmg.mpf.gov.br/imprensa/noticias/direitos-do-cidadao/mpf-vai-a-justica-para-mudar-verbete-do-dicionario-houaiss)

No entanto, a função do dicionário é resgatar, definir e elucidar os significados das palavras correntes de um povo. Ou não é isso? Não foram os dicionários que inventaram o uso preconceituoso das palavras ou sua utilização para rebaixar a moral e a auto-estima de qualquer parcela da humanidade. Na verdade, é mais do que isso: os dicionários têm OBRIGAÇÃO de registrar esse uso. Se alguém tem que mudar são as pessoas que inventaram ou tornaram a palavra racista. Retirar, pura e simplesmente, o termo pejorativo no livro, além de não ajudar em absolutamente nada em lutar contra o preconceito, fere a razão de existência do próprio dicionário!

Qual é, no final, a mensagem que a MPF está passando? Que os dicionários devem, a partir de agora, se abster de realizar seu trabalho de resgate científico das palavras, porque ao se registrar uma palavra racista o dicionário se torna, então, automaticamente racista? Os dicionários terão que fazer uma limpeza geral e irrestrita em suas páginas e retirar os significados chulos e preconceituosos? É desse modo que sociedade será ‘limpada’? É com isso que os ciganos passarão a ser respeitados? Como os negros, mulheres, índios, idosos, e minorias em geral? Os dicionários têm obrigação, portanto, de serem Politicamente Corretos?

Continuo considerando uma estupidez.

E sabem o que é ainda pior? As próprias editoras não se defendem, estão assumindo que são realmente racistas. As editoras Globo e Melhoramentos ficaram de bico calado e retiraram prontamente os termos pejorativos de seus dicionários relativos aos ciganos. E a única coisa que a Objetiva diz é que ‘seu dicionário é editado pelo Instituto Houaiss, sendo apenas detentora exclusiva dos direitos de edição.’ Isto é, em outras palavras, ‘o responsável é o Instituto, nós não temos nada a ver com isso, nós só publicamos, vão falar com eles‘…

Há alguma coisa de profundo equívoco em tudo isso.

 

 

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3 Comentários em “Houaiss, o dicionário racista?”

  1. Dilberto Says:

    Caro Claudiney,

    Você que vai me desculpar, mas a sua incompetência não reside só em colocar comentários (‘posts’ passados, no Blogspot, só podem ser acionados clicando no título; JAMAIS apagaria um comentário ou uma ideia simplesmente por ser divergente da minha), mas também em não saber interpretar o que lê (o que nada espanta vindo de um adorador de Harry Potter – merda por merda, prefiro “Histórias Cruzadas” que, bem longe de ser uma obra-prima, é bem melhor que os rótulos vazios que a ele têm sido dados) – senão vejamos:

    1. JAMAIS disse que me incomodava com manifestações de afeto ‘gay’ em público, mas de qualquer EXAGERO de carinhos em público, seja de ‘gays’, seja de casais héteros – não saio chupando língua de minha esposa na rua, dou-lhe um beijo ora ou outra: intimidades a mais têm hora e tem lugar – Rogéria, artista fenomenal, sempre disse que seu interesse não é chocar ninguém se beijando loucamente numa praça, em frente a uma velhinha; o que ela deseja é respeito, e não acha que o conseguirá forçando a barra em expor suas intimidades em público (acuse-a de homófoba, então, caríssimo);

    2. JAMAIS fui contra “As minorias tem que se organizar, se manifestar e se expor”, NUNCA disse que isso é a ditadura do politicamente correto – politicamente correto é idiota e gera patrulhas, sim: o EXCESSO de proteção às minorias vai contra qualquer princípio de isonomia! Pois que, daqui a pouco, serão proibidas até as piadas antigas, cheias de rótulos sobre preconceitos (preto tem “pau” grande, loiras são burras, bichas são taradas por “pirocas”, portugueses são burros etc.). E o fato de eu achar que parada ‘gay’ é idiota me faz homófobo?! Então há vários ‘gays’ que admiro que também o são: tudo o que reproduzi foram pensamentos muito semelhantes aos de Ney Matogrosso, cantor que admiro muito (não consigo ver nada de político numa parada ‘gay’; vejo, sim, muita coisa apolítica e vazia de conteúdo, com o fim único de exposição de um grande carnaval exagerado e provocativo, só isso);

