Oscar de Animação: o ano da mediocridade

Para não acirrar ânimos mais do que o necessário, ‘medíocre’ aqui está sendo utilizado no seu sentido mais literal: de médio, de comum, do que não é extraordinário ou sensacional nem desce a lixo inominável. Não entusiasma nem repugna. Esta é a média dos filmes indicados para o Oscar de 2012 em todas as categorias, de um cinema que pode ser assistido e passa batido e não deixará lembranças, que não marcará. Não ficamos extasiados (não é um clássico nem um ‘cult’) nem revoltados (do tipo: ‘por que? por que? OH, POR QUE?! perdi meu tempo assistindo isso?!?’). Em 2011, até mesmo os blockbusters mais fúteis, por serem tão ruins, acabavam por ficar divertidos em sua proposta de passatempo fácil (penso em um ‘Os Mercenários’, por exemplo). Em Animação, acontece exatamente o mesmo. Quando se pensa que, ano passado, teve o explode-corações ‘Toy Story 3’ e depois a Pixar apresentou ‘Carros 2’ (o ponto mais baixo da empresa), a coisa fica meio desanimadora (estou apostando muito no próximo da Pixar, ‘Valente’; mais do que aposta, é um fervoroso desejo e esperança).

Antes de fazer alguns breves comentários sobre os desenhos animados que foram indicados, já parto da constatação de que este Oscar está sendo marcado justamente pelos que Não foram indicados, ‘Rio’ e ‘As aventuras de Tintim’. Mais do que injustas, estas faltas são na verdade incompreensíveis.

Não posso falar de ‘Rio’, que não assisti e não tive vontade. Muitos falaram bem, outros tantos falaram mal. As críticas negativas condiziam com a minha própria expectativa, o que diminuiu ainda mais minha vontade em assistir; e as críticas positivas não me entusiasmaram em nada, deixei passar. No entanto, um pensamento não me sai da cabeça: ‘Rio’ teria que ser muito ruim, especialmente ruim, para ser pior do que ‘Gato de Botas’. Este ‘Gato’ é para mim, o limite da Ruindade deste ano: Nada pode ser pior. Bom, talvez ‘Gnomeu e Julieta’ (por muito pouco). De qualquer forma, dizer que não se foi indicado, enquanto um destes dois está lá concorrendo… É estilo ‘vergonha alheia’ forte.

No entanto, o máximo da complexidade incompreensível é mesmo ‘Tintim’.

Deixemos de lado a espantosa obtusidade da Academia de Hollywood em considerar que a técnica de captura de movimentos não pode ser considerada como desenho animado e, por conta disso, ‘Tintim’ era inelegível (acompanhada por uma incoerência burra, pois Tintim estava no meio da lista dos pré-indicados…; eles não se decidem!) (para quem quiser ter uma idéia de outros possíveis motivos para sua não-indicação, recomendo o ótimo texto do site ‘O Judão’, ‘TOP8! Motivos que fizeram As Aventuras de Tintim ficar fora do Oscar’, que vão desde o preconceito de Hollywood contra ruivos até o fato de Meryl Streep não participar de ‘Tintim’).

Fora isso, é inegável que este projeto de Spielberg se ressente de alguns problemas sérios que o impossibilitam de ser uma grande obra. Divertida, agitada, animada, colorida, assístivel. E esquecível. O que aconteceu?

Duas coisas: A técnica utilizada é espetacular para recriar os movimentos humanos e torná-los críveis, em um patamar inimaginável. Os objetos, os cenários, e os corpos humanos interagem harmonicamente e o 3D foi muito bem utilizado (ao que parece, demonstrando afinal um amadurecimento neste sentido, saindo do êxtase babão do início do ‘Avatar’). No entanto, ainda está muito longe de conseguir retratar de forma confortável as feições humanas. Os personagens continuam parecendo bonecos infláveis de péssima qualidade. Piora quando tentam expressar emoções, pois precisam compensar essa deficiência com exageros faciais e o que funcionava muito bem nos desenhos cartunescos originais de Hergé aqui fica insuficiente e frustrante. E feio. O resultado é esquisito. Tintim fica esquisito. O capitão Haddock está muito feio e bem esquisito. Os agentes Dupont e Dupond, o vilão Rackham, todos os coadjuvantes. O melhor de todos, a melhor ‘caracterização’, fica sendo do cachorrinho Milou, por motivos óbvios.

No entanto, não é esse o maior entrave. O problema maior é mesmo Spielberg.

