Zadie Smith e seu Dentes Brancos

Zadie Smith nos mostra uma atual e conturbada Inglaterra multirracial, multi-religiosa, uma verdadeira salada étnica, política e social . Mas, nem por isso, menos racista, preconceituosa ou intolerante. Saga, epopéia, épico, são algumas das palavras utilizadas pela crítica internacional para se referir a “Dentes Brancos” em todos os lugares onde foi publicado.

Todas elas se aplicam. “Dentes Brancos” é um portentoso épico histórico-cultural de uma Inglaterra contemporânea, carregado de humor, sátira, aventura e respeito humano. Como isso pode ter sido feito por uma escritora iniciante, com toda a força, reflexão e profundidade de alguém que já escrevesse por décadas, é quase inimaginável. O máximo que Zadie Smith havia escrito foram alguns contos publicados em revistas da universidade. Na verdade, ela mesma contou que, dos cinco aos quinze anos, seu sonho era se tornar atriz de filmes musicais. Nunca escreveu muito e isso certamente não era o eixo de sua vida.

Quando se tornou patente de que nunca seria uma atriz, muito menos de musicais, e começou a procurar outras alternativas, entrou para a Universidade de Cambridge, onde estudou Literatura Inglesa. Mais do que uma técnica de escrita (ela não tem, até hoje, nenhuma disciplina literária, não possui um horário específico nem se impõe um tempo para escrever), o estudo acadêmico lhe valeu mais pela carga de leitura (ela leu muito, de autores clássicos a contemporâneos) e diz que essa foi sua verdadeira escola. Começou a desenvolver a idéia para um conto que descambou para uma novela, tinha oitenta páginas e sem um horizonte para terminar. Através do entusiasmo e incentivo de amigos que leram estas páginas, tomou coragem e fôlego para escrever um romance.

E que romance! O plano abarcado por ele compreende algumas décadas da história mundial centralizadas em um pequeno espaço do planeta, na Inglaterra, mais especificamente na zona norte de Londres. Gira em torno de uma improvável e profunda amizade entre um típico e estúpido inglês de classe média com um indiano (aliás, bengali), membro de uma ancestral, respeitável e decadente família oriental, perdida nas brumas do império inglês.

Eles se conhecem no meio da Segunda Guerra e só tornam a se encontrar trinta anos depois quando Archie Jones é salvo do suicídio por um muçulmano (bem, não foi exatamente por razões humanitárias:  Archie havia estacionado no pátio de um açougue e o dono achava que um suicídio bem no local de carga e descarga das carnes não seria muito bom para os negócios). Com uma nova oportunidade na vida, Archie encontra uma comunidade hippie e, no mesmo dia, conhece Clara Bowden, uma negra de família de origem jamaicana cuja mãe é uma fervorosa Testemunha de Jeová que está esperando pelo fim do mundo. Ele tem quarenta e sete anos e Clara, dezenove. Duas semanas depois, ela se torna sua segunda mulher (a primeira mulher de Jones havia sido um dos motivos de sua tentativa de suicídio).

Samad Miah Iqbal é um bengali (que, como todo mundo sabe, é bem diferente de ser indiano), possui um dos braços inutilizados por causa de um ferimento de guerra e, apesar de ser de uma família tão ancestral e respeitável, nunca conseguiu outro emprego fora o de garçom de um restaurante indiano. Seu casamento com a feroz e decidida Alsana foi arranjado antes mesmo dela ter nascido.

Estes são os anos 70, repletos de contra-cultura, conflitos sociais, raciais e religiosos. Zadie Smith faz outro pulo temporal, desta vez para o final da década de 80 e começo de 90 e amplia ainda mais o leque. E aqui teremos o conflito de gerações com a incapacidade de compreensão dos tempos modernos por parte de Jones e Samad e as dificuldades de relacionamento com os filhos adolescentes. Aqbal e Alsana têm filhos gêmeos e profundamente distintos em gênio e aspirações e Jones e Clara com Irie, uma bela filha que se envolve com um dos gêmeos. Nisso tudo, Samad começa a se envolver seriamente com sua religião ao mesmo tempo em que se apaixona pela loiríssima professora de seus filhos. E entra em cena o cientista judeu Marcus Chalfen. E por aí vai.

Zadie Smith nos conduz com uma segurança impecável por onde deseja. Todos os seus personagens são tão demarcados e bem descritos, com sua falhas, problemas de caráter e limitações, que os sentimos próximos e reais. Há cenas de um terror pessoal profundos como quando eles matam um francês nazista na Segunda Guerra. E cenas de uma sátira feroz e corrosiva como quando Jones não percebe do cerco racista que o envolve por causa de Clara, tão alegre está com o nascimento de sua filha.

E cenas de um humor desbragado, divertido e saudável. É impressionante como Smith consegue rechear seu livro de frases, ditos, pensamentos.

Samad seguiu a voz até o banheiro e deparou com Millat imerso até o queixo na rósea espuma suja na banheira, lendo VIZ.

-Ô, pai, superlegal. Lanterna. Ilumina aqui para eu poder ler.

-Esquece – Samad arrancou o gibi das mãos do filho – Tem um puta vendaval soprando lá fora e a doida da tua mãe pretende ficar plantada aqui dentro até o telhado desabar. Saia da banheira. Quero que você vá até o barracão buscar madeira e prego para a gente poder…

– Mas, abba, tô peladinho da silva!

-Não me venha com detalhes… estamos em uma emergência“.

Impagável o momento quando Millat entra em crise em suas convicções religiosas e, portanto com sua necessidade de abandonar antigos prazeres ocidentais, principalmente os filmes do Robert de Niro e os da Máfia em geral. Ele até tenta adaptar em sua mente a abertura de “Os Bons Companheiros” com a frase dita por Ray Liotta (“Tanto quanto me lembro, sempre quis ser um gângster“), mas o resultado (“Tanto quanto me lembro, sempre quis ser um muçulmano“) não o convence.

Zadie Smith nasceu em 1975 e tinha somente vinte e quatro anos quando escreveu “Dentes Brancos”. Já foi comparada a alguns autores como Salmon Rushdie ou V. S. Naipaul e até mesmo a Dickens! Tudo isso é uma grande bobagem, pois o que seu livro mais demonstra é justamente uma voz que nasceu forte e muito particular.

Seu segundo livro, “O Caçador de Autógrafos”, foi no entanto bem menos entusiasmante. Embora mantenha a prosa afiada, faz um breque abrupto no ritmo e muda, trabalho diferentemente seu estilo, busca novas vias, que ao meu ver não foram bem sucedidas. Ao contar a história de um homem branco judeu que negocia ou contrabandeia autógrafos, autênticos ou nem tanto, de celebridades, Zadie tentou sair das classificações simplistas e limitadoras. Como ela disse, não quer ser conhecida como uma “escritora negra” ou “oriental”, mas simplesmente como Escritora. Mas, pesou a mão, e se perdeu um pouco. Ou, quem sabe, a experiência com ‘Dentes Brancos’ tenha sido tão interessante que apagou um pouco o brilho do seu livro imediatamente posterior; talvez seja necessário relê-lo agora, quando se passou um bom tempo do seu lançamento. Preciso fazê-lo.

Zadie Smith está bem ativa. Além do seu terceiro romance (‘Sobre a Beleza’, do qual nada posso dizer), escreve textos e artigos para vários jornais e revistas. Independente do que faça daqui por diante, no entanto, “Dentes Brancos” já é, sem dúvida alguma, um clássico da literatura moderna.

(texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer)

 

 

 

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