‘O Artista’ é uma falsa homenagem ao cinema mudo

Interessante como uma paixão desmedida, uma intenção demoradamente perseguida e afinal concretizada, pode tornar esta intenção inicial em seu oposto e acarretar um resultado diferente do que à primeira vista pode parecer.

Não tenho dúvidas de que o propósito primeiro da paixão do diretor francês Michel Hazanavicius fosse a de oferecer uma visão singela e nostálgica de um antigo cinema cujas qualidades de emoção e divertimento se perderam com o tempo por conta de imposições técnicas e mercadológicas.

Realmente, ‘O Artista’ em um primeiro momento presta essa tal homenagem e o faz de um modo inteligente, lúdico e diferenciado. No entanto, o propósito se fecha logo quando o filme se encerra: bom de ser visto, um tanto divertido por uma hora e meia, e esquecível dias depois. Não deixará marcas, nem de desgosto ou admiração, e fico pensando se esse não é o pior destino para uma obra de arte.

Michel Hazanavicius correu durante bastante tempo para poder realizar esse projeto, bateu na porta de muitas produtoras céticas, foi persistente e agora recolhe o fruto de sua teimosia, ganhando prêmios pelo mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos, onde existe até a impressionante possibilidade de ganhar um Oscar de Melhor Filme, o que quebraria todos os paradigmas da constituição orgulhosa da Academia de Hollywood. Não acredito nessa possibilidade (Oscar foi feito para glorificar o cinema norte-americano e se auto-congratularem; seria a maior das contradições outorgar seu prêmio máximo para um filme estrangeiro, mesmo que bajulador deste mesmo cinema hollywoodiano), mas só de se cogitar isso já indica um feito tremendo.

Por trás da aparente leveza de ‘O Artista’ existe uma carga de crítica e de ironia ao cinema moderno que talvez explique essa repercussão geral, muito mais do que a obra em si. Provavelmente porque expresse um cansaço do público com as fórmulas quadradas e constantemente repetidas pelo maior centro cinematográfico do mundo. No entanto, Hazanavicius também não oferece alguma outra alternativa, não fornece base para uma continuidade, não constrói nada. Nesse sentido, muito mais do que as peripécias da decadência do personagem central, o filme é de uma profunda melancolia.

Comédia romântica, com toques de drama, ‘O Artista’ acompanha a trajetória de George Valentin (Jean Dujardin) (referência ao astro do cinema mudo, Rodolfo Valentino) que tem sua carreira eclipsada por conta da extrema novidade tecnológica, o Som nos filmes, ao mesmo tempo que vê o crescente sucesso de uma jovem atriz apadrinhada por ele (e aí as referências mais que óbvias e reconhecíveis são ‘Cantando na Chuva’ e ‘Nasce uma estrela’). Esse fio de história é tão magrinho e pífio que não se pode considerar esse seja o verdadeiro pilar do filme. Na verdade, pode ser o seu aspecto mais negativo e prejudicial: ao fazer imaginar que, em geral, Cinema mudo significaria exatamente isso: falta de som, fotografia em preto e branco, e histórias fracas.

Ser indicado como ‘Melhor Roteiro Original’ é outra de suas grandes ironias e mostra como essa fraqueza, sua maior fraqueza por sinal, foi negligenciada ou sequer percebida. Os outros aspectos possuem suas qualidades, os atores podem ser ótimos, a fotografia linda, inclusive a montagem muito bem realizada para tirar o máximo do roteiro, e algumas cenas têm sacadas geniais. Mas a história é uma droga e não tem nada, de nada, original.

Apesar de tudo, duas cenas são particularmente interessantes ao meu ver e me entusiasmaram (já foram bastante comentadas em muitos textos que li, mas faço questão de fazer o meu destaque): o do pesadelo de Valentin, assaltado pelos terríveis Sons, e a graciosa pequena dança de Peppy Miller (Bérénice Bejo) com o manequim. Além da cena final, quando Hazanavicius assume que seu filme é realmente moderno e revela que o perfeito e elegante herói norte-americano e a linda heroína norte-americanos são, de verdade, franceses… chega a ser de uma ironia cáustica!

Portanto, de homenagem sincera à crítica profunda, de cinema moderno que utiliza de clichês consagrados à obra fraquinha e ingênua que cai nesses mesmos clichês, ‘O Artista’ vacila e o máximo que consegue é ser uma diversão boba, bonitinha e descartável.

– Quanto aos Oscars, está recheado de indicações e deve ganhar a maioria delas, como a de Fotografia, Direção de Arte, Figurino. Em Montagem, vai bater de frente com ‘‘A Invenção de Hugo Cabret’, do Scorcese (muito melhor), mas acho que vai levar, mesmo que por pouco.

Se ganhar Roteiro Original em ano que tem ‘Meia-Noite em Paris’, um dos melhores Woody Allen de muitos anos, vai ser sacanagem. Infelizmente, creio que Hollywood vai cair nessa. Tem Trilha Sonora, muito elogiada, contra Jonh Williams, em dois filmes ao mesmo tempo, ‘Tintim’ e ‘Cavalo de Guerra’, embora sejam trabalhos menores do mestre que demonstra cansaço e perda do seu antigo brilho. Berenice Bejo (que é argentina de nascimento, foi para França aos três anos de idade) tornou-se queridinha fulgurante, deve levar o de Atriz Coadjuvante. Jean Dujardin até há pouco estava imbatível para ganhar o prêmio de Melhor Ator, apesar de competir com os fortíssimos George Clooney e Brad Pitt. Porém, seu último filme na França levantou uma enorme polêmica e discussão (do tipo que Hollywood não gosta de jeito nenhum), não somente sobre sua atuação (os cartazes de ‘L´Infidele’ levantaram uma onda de indignação por serem machistas e de muito mau-gosto) mas também sobre seu próprio caráter e comportamento (pelo que entendi, parece que ele não é uma pessoa que se possa chamar de ‘simpática’…). Se isso vai ser suficiente para tirar o brilho do seu trabalho em ‘O Artista’, só saberemos no dia.

E tem o de Melhor Filme e Diretor. Como disse acima, seria uma tremenda contradição para Hollywood que ‘O Artista’ ganhe. Seria admitir que uma produção francesa, de cineasta francês e com atores franceses (mesmo que se passe nos Estados Unidos, com personagens norte-americanos, recheado de atores norte-americanos reconhecidos, e se refira à própria Hollywood) seja muito melhor do que seus próprios filmes e cineastas nativos. E, mais do que isso, seria como dizer: sim, concordamos que estamos decadentes, e mais preocupados com câmeras 3D e firulas tecnológicas do que em encontrar boas histórias, singelas e emocionantes, como na época do cinema mudo.

Será que vão reconhecer isso, em sua própria festa, e para o mundo todo?

Duvido.

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One Comment em “‘O Artista’ é uma falsa homenagem ao cinema mudo”


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