Ao se concentrar na ação e na aventura desenfreada, ao não permitir que haja respiros maiores entre as cenas (muito bem executadas, coreografadas e desenhadas), o roteiro e a direção não permitem uma maior aproximação com os personagens. Não há uma construção efetiva de suas personalidades, eles acabam por se tornar vazios e desinteressantes. Enquanto os desenhos, o visual por completo, forçam o tempo todo uma maior naturalização dos traços como uma tentativa (fracassada) de recriar o Real, a narrativa se fixa, por ironia, no cartunesco mais raso. O maior trunfo de Hergé, o criador de Tintim, ao lado de sua bela qualidade de ótimo contador de histórias, era a empatia absoluta que ele conseguia criar com personagens a princípio unidimensionais e caricatos. ‘Tintim’ é um tremendo personagem, porque Hergé fazia com que realmente nos importássemos com ele.

Por tudo isso, Steven Spielberg era, em definitivo, o diretor que possuía as melhores qualidades para realizar essa adaptação. No mínimo, por já ter feito uma espécie de ‘transposição’ do ‘espirito’ de Tintim para o cinema que foi ‘Indiana Jones’. Em ‘Indiana’ há de tudo o melhor dos filmes de ação em seu ponto máximo: a aventura desenfreada, narrativa clássica e brilhante, cenas marcantes e inesquecíveis, e um personagem carismático, clássico desde o princípio. Em ‘Tintim’, infelizmente, Spielberg perde a mão, carrega por um lado, esquece do outro, e realiza um filme (um longa de Animação, Hollywood!) tecnicamente bonito e impecável, mas sem real emoção.

Rango

Western. O gênero reconhecido como o mais norte-americano de todos, praticamente uma fundação de sua cinematografia, já foi consagrado, reverenciado, ridicularizado, destruído, reconstruído, psicologizado, abandonado, retomado, esquecido. Vez em quando, Hollywood insiste em retomá-lo, em uma não muito sutil esperança de que volte a ter a importância que possuiu um dia.

Desnecessário nomear aqui todas as referências de westerns e faroestes que ‘Rango’ faz, dos filmes do Clint Eastwood, Sergio Leoni, os westerns-spaghetis, e por ai vai. Quem cresceu vivenciando essa época que atingia todas a mídias, do cinema à televisão, de publicidade e marketing à revistas em quadrinhos, vai reconhecê-las todas e pode se divertir contando-as. Quem não viveu e não faz a menor idéia de quais filmes ‘Rango’ está falando, também pode passar um tempinho agradável, observando o urbano e solitário camaleão que sempre viveu na cidade grande e tem pretensões de ser ator, que de repente se vê jogado em um vilarejo no meio do deserto, castigada pela seca, por políticos corruptos e vilões malvados. Acaba se tornando um herói por acaso, assume o lugar de xerife, e afinal vai ter que enfrentar perigos mortais de verdade e abandonar seu fingimento.

O outro lado é, para os que sabem das referências, fica cansativo reconhecê-las (são realmente muitas) e, na prática, acaba com o suspense da narrativa, pois se sabe exatamente para onde a história vai encaminhar, quais personagens vão surgir, quais as reviravoltas, e como vai terminar tudo. O que é um tanto brochante.

Para os novatos em westerns, tenho minhas dúvidas se agradará o ritmo meio irregular, que transita entre as caracterizações um tanto duras e psicológicas, em especial no começo do filme, e as repentinas tomadas de ação e comédia, sem serem empolgantes em nenhuma. Um outro desenho animado, quase com a mesma história, conseguiu fazer muito melhor, o ‘Vida de Inseto’.

Sem muito entusiasmo, imagino que seja ‘Rango’ quem vai ganhar o Oscar.

Ao contrário de ‘Tintim’, ‘Kung Fu Panda 2’ investe pesado no carisma e na simpatia dos personagens. O que torna esse filme, simpático. Jack Black, Angelina Jolie, Jackie Chan e todos os demais voltam com suas vozes e personas, agora também com Gary Oldman e um bando de gente (incluindo aí uma participação rápida de Jean-Claude Van Damme), e garantem acima de tudo a leveza e (tenho que repetir, perdão) simpatia geral.

A questão é que toda a jornada do herói, sua luta, afirmação, ascensão e redenção, já foi contada (e bem) no primeiro filme. Assim, nesta segunda parte, não é possível deixar de ter a sensação onipresente de uma forçação de barra na história para justificar uma série, como se assistíssemos um episódio de televisão. Para isso, um novo vilão maquiavélico e uma revelação bombástica na vida de Po, o Panda, são interessantes e fazem avançar a trama.

