O espião que me traia e sabia demais

O verdadeiro contraponto para as aventuras de James Bond, repletas de emoções e explosões, tecnologias de últimas gerações, mulheres gostosas e ‘acessíveis’, viagens mirabolantes, bebidas e lugares exóticos, nunca foram as comédias nem o escracho. Filmes e sátiras como ‘Agente 86’, ‘Johnny English’ ou ‘Austin Powers’ (entre outras milhões de referências possíveis), ao tirar sarro pesado do glamour e da pretensa vida de sonhos do superherói britânico, na verdade, rendem homenagem (sentem inveja) do que estão zoando. Sentimos o ridículo da figura de um Austin Powers na mesma medida em que tanto gostaríamos de estar na pele de Bond. O autêntico contraponto ao 007 é George Smiley, personagem principal de ‘O espião que sabia demais’.

Não há glamour na vida dos espiões de elite britânicos. Há rotina, disciplina e austeridade. São funcionários públicos que batem cartão ou assinam livros de ponto, trabalham em escritórios analisando longos relatórios de balanço, aguardam informações sentados ao lado do telefone ou do teletipo, se atrapalham com mesquinhas exigências burocráticas (típicas de qualquer escritório do mundo), e receiam quando surge alguma quebra brusca da rotina, pois quase sempre significa más notícias.

No universo dos espiões descrito pelo escritor John Le Carré (autor que sempre fez muito sucesso também no Brasil, com quase toda sua obra publicada por aqui) não há espaço para amizades, companheirismo ou confiança plena, pois eles se movimentam no cotidiano das mentiras, das entrelinhas não ditas ou sussurradas, das intenções veladas. Há traição atrás de qualquer porta, não só na área da política internacional, mas também na briga por cargos de maior importância, ou na cobiça pela mulher dos outros.

Em muitos sentidos, há um traidor na equipe de George Smiley. Seu chefe (que atende pelo sugestivo nome de ‘Control’) desconfiou disso, soube inclusive seu codinome, ‘Alleline’, e mandou um agente em campo para descobrir sua verdadeira identidade através de um informante na Hungria. A missão é um desastre, o agente é descoberto e morto, Control é demitido, e seu braço direito, Smiley, é forçado a se aposentar. Um tempo depois, os superiores percebem que há sim um traidor no meio do pequeno grupo que tomou conta da seção no lugar de Control e Smiley e reconhecem que não são capazes de identificá-lo. Tiram Smiley, então, de sua aposentadoria e lhe atribuem essa missão.

Sem explosões, sem correrias, sem glamour. ‘O espião que sabia demais’ aposta em uma história complexa e repleta de nuances, na qualidade de um time de atores consagrados, e na competência do diretor em criar um clima de tensão e melancolia. E acerta em cada um desses pontos.

O roteiro é primoroso ao conseguir traduzir todas as informações originais do livro (nada mais que justo ter sido indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado), mantém o ritmo da narrativa sob controle rigoroso (há vários flashbacks e idas e vindas na história, e cada um deles serve para acrescentar mais um detalhe importante para a construção e entendimento dos personagens ou mais uma peça para descobrir a verdade, mas o espectador nunca se perde de qual momento histórico está assistindo,) e não se se prende a um historicismo vazio: a Guerra Fria e o medo de um possível (ou imaginável) conflito nuclear, apesar de serem tão importantes para a contextualização da trama e para a deflagração da intriga, são mantidos à distância e rigorosamente como um quadro geral no qual os personagens se movimentam. Os dados históricos não são o mais importante. São jogados com habilidade e discrição, servem como aporte para a motivação dos personagens. Desta forma, não importa que o público não saiba quem foi Kruschev ou Stálin, não importa sequer que os ‘inimigos’ sejam russos ou árabes ou cubanos; o roteiro fornece a informação na medida exata para que saibamos que ‘eles’ estão do ‘outro lado’ e este traidor filho da puta está trabalhando para eles. A habilidade do roteiro é de apresentar isso e aumentar a complexidade desse entrecho maniqueísta (não há simpatias nem pelos ‘outros’, nem pelos ‘nossos’) sem perder a mão na construção do suspense, nem carregar demais nas cenas de melancolia.

A magnífica fotografia sóbria em tons pastéis e escurecida consegue emular esse clima de melancolia que persegue os personagens o tempo inteiro, criando um senso claustrofóbico mesmo em cenas em campo aberto. Faz uma parceria perfeita com a trilha sonora que, mesmo presente a cada instante, demarcando estados de espírito e caracterizando os personagens, nunca é intrusiva, nunca se intromete, não passa por cima das imagens e da história (como acontece no desastre da trilha de ‘Cavalo de Guerra’, por exemplo).

Com ‘O espião que sabia demais’ temos o privilégio de assistir a um desfile de atuações esplêndidas, da nata de atores britânicos em plena forma. Mark Strong, John Hurt, Toby Jones, Ciarán Hinds, Colin Firth, a recente estrela em ascensão (com plenos méritos) Benedict Cumberbatch, capitaneados por Gary Oldman, que afinal teve uma indicação (a primeira em toda a sua carreira) para Melhor Ator. Atores que, com o mínimo de gestos, conseguem exprimir tudo. Pensemos, por exemplo, em Ciarán Hinds, que tem um papel pequeno, com poucas falas: sua presença é tão sentidamente forte que sabemos desde o início que deve possuir segredos, que sua posição como membro daquela equipe não é fortuita; nada sabemos de sua vida, mas nem precisamos pois seus olhares são cheios de vida interior e de intenções; se saberemos quais são é outra história, embora tenhamos certeza que está tudo ali. Assim como em todos os outros atores, trazem sua marca e deixam impressões, cada a um a sua maneira, que continuam mesmo depois do filme acabado.

E tem Gary Oldman. O fato de nunca ter sido indicado antes fez com que agora tenha sido até uma surpresa. Inesperada, mas completamente coerente, pois ele dá um show. George Smiley é a plena contradição do seu nome: nunca sorri, se diverte, ou perde o controle de suas emoções. O rosto de Oldman / Smiley, apesar de sempre contido, apesar de nunca sorrir, ou chorar, ou espernear, deixam à mostra, no entanto, que todas essas emoções existem, e lutam para sair. Quanto mais dura fica a face, mais os olhos chispam fagulhas, mesmo que tentem se esconder atrás dos óculos de aros grandes.

E desde já fica a dica de uma das melhores cenas do cinema de 2011 e de muito tempo: o monólogo de Smiley / Oldman ao contar de uma antiga conversa importante com um agente russo. Sua ‘discussão’ com uma cadeira vazia é de chorar de tão bem feita, e vale bem uma carreira inteira de ator.

– As indicações para o Oscar de ‘O espião que sabia demais’ são de Melhor Ator (nem preciso dizer mais nada), Melhor Roteiro adaptado (idem) e Melhor Trilha Sonora (sem mais comentários). Ficaram de fora, muito injustamente na minha opinião, o de Fotografia, Direção de Arte e o de Direção, já que o trabalho de Tomas Alfredson em orquestrar todos esses bons elementos foi o verdadeiro responsável para que o resultado fosse tão bom. E, por favor!, não indica-lo para Melhor Filme, ao mesmo tempo que indica ‘Histórias Cruzadas’ ou ‘Cavalo de Guerra’. é mais um desses absurdos de que a Academia de Hollywood é tão pródiga.

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