Merry Christmas, Mr. Reed

 

Tava assim tipo bundando na vida (em verdade, fazia algo muito sério: relia pela 67a vez o Sandman Prelúdios e Noturnos da Conrad, um clássico clássico), quando me liga um amigo (um ‘conhecido’ digamos assim, um cara que até gosta de algumas coisas que escrevo, mas com algumas opiniões e classe social muito diferentes, o que impede uma verdadeira amizade) (em verdade, o cara é quase um mala, mas de vez em quando me paga umas cervejas, então tudo bem), me perguntando se eu não queria conhecer o Lou Reed. Fiquei alguns segundos tentando entender a pergunta. Ora, eu conheço o Lou Reed!, tenho vários discos (cds e bolachas) e se não possuo a discografia completa é por absoluta falta de desenvolvimento econômico individual apropriado. Foi o que disse a ele. A resposta foi em um tom impaciente. Não, Claudinei, CONHECER mesmo, a figura está na minha casa neste momento, tenho que fazer sala pro cara, e sei que você gosta dele (acho que eu o tinha citado em uma resenha sobre um livro do Mário Bortolloto); mas tem que vir agora, pois está indo embora hoje mesmo, no final da tarde. Percebi que era algum tipo de brincadeira (embora vindo dele fosse meio estranho) e foi o que disse. A resposta foi mais impaciente (pelo visto, detestava que duvidassem de sua palavra). Pelo que entendi, Reed estava em surdina no Brasil, tomando conta de alguns detalhes burocráticos / sócio / culturais/ econômicos com sua gravadora, e o seu irmão (do meu amigo) era uma espécie de produtor musical (no mínimo, conhecia um mundo de gente do meio) e tinha oferecido sua casa para o roqueiro descansar antes da viagem de volta. Em verdade, eu nem ouvia mais, pois estava ficando nervoso: a coisa parecia ser real e a simples possibilidade de me encontrar face a face com Lou Reed (LOU REED!) fazia minhas pernas bambearem. Tá bom, tá bom, eu te ajudo a fazer sala.

Nem me troquei, meia-hora depois já tinha chegado. Só para ter uma idéia da casa: tem duas salas de jogos (!), uma só para abrigar uma enorme mesa oficial de bilhar. E ninguém naquela família joga bilhar…

E ali estava ele, estirado em uma poltrona, folheando uma revista, com uma cara de tédio mortal. O cabelo esquisitíssimo, cortado muito curto, realçava o rosto marcado por rugas profundas, deixando-o muito mais velho do que eu imaginava (uma enorme besteira minha, eu sei). Na mesinha do lado, um copo alto do que parecia ser vodca com gelo, mas que, por alguma razão, tive certeza absoluta de ser somente água gelada. Em outra poltrona, um homem mirrado, de terno, que nunca soube quem é, quase cochilava. Meu amigo falou alguma frase indistinguível e saiu, me deixando sozinho, de pé, no meio do aposento. Reed me olhou de lado, fez um rápido aceno de cabeça e voltou para a revista.

But, and then…

E aí?

O que se fala para um ídolo que, de repente, se materializa na sua frente? Como dizer da importância que sua música teve em sua formação de adolescente, na sua visão de mundo, no seu jeito de ser e pensar? Como dizer Sim, eu sei que você é um ser humano normal, de carne osso e guitarra, que vomita e vai ao banheiro como todo mundo, mas, porra, escreve e canta uma música fenomenal que influencia metade do planeta (a outra metade é surda e / ou ignorante)? E, talvez mais importante ainda: o que dizer que ele ainda não tivesse ouvido um milhão de vezes antes? E pior, considerando-se meu péssimo portinglês, sairia quanto muito um “hey, man, how are you?”.

Sentei, peguei outra revista e fiquei folheando.

Durante duas horas ficamos folheando revistas.

O homenzinho feio acordou, levantou, olhou para o relógio, atendeu o celular, falou algo, Reed levantou, perguntou algo, foi respondido, encaminhou-se na minha direção, apertou minha mão e disse Merry Christmas.

Balbuciei qualquer coisa e fiquei pensando: “Merry Christmas?!” Bom, o que eu esperava? Que começasse a recitar no meu ouvido hey baby, take a walk on the wild side ou what’s your style, how you get your kicks for li-ving?, ou (quem sabe, o mais provável) when I watch you come, baby, I just want to run far away? Eu os acompanhei até a porta, do lado de fora o táxi aguardava, não havia ninguém alem de mim, mas Reed não demonstrava nem surpresa nem desagrado. Antes de entrar no carro, outro Merry Christmas, e eu ainda estava tentando um Merr… quando partiram. Nenhum empregado, nenhuma pessoa, nem mesmo meu amigo, apareceu. Fechei a porta e fui embora.

Talvez eu devesse ficar feliz. Talvez devesse considerar a coisa toda como especial. Sei lá. Folheei revistas, nem lembro quais eram, e fechei a porta. The door is closed. The story is finished. E esta crônica.

 

conto de natal do livro ‘Desconcerto’, editora Demônio Negro

 

 

Explore posts in the same categories: Sem categoria

Tags: ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s