Mas faz falta, e nunca houve a intenção, é verdade, de uma ambição maior, de ser realmente grande, de explodir cabeças. A ambição mor parece a de colecionar um monte de vozes de atores famosos para os coadjuvantes que, por sinal, ficam na maior parte do tempo boiando, à espera de uma contribuição real.

Bueno. Simpático.

Se houve alguma utilidade real nesta edição do Oscar 2012 para Animação, foi a de que colocar em relevo algumas obras estrangeiras (isto é, não-norte-americanas) que, em caso contrário, ficariam esquecidas, mesmo que já lançadas há um certo tempo.. Bom, na prática, continuarão de escanteio, mas pelo menos alguma atenção lhes foi dada. Mesmo porque, nenhuma delas atinge a força de anos anteriores como fizeram ‘Persépolis’, ‘Valsa com Bashir’ ou ‘O Mágico’.

De qualquer forma, vale a pena entrar em contato com ‘Um Gato em Paris’ e ‘Chico e Rita’.

O gato, no caso, se chama Dino: ele é parisiense e tem uma  vida bem agitada: de dia, vive na casa da menina Zoe e de sua mãe, Jeanne. A casa está em um período de luto: o pai de Zoe morreu, assassinado por um mafioso local, e sua mãe é a policial que está tentando prendê-lo. De noite, Dino é parceiro de um profissional ladrão de jóias, Nico, um bandido dedicado, mas de bom coração. Um gato e um verdadeiro gatuno (um jogo de palavras clichê que não contive, fiquei esperando o texto todo para poder fazê-lo). É óbvio que, mais cedo ou mais tarde, todas essas vidas irão se chocar e suas vidas mudarão.

Com roteiro mínimo, e história idem, o melhor de ‘Um Gato em Paris’ é sua arte, de certa forma também minimalista, bonitinha e simples. Não dói assistir, nem empolga, mas tem a relativa vantagem de ser curtinho e rápido de assistir…

‘Chico e Rita’ é uma história de amor, simples, direta, romântica, que se passa em Cuba pré-revolução, com uma trilha sonora primorosa e envolvente, que inclui ritmos latinos, como rumba e bolero, com muito jazz, principalmente bebop, e um pouquinho de blues.

Chico e Rita são músicos, ela cantora, ele pianista, que se juntam e se apresentam, se apaixonam e brigam, e cujas carreiras e idiossincracias os levarão para caminhos muito diferentes.

Romance, muita música boa, sexo e nudez com cenas calientes (o clichê latino, por excelência), arte com desenho de estilo naturalista muito bem produzido (que me lembrou um tanto o que fazia Ralph Bakshi na década de 70, sem a preocupação excessiva com os detalhes dos personagens em si).

O ritmo é lento, no entanto, sem preocupação de um melhor desenvolvimento de personagens, contentando-se com sua unidimensionalidade, o que prejudica sua fluição plena. É uma pena, embora pareça corresponder às aspirações dos autores (entre vários roteiristas e diretores, Fernando Trueba). Mesmo assim, na minha opinião, o melhor longa de animação dentro dessa turma.

Havia, na primeira lista de pré-indicados, uma animação cujo trailer me chamou muito a atenção. Uma produção tcheca chamada ‘Alois Nebel’ baseada em uma graphic novel respeitada, cujo plot fala de um homem estranho e mudo que se envolve (ou é envolvido) em um crime de morte no meio de um inverno polonês (pelo menos, foi o que entendi). O estilo do desenho me remetia a ‘Valsa com Bashir’, aqui em um bonito preto-e-branco, e prometia um resultado sensacional. Ou uma chatice tremenda. Como não foi indicado, está sendo esquecido e não mais encontro referência, para poder assisti-lo de alguma forma.

E, entre os indicados, há um chamado ‘Gato de Botas’ que é, no mínimo, No Mínimo, uma perda de tempo.

Para ‘Tintim’ e ‘Rio’ sobraram indicações somente na área musical: para o primeiro, como Melhor Trilha Sonora (chega a ser uma brincadeira triste, pois John Wiliams não está em sua melhor forma); para o segundo, como Melhor Canção, onde concorre única e exclusivamente com ‘Os Muppets’ (outra brincadeira? somente duas canções foram boas este ano? então, é uma verdadeira catástrofe musical?)

Minha aposta para esse ano fica assim:

Para Desconcertos, Melhor Longa de Animação é ‘Chico e Rita’.
Quem vai levar o Oscar: ‘Rango

Cuba em ‘Chico e Rita’

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One Comment em “Oscar de Animação: o ano da mediocridade”


  1. […] Animação (o texto discute esse prêmio com detalhes) (texto) Rango O Gato de Botas A Cat in Paris Chico & Rita Kung Fu Panda […]

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