Ferrugem na Dama de Ferro

O filme abre com uma cena prosaica: uma senhora já bastante idosa e muito frágil, compra leite no mercado, se assusta com o preço mas paga sem reclamar, volta para casa e toma o breakfast com o marido, enquanto toma o chá e reclama da quantidade de manteiga que ele coloca na torrada. Claro, sabemos perfeitamente quem é esta senhora: é Meryl Streep, claro! Logo, outras pessoas se juntam na sala ao lado e sussuram preocupadas por ela ter saído de casa sozinha. Assim somos apresentados à Margaret Thatcher, a outrora poderosa Primeira Ministra da Inglaterra, e que agora sofre de demência, tem alucinações (seu marido já está morto há anos), e vive rememorando passagens decisivas de sua vida. Um corte e conhecemos a jovem Margaret Roberts, filha de um dono de mercearia, que mostra um pouco de sua coragem e determinação durante a Segunda Guerra, outro corte nos retorna para o presente ao assistir o noticiário das vítimas de um atentado terrorista, volta para quando Margareth conhece seu futuro marido, Dennis Thatcher, e entra para o partido conservador, e assim por diante.


E esse é o tom e a premissa totais do filme: volta-se sempre para o presente, para a velha Margareth Tatcher, doente e ainda impositiva, lembrando de um passado perdido. Independente de qualquer intenção assumida na produção dessa obra (tanto a diretora Phyllida Lloyd quanto Meryl Streep disseram que não queriam realizar um filme política, mas focar na personagem humana), a mensagem mais poderosa e escancarada que fica ao final é de que não importa o quanto ela foi poderosa e importante, o quanto abriu caminho em um mundo machista e praticamente ocupado somente por homens, não interessa o quanto foi odiada e repudiada pelos sindicalistas, pelos políticos de esquerda ou pelas feministas (que nunca foram representadas por ela, apesar de sua condição feminina) ou o quanto foi cortejada e respeitada pela burguesia e pelos setores mais reacionários da política mundial, nada disso importa, porque agora ela é uma velha doente, frágil e encarquilhada, ainda com lampejos de lucidez, prestes a ser esquecida.

Esta não é somente a conclusão da história, é sua própria fundamentação.

Formalmente, o filme é uma lástima. A direção fraca piora um roteiro ridículo que não sabe aproveitar algumas (poucas) boas idéias (uma cena interessante é a tomada de cima de Tatcher andando por um corredor dominado por figuras masculinas, cena que fica perdida, pois não tem continuidade), fica sem saber o que fazer com um material histórico riquíssimo, e em muitos casos, perde a mão, e parece indecisa em adotar uma narrativa séria ou se descamba para a galhofa, o que torna tudo um tanto quanto esquizofrênico. Em várias cenas, há a impressão assustadora de que os atores vão começar a cantar uma ópera bufa. Ao estilo da ‘Evita’, da Madonna (este, pelo menos, era um musical; a paródia era explícita).

Aliás, desconfio da proposta ‘humanizadora’ da diretora e de sua intenção de se desvincular de um ‘filme político’, pois não acredito que ela conseguisse fazer um, mesmo se quisesse. Não é possível entender, a partir do filme, como Margareth Tatcher pôde, apesar de ser mulher, galgar os degraus da politicagem interna, pois não são mostrados os fios coerentes que ligam os tempos. Não é possível reconstituir sua carreira e apreender como, apesar de sua intensa impopularidade (e o fato de ser mulher…) acaba sendo a alternativa do poder para remendar a grave crise política e econômica e substituir um governo enfraquecido. A ‘humanização’ aqui significa somente repetir o quanto ela foi insistente, persistente, e como louvava o princípio liberal de autodeterminação do mercado e a volta de uma Inglaterra forte.

A perspectiva histórica (tão fundamental para se entender um personagem de tal porte e importância) é feita por colagens de frases e algumas cenas reais da época. Eu vi trabalhos escolares no ensino médio melhor preparados. A construção (na direção e no roteiro) é incompetente e assustadoramente amadora: em um determinado momento, no auge de sua impopularidade, com guerras ao sindicalistas e atentados terroristas, e profunda crise econômica, acontece a Guerra das Malvinas, Inglaterra vence e, com esse passe de mágica militar, Tatcher não só retoma o controle da popularidade como de repente, a felicidade geral e infinita toma conta do país: todos ficam contentes, a crise vai embora, os negócios estão soberbos, dinheiro entra como nunca (manchetes e faixas nos dizem isso, além das caras risonhas dos políticos e do povo em festa). Mais alguns cortes e Tatcher está de novo em baixa (mas como?!) até ser obrigada a se demitir, depois de onze anos como Primeira Ministra.

