‘A Invenção de Hugo Cabret’ é um doce de coco.

‘A Invenção de Hugo Cabret’ é um doce de coco. Coberto por uma calda de chocolate, chantilly e mel, e servido em uma travessa rodeado de leite condensado. Isto é, pelo menos é chamativo e bem colorido, pode ser até gostoso e satisfazer a gula, mas é um tanto quanto enjoativo. Em sua primeira experiência em filme infantil, Martin Scorcese se esforça para seguir a linha e conquistar um resultado emocionante, bonito (tanto no visual quanto na narrativa), bem movimentado (com excelente montagem), atores e atrizes excepcionais, e uma fervorosa declaração de amor ao cinema (em especial, aos primórdios do cinema mudo) e, é verdade, consegue realizá-lo, em toda plenitude. Ele só exagera um pouco na dose do açúcar.

Pois Hugo Cabret não é somente um garoto órfão que mora nas entranhas e nas engrenagens na estação de trens em Paris: é um pobre e coitado garoto rechonchudo e bonitão, com impressionantes olhos azuis faiscantes e sempre lacrimejantes, e de rosto triste e melancólico que praticamente obriga o público a gostar dele, ou ao menos, sentir dó. O inspetor de polícia não é
somente um policial, mas é O policial malvado e cego cumpridor das regras que não sente pena dos garotos pobres e abandonados que persegue e manda para o orfanato, além de ter uma perna mecânica e um doberman para auxiliá-lo.

O pai de Hugo não é somente a saudosa figura meiga e protetora, mas O pai zeloso e absolutamente amoroso que, antes de morrer, lhe ensina o seu ofício de relojoeiro e incentiva a sua curiosidade científica (além de tê-lo introduzido ao mundo de sonhos do Cinema, onde iam com frequência). Isabelle não é somente a menina simpática que fica amiga de Hugo, mas é a representação feminina infantil poderosa de inocência e liberdade que compreende (e gosta) de sua companhia e se tornará o ponto de apoio como nunca tivera depois da morte de seu pai. Além do que, é protagonizada pela Chloë Moretz, carismática e atriz espetacular. E Papá Georges, padrinho de Isabelle, não é somente um velho rabugento, dono de pequena oficina aparelhos elétricos na estação de trens, que toma a caderneta de projetos e desenhos do pai de Hugo, mas O Velho Rabugento pelo qual, em verdade, nunca conseguimos sentir raiva ou animosidade, sempre nos sentimos à vontade com ele, mesmo quando dá broncas; e, afinal de contas, sabemos desde o início que o velho Georges deixará a rabugice e será conquistado pela simpatia de Hugo, por mais que relute.

A vida de todos esses personagens, e de tantos outros que transitam, trabalham e vivem na estação, será afetada pelos legados do pai de Hugo: a paixão por relógios e mecanismos, e o único objeto deixado por ele, um robô, um pequeno brinquedo mecânico que parece esconder alguma habilidade ou segredo muito especial, mas está quebrado e precisa ser ativado por uma chave personalizada e única, em posse de Isabelle. A amizade da menina, a identidade do Papá Georges, a magia do cinema, a fábrica dos sonhos, a mensagem do robô, compôe esse quadro lírico e lacrimoso.

Lírico ao limite. Scorcese estende a história demais, o filme dura duas horas e poderia-se cortar fácil uma meia-hora, o que tornaria a narrativa mais dinâmica; o sentimentalismo piegas mistura o mundo cão ao estilo de Dickens, só que com levada de Spielberg; a demorada revelação do segredo do Papá Georges irrita tanto que dá vontade de pegar o velho e sacudi-lo: ‘fala de uma vez, para com esse suspense bobo!’ (a culpa, claro, não é do velho, muito menos do fenomenal Ben Kingsley, mas do diretor).

Feitas essas ressalvas, tirando um pouco do caramelo e deixando de lado as colheres de açúcar, ‘A Invenção de Hugo Cabret’ está recheado de cenas memoráveis e sacadas sensacionais. A longa tomada inicial que começa com uma magnífica panorâmica da cidade de Paris por cima, adentra pelas entranhas da estação de trem e acompanha a movimentação vertiginosa de Hugo, é de tirar o fôlego. Além da evidente beleza plástica, são vários minutos sem nenhum diálogo, somente os sons e barulhos inevitáveis de um grande centro urbano. Guiada pelo olhar de Hugo, a câmera passeia e somos apresentados à variedade de histórias e sentimentos presentes; na prática, são mini-filmes, pequenas histórias e enredos particulares se interligando, com seus romances, tragédias, mistérios.