    3. “É a política do oba-oba. O mundo gay está esvaziado de discurso intelectual” – quem disse isso? Leilane Assunção, a segunda transexual doutoranda no Brasil! Algo precisa ser mudado, meu caro, mas não será com cretinices como a apedeuta parada ‘gay’, mas, sim, com organização e discussão de políticas públicas de inserção nos mercados – como no de educação, por exemplo;

    4. Minha “homofobia tem a profundidade de um pires”?! Que bacana! Para o seu governo, julgador, sou professor de Direito de faculdades locais e tenho trabalhos sobre direitos ‘gays’ (infelizmente ainda não publicados) – vibrei com as recentes decisões dos tribunais superiores acerca dos reconhecimentos de uniões estáveis, mas sou contra o aumento de penalidades criminais acerca de certas ações contra homossexuais: recentemente, mais moradores de ruas foram queimados vivos – devemos criar um novo crime, então, “queimar morador de rua – pena: 15 anos de reclusão”? Claro que não: nosso Direito Penal já é bastante amplo e já há qualificadoras de crimes suficientes – o que falta é a sua concreta aplicabilidade e, nisso, os grupos ‘gays’ faltam bastante, em organizar-se contra os vacilos da Justiça;

    5. Há que se pesar bem o que realmente é uma ofensa digna de se considerar uma injúria ou uma difamação, com direito, inclusive, a indenização por eventuais danos morais, e o que é somente um ‘animuus jocandi’, uma brincadeira que, nem sempre tendo realmente graça, mas dá o direito de se contar uma piada – do contrário, teremos que construir presídios somente para os comediantes de ‘stand-up comedy’;

    6. Por fim, o que os leitores da época criticaram (uns dois ou três – o resto entendeu bem, ao contrário de você) foi a minha passagem sobre não achar “natural” o homossexualismo – e expliquei que não acho natural um monte de coisas (acho muito estranho um abacaxi ou uma vaca, por exemplo, mas não tenho nada contra) – botei entre aspas porque conheço os estudos sobre homossexualismo nos animais (eu mesmo já vi cachorro “comendo” cachorro, com o passivo adorando – ou seja, é da natureza, sim!), mas acho estranho, porque pra mim é plugue macho na tomada elétrica (e só isso, é um direito meu e tal direito não afeta ninguém e só cria preconceito por parte de gente tapada!). Quem quiser fazer outra coisa, companheiro, que seja feliz, ora, pois! O cantor Sergey já “transou” com uma árvore: acho isso bizarro, mas bacana, que ele se divirta (só faltam os abientalista virem processar o cara por perturbação sexual de planta, ré, ré). E que o sujeito lute pelos seus direitos e preze pelos seus deveres como qualquer outro cidadão, estabelecendo seus parâmetros como “tratar os desiguais na medida de sua desigualdade” sem EXAGEROS!

    E tenho dito!

    P.S.: gostaria que suas opiniões fossem formuladas de forma oportuna, no local adequado, que é a postagem, em meu blogue, onde foram discutidas tais ideias – do contrário, tenho o direito de não gostar de ser exposto, da forma errônea como o fui, no seu blogue!

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  2. Dilberto Says:

    Bravo, meu caro: assim como os seus Desconcertos, em meus Morcegos (que você não visita mesmo,né?), vez por outra também teço minhas considerações gerais acerca de um novo tema da estupidez humana! Essa gana da moda chamada “combate ao preconceito” está criando uma ditadura, na verdade! Acho que o povo dessas patrulhas deveria procurar o significado de outras palavras no dicionário: tais como “cretinice” e “imbecilidade”! Meu abraço e parabéns pelo texto!