Não há junção entre as idéias ou construção progressiva das cenas, falta ‘algo’ que conecte os acontecimentos. Falta roteiro, direção, edição decente.

O único ponto realmente luminoso, a absoluta e solitária razão para se assistir ‘A Dama de Ferro’ é a impressionante interpretação de Meryl Streep. Tanto como velha senhora demente quanto a pujante e dominadora política investida de todo o poder, tanto a guerreira lutadora contra os muros de lamentações masculinos quanto a esposa e mãe ausente, o show de Meryl é absoluto. Em nenhum momento, ela derrapa no tom de voz aristocrático e arrogante ou deixa de manter o sotaque britânico. Ela consegue passar dignidade e força num papel recheado de frases feitas, insossas e sem substâncias, e em diálogos forçados e pessimamente conduzidos. Já seria impressionante o simples sobreviver como atriz depois desse lixo, mas Meryl Streep ultrapassa as expectativas e nos entrega um dos melhores trabalhos da sua vida. Não interessa quantas indicações ela já teve ou qual é o seu recorde ou o esforço (e brilho) das demais concorrentes ao Oscar de Melhor Atriz, não importa. Ela só não leva se forem consideradas questões políticas, sociais ou pessoais, porque se for pensar em Cinema, em Interpretação, a única justiça a ser feita é com Meryl Streep.

Sem demérito algum para Glenn Close (que, no seu esforço de realizar uma interpretação contida e tensa, acaba por ficar apática e sem emoção, em um filme apático e sem emoção, chato), Michelle Williams (amo Michelle Williams e acredito que será uma das melhores intérpretes de Hollywood, quem sabe uma futura Meryl, mas por enquanto evocar Marylin Monroe ainda é um pouco demais), Rooney Mara (belíssimo trabalho em ‘Os homens que não amavam as mulheres’, espero que aproveite este belo início e se consolide; no entanto, foi um exagero ter sido indicada), ou Viola Davis (esta, sim, uma interpretação emocionante e empolgante, em um filme idiota e racista), a única que poderia chegar na aba da sombra de Meryl é Tilda Swinton, em sua rasgante perfomance em ‘Precisamos Falar Sobre o Kevin’. Como a Tilda e seu filme foram solenemente ignorados pela Academia de Hollywood, então não tem pra ninguém.

Lembro agora que há outra indicação de Oscar para ‘A Dama de Ferro’, o de Melhor Maquiagem e, para consertar o que disse antes, este também é um motivo válido para assisti-lo. As caracterizações de velhice ou de idade madura (a juventude de Margaret Tatcher é feita por outra atriz) são impressionantemente naturais e criveis, não se sobrepondo ao trabalho de Meyrl; ao contrário: auxilia-o, complementa-o.

Tornando ainda mais incompreensível o que foi feito na outra ‘super-biografia’ do ano, ‘J. Edgar’: além de ser o pior trabalho de direção da carreira de Clint Eastwood e um desperdício do esforço do Leonardo DiCaprio, que está se revelando a cada dia como melhor ator, a maquiagem é de um ridículo atroz, grotesco, um absurdo tão escrachado que alguém com um mínimo de seriedade pudesse ter aprovado e deixado levar adiante. Como foi possível ninguém ter notado, em qualquer nível de produção, que os personagens envelhecidos ficavam com cara de Teletubes?

Por outro lado, tanto ‘J. Edgar’ quanto ‘A Dama de Ferro’ possuem muito mais pontos em comum e similaridades do que diferenças: ambos personagens históricos odiados e rechaçados, com melancólicos finais de vida; mesmíssima proposta de narrativa que parte do tempo presente do personagem, decadentes e alquebrados, que rememoram suas vidas através de flashbacks; idêntica incapacidade dos roteiristas de realizar um bom trabalho; direções falhas e omissas, embora seja um caso mais escandaloso em relação com Eastwood, diretor consagrado e responsável por alguns clássicos do cinema, enquanto que Phyllida Lloyd vem de ‘Mamma Mia’… O que diferencia as duas cinebiografias são justamente os pontos máximos da ‘Dama de Ferro’: Meryl, espetacular, e a maquiagem, estupenda.

É uma pena que um dos melhores trabalhos de Meryl Streep, pelo qual ela deve finalmente ganhar seu prêmio merecido, seja por um filme tão menor que será esquecido um mês depois da cerimônia.

Explore posts in the same categories: Sem categoria

Tags:

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s