O barulho e o travamento da perna mecânica do inspetor, impedindo-o de declarar seu amor à florista. A entrada da biblioteca e do seu soturno bibliotecário, como uma homenagem colorida à cena do cartório do clássico do expressionismo alemão ‘O Gabinete do Dr. Caligari’. A desbragada homenagem e sem pudores ao grande Georges Mélies. A bela e didática lição de história do cinema mudo (Aqui, Scorcese peca ao repetir clichês bobos e ultrapassados como da famosa primeira sessão de cinema, onde o público teria se assustado por acreditar que estava prestes a ser atropelado por um trem de verdade. A lenda é bacana, mas a realidade é um pouco diferente. Ao mesmo tempo, ele aproveita e faz uma deliciosa brincadeira com o fato do próprio ‘Hugo’ ser um filme em 3D, onde as pessoas também se confundem e se afastam inconscientemente dos ‘objetos’ em cena).

Por outro lado, Scorcese continua sendo Scorcese e é uma delícia observar como ele consegue, no meio da pieguice generalizada, colocar uns toques ‘agridoces’ aqui e acolá, com um tom mais sóbrio e sério, uma olhada mais desencantada, às vezes quase cínica. Proporciona um sabor a mais e contribui para não tornar os personagens mais caricatos.

Pois os personagens são caricatos, fazem sentido assim dentro desse universo, são como criaturas de fábulas. O que impede que fiquem falsos e sem graça ou caiam no ridículo é a mão forte de Scorcese que imprime um toque contido e quase naturalista nas interpretações, tão típico de seus filmes, proporcionando um interessante e bem sucedido contraste com a direção de arte exuberante e frenética, entupida de detalhes, e a fotografia superclara de cores fortes e quentes. Os atores correspondem à expectativa e ao estilo da direção. Asa Butterfield (Hugo) não precisa fazer muito mais além de mostrar uma cara triste e pidonha, e assim o faz, sem mais e sem menos. Isabelle é um personagem mais complicado, pois sorri muito, o tempo todo, é amigável ao ponto da irresponsabilidade, e se não fosse a interpretação segura e muito bem cuidada de Chloë Moretz, pareceria ter problemas mentais. Ben Kingsley ilumina a tela (pra variar). Faz bem pouco, é verdade, mas sua presença é o suficiente para tornar seu Papá Georges inesquecível. Até mesmo Sacha Baron Cohen não atrapalha e sua perfomance como o inspetor da estação está bacana.

Talvez, se a pieguice pudesse ter sido contida e Scorcese não se esforçasse tanto para fazer um filme o-mais-agradável-e-bonito-e-emocionante-para-crianças-de-todas-as-idades, ‘A Invenção de Hugo Cabret’ poderia ser uma obra extraordinária. Não é. Mas funciona bem.

– Em um ano tão morno e chocho, ‘A Invenção de Hugo Cabret’ é, de longe, o melhor filme dos indicados para o Oscar. Seu concorrente direto é ‘O Artista’ que tem feito um inexplicável arraso em todas as premiações, inclusive as norte-americanas. A repercussão mundial do filme francês não importa em nada à Hollywood (para a provinciana mentalidade da Academia norte-americana, filmes estrangeiros e / ou de ‘arte’ só lhe chamam a atenção quando querem posar de ‘cultos’ ou ‘antenados’). No entanto, só o simples fato de ‘O Artista’ ameaçar levar o prêmio ‘destinado’ a ser da produção local, já é impressionante o suficiente.

Já comentei aqui no Desconcertos a completa contradição se isso acontecer: mais do que homenagem ao cinema mudo, ‘O Artista’ é uma tremenda crítica ao cinema como é realizado hoje, exatamente por Hollywood; caso homenageie de fato algo é ao cinema antigo e já acabado, de uma época ideal ainda não soterrada pelas exigências comercias e tecnológicas. Como os filmes 3D. ‘A Invenção de Hugo Cabret’ é sim essa homenagem e a glorificação de um cinema alegre e de sonhos que se mantém e se renova (ou, ao menos, tenta, segundo a ótica de Scorcese). E o faz do modo mais colorido e esfuziante: mesmo o cinema mudo é tratado com cores berrantes e música intermitente, o que o torna ainda mais ‘moderno’.

O mais interessante dessa contradição, como bem já notaram em alguns textos que li, é que os dois principais concorrentes a Melhor Filme deste ano são: um filme francês que trata do cinema mudo de Hollywood, com personagens norte-americanos e que se passa nos Estados Unidos; e o outro é um filme norte-americano que fala do cinema mudo francês, com personagens franceses e se passa na França!

– As indicações de ‘A Invenção de Hugo Cabret’ para o Oscar são de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro adaptado, Melhor Trilha Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Montagem, Melhor Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Efeitos Visuais

 

 

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