O Expresso de Marlene Dietrich

Quero falar da cena de um filme. Ao separar um fotograma da cena para ilustrar o texto, como costumo fazer, percebi que a foto (parada, inflexível) não fazia jus ao que eu pretendia demonstrar. Peguei o filme, recortei a cena (de poucos minutos, era mais curta do que me lembrava), até poderia colocar no youtube, ficaria fácil de ver no post. No entanto, fiquei surpreso com o modo como a cena ficou deslocada. Não vazia, nem menos bonita ou significativa. Mas finita, sem dimensão. Ou, talvez a questão seja somente comigo, e a experiência particular de cada leitor (ou espectador) pudesse se aproximar da minha, mais do que imaginei. Não sei. Escolhi uma foto um pouco mais neutra, sem relação direta com a cena específica, mas com Marlene e do filme.

O filme é ‘Expresso de Xangai’ (Shanghai Express), de 1932, de Josef von Sternberg, mestre da narrativa elegante e esplendorosa, que contava suas histórias não somente através do enredo, mas em principal pelo eminentemente visual, pela brilhante trabalho de fotografia, a rebuscada direção de arte, cenografia ricamente detalhada, até entulhada, que proporcionavam o clima e o ambiente para personagens cínicos, francos e envolventes, que transpiravam sexualidade e sedução, prazer ou perigo. E muito do que de melhor Sternberg alcançou foi com sua musa máxima, Marlene Dietrich, com a qual trabalhou várias vezes.

Era o primeiro filme que eu veria da Marlene, mas minha cabeça estava abarrotada pelo tanto de fotogramas vistos, histórias e lendas de bastidores lidas e devoradas, influenciado pela aura de glamour e beleza que somente o seu nome já prenunciava. Era apaixonado por Marilyn Monroe, fascinado por Brigitte Bardot, havia assistido pouco antes Louise Brooks em ‘A Caixa de Pandora’ e me chocado com a surpreendente explosão de sensualidade que uma atriz do cinema mudo poderia proporcionar, e depois disso não esperava nenhuma grande surpresa.

E não houve exatamente ‘surpresa’. O filme é um produto de sua época e assim deve ser entendido para ser apreciado. Em 1931, durante uma viagem de trem no território chinês, todos os tipos de pessoas, de diversas classes sociais, de prostitutas, milionários a militares, padres e revolucionários, se encontram no mesmo espaço e convivência, como um microcosmo da sociedade contemporânea. No trem, encontra-se uma famosa cortesã, Shanghai Lily (Marlene), conhecida por ‘torrar’ a fortuna de homens muito ricos e depois jogá-los fora. Durante o trajeto, ela se depara com um capitão do exército inglês que fora seu amante anos antes e, sem que confessem para si ou para o outro que, lá no fundo, ainda se amam, explode a guerra civil chinesa. É, portanto, uma espécie de história de amor cínica, com personagens disfuncionais envolvidos por um forte ambiente de cores políticas e ideológicas, com visual rebuscado, iluminação clássica e direção fenomenal. É um filme de Josef von Sternberg em seu ponto máximo.

Dizer que Marlene Dietrich está soberba é um clichê horroroso, mesmo que verdadeiro, e raso demais, não dá conta do quão marcante ela é ou como todo o filme se ilumina toda vez que ela aparece. Na verdade, é até um tanto mentiroso, pois não transmite a sensação que eu tinha. O que mais me espantava não era sua presença faiscante ou sua beleza: era a absurda naturalidade com a qual sua sensualidade passava pelos poros, pelos olhos, pelas frases curtas e roucas. Sem esforço, sem afetação, sem sequer ‘interpretação’. Ela, simplesmente, era.

Mas devo dizer que, para escrever este texto, eu tive que consultar a internet para me lembrar dos detalhes da história e dos caracteres, pois não me lembrava de nada disso. Porque em determinado momento do filme, eu me desliguei, e minha memória ficou estacionada. Shanghai Lily / Marlene Dietrich caminha no vagão, entra em sua cabine e fica alguns minutos sozinha. Ela não faz grandes gestos, nem dramatiza algum conflito, nem demonstra alguma grande emoção. Ela olha ao redor, levanta os braços, as mãos vazias não seguram nem um cigarro ou qualquer objeto, desce os braços, dá alguns passos, acho que toca o pescoço ou a gola do vestido, e sai da cabine.

Narrativamente, a cena não acrescenta nada ao filme. Não apresenta nenhum gancho ou reviravolta, a história segue normal, sua falta não se faria sentir. É uma cena feita para ela, da Marlene, para exibir sua existência para o universo. Ela sobe e desce os braços, fica com as mãos na cintura, e sai da cabine. Ela quase não se mexe, quase nem respira, e eu embasbacado perco a minha própria respiração.

Como uma deusa, com pleno conhecimento plácido do seu poder, desceria à terra? Para os padrões modernos, seria entre explosões e trovôes hipercoloridos; para sex symbols, sobram a sexualidade escancarada, a exposição crua do corpo, a extrema falta de sutileza. Precisam fazer isso para que, do exagero, pense-se que haja substância; que do choque e da crueza, aconteça prazer. E acontece o prazer, por certo, não direi o contrário; mas é tão efêmero e ligeiro que necessitam de mais outras explosões para manter a atenção.

Marlene Dietrich não precisa de nada. Ela é. E sabe disso. E nós (eu) sabemos disso. Ela sobe e desce os braços. E meu mundo se completa nesse gesto.

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2 Comentários em “O Expresso de Marlene Dietrich”

  1. Nelson Nordano Says:

    Maria Riva disse algo do género: “há homens, mulheres, Marlene era Marlene.!”

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