Ivana Pansera, um textinho ‘antropológico’

Ela já é uma escritora. Esta é a certeza de quem tem lido os seus textos (ainda poucos) em espaços como o Facebook, ou teve o privilégio de conhecer o seu trabalho de mestrado sobre história da África, tão bem pesquisado e ainda mais belamente escrito (em uma futura publicação, todos poderão comprovar isso). Ela está se soltando, se sentindo cada vez mais segura em sua escrita, e isso está sendo muito bonito de acompanhar.

Pedi à Ivana um texto para este meu cantinho desconcertábil, com um tema específico e me foi prometido daqui a algum tempo. Este aqui, no entanto, chegou primeiro, foi posto no ‘feici’ descompromissadamente e percebi, desde a primeira leitura, que eu Precisava publicá-lo aqui. Precisava ter essa honra. E assim está.

(a única observação que faço é que, de modo algum!, isso implica em promessa cumprida: em breve, espero o texto combinado)

 

de Ivana Pansera:

“O negócio é fingir que pegou fogo. Se a humanidade seguiu adiante sem a biblioteca de Alexandria, acho que sobrevivo temporariamente sem alguns volumes. Finjo que pegou fogo. Faço uma lista, em ordem de prioridades, e vou comprando na feira da EACH. Ou passo a lista numa corrente de e-mails, pros amigos me darem de presente de aniversário.

O que demora pra por em ordem são os pensamentos. Recomeçar é como caminhar em terreno movediço, desconhecido e muitas vezes doloroso.

Outro dia li que as águias – as aves que possuem a maior longevidade da espécie – precisam dar uma paradinha quando chegam aos 40 anos.

Nessa idade elas estão com as unhas compridas e flexíveis e, portanto, não conseguem mais agarrar as presas para se alimentar. As penas grossas deixam as asas pesadas e dificultam o voo. O bico também não está melhor: alongado e pontiagudo, se curva em direção ao peito.

Diante do fim inexorável, cada uma delas ainda têm uma alternativa: retirar-se no alto de uma montanha e construir um ninho próximo a um paredão, contra o qual baterá o bico até conseguir arrancá-lo. Pacientemente, a águia solitária esperará nascer um bico novinho em folha e, com ele, vai arrancar as unhas, uma por uma. Mais uma vez, com paciência e extrema tolerância à dor, ela vai esperar crescerem as unhas e, com elas, passará a arrancar as velhas penas. Passados cinco meses desse processo de renovação, cada águia está finalmente pronta para viver plenamente outros 30 anos.

E eu que sempre achei que a capacidade de se reinventar fosse justamente o traço mais marcante que nos difere dos animais! Pelo visto a gente divide essa dor com outras espécies. O que talvez a gente não consiga medir é se dói tanto para elas quanto para nós. Porque a gente reflete sobre o processo, a gente antecipa a dor, sente, pensa, tem consciência da dor e formula teorias sobre ela. E a revive em livros, em filmes, em canções.

E nessa hora chega a dar raiva do polegar opositor e dos alimentos cozidos. Ódio mortal da primeira criatura que pegou barro e pintou paredes de cavernas e daquele bendito raio que mostrou pros hominídeos as possibilidades do fogo!

Eu, pobre mortal, criatura insignificante nesse caminhar da humanidade em direção à cultura, antevejo a dor, sinto a dor, reflito sobre a dor, escrevo sobre a dor. Revivo a dor. Pensando bem, não dá pra fingir que pegou fogo. Afinal, não são só livros…”

 

 

 

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