    P.S.: caso interessar possa, acesse este ‘link’ e leia um texto meu com temática semelhante (e que causou uma polêmica danada…):

    http://www.osmorcegos.blogspot.com/search?q=homofobia

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    • Claudinei Vieira Says:

      Dilberto, na verdade, sou eu que fico surpreso que você tenha gostado deste meu espaço desconcertábil, Valeu. Pois me pareceu que nossas opiniões e gostos e idéias são tão diferentes (opostas, até) que imaginava vc não se se sentiria à vontade. Visitei sim o seu blog, li alguns dos seus textos, em especial sobre cinema, acho que vc se expressa muito bem, é gostoso de ler o que escreve, o clima geral no blog é bom. Nossas opiniões é que são bem discordantes. Acabei de escrever uma longa resposta ao comentário da Babi no meu texto sobre o ‘Histórias Cruzadas’. Se vc tiver um tempinho e paciência, vai reconhecer que estou falando a verdade. (só para comentar rapidinho: Amei a atuação da Viola Davis, ela está sensacional, e merecia realmente o Oscar. O problema é que a Meryl Streep estava melhor! heheh). Mas até aí, nada demais. Tenho uma grande amiga, ex-colega de faculdade, muito inteligente e sensível, e com a qual compartilho inúmeros pensamentos, de literatura à política. Nos divertimos muito quando falamos de cinema, pois nossas opiniões e reações de filmes são radicalmente diferentes. É quase bipolar o negócio: se eu gostei de um filme, ela não gostou, e vice-versa! Pensei que talvez pudessemos manter uma comunicação neste nível.

      No entanto, foi bom vc ter indicado esse seu texto ‘Todos e Todas’, pois saindo da esfera do cinema, fica especialmente óbvio como temos opiniões opostas e temos muito mais discordâncias profundas do que aproximações. Só para pegar um exemplo do seu texto (há muitos tópicos que vc abre)

      – Não sou contra o Politicamente Correto. Acho que a língua (a linguagem em geral) é assassina e pode acabar com vidas de pessoas e é preciso tomar atitudes contra isso. Os livros científicos, tais como os dicionários, não são isentos nem imunes ao racismo e ao preconceito, e é bom que isso seja discutido. O problema é a sanha punitiva que acredita que retirar as palavras possa ter algum efeito concreto, e isso é burrice.

      – As minorias tem que se organizar, se manifestar e se expor. Isso não é ‘ditadura do politicamente correto’ ou qualquer outro termo bobo do gênero. Se o beijo de um casal gay em público te incomoda, cara, o problema é teu. Pessoalmente, considero qualquer demonstração de afeto em público cenas bonitas demais, seja entre heteros, gays, bisssexuais, travestis, ou o que for. A parada gay é uma festa linda, bem humorada e colorida e não só é uma extraordinária e divertida forma de exposição, como é um posicionamento político, perante pessoas como você que também ‘tem amigos gays’, também ‘não tem nada contra’, mas acha que é tudo biba e bibos que só deveriam se expressar dentro de casa. para que não incomodem a você e todos os outros que tem o direito natural e inalienável de beijar suas próprias namoradas em público.

      Sabe, é reconfortante saber que pensamos o mesmo opinião sobre o bolsonaro, mas isso não modifica a idéia de que, na minha opinião, sua compreensão sobre a homofobia tem a profundidade de um pires. Se isso te ofende, peço desculpas, mas é o que eu sinto.

      Este é somente um ponto, espero que sirva somente para exemplificar.

      obs. eu ia colocar esse comentário no seu post, mas não consegui encontrar a entrada para o comments (inclusive, eu estava curioso para ler outros comentários ao seu texto), fiquei em dúvida se foi vc quem retirou o comments ou eu fui o incompetente de não encontrar o botão…

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