Os Homens Que Não Amavam as Mulheres

David Fincher sempre foi, sem dúvida, o melhor nome que poderia ser cotado para dirigir ‘Os Homens Que Não Amavam as Mulheres’: uma trama complexa e emaranhada, com personagens invulgares, à caça de serial killers escondidos. Ao clima sombrio e crimes inomináveis, a experiência de ‘Seven’ e, principalmente, ‘Zodíaco’; pelo roteiro recheado de detalhes e sutilezas (próprio de um thiller de investigação), além do mesmo ‘Zodíaco’, Fincher também vinha do ótimo trabalho de ‘A Rede Social’.

Porém, como se repetiu várias vezes ao longo desse ano e se materializou nos indicados ao próximo Oscar, a evidente qualidade da produção e dos responsáveis não se refletiu em qualidade final. O resultado foram filmes irregulares, não necessariamente ruins, até assistíveis, mas longe de serem memoráveis. O que, no caso de diretores como Fincher, chega a ser quase um desrespeito. Pois sabe-se do que são capazes (já se provaram), e o material em mãos é bom (com muitas possibilidades) (tanto os livros originais, quanto os filmes anteriores), e no entanto, se contentam com uma obra medíocre.

A decepção em ‘Os Homens Que Não Amavam as Mulheres’ se apresenta de imediato, logo nos letreiros iniciais! O que deveria ser a apresentação de um filme de suspense, tenso e macabro, dilui-se em letras que correm rápidas de um lado para o outro. Não há mistério ou tensão; parece que vai surgir a qualquer momento, a figura do James Bond dando um tiro (e juro que não estava lembrando do Craig neste momento). A sensação de desconforto continua, com os diálogos mínimos e entrecortados, as cenas rápidas e descontinuadas, que à princípio deveria nos impedir de criar empatia com os personagens (não nos é dado o tempo para que nos importemos com eles) e é o que realmente acontece. É como se nos fosse dito: eis aqui o Daniel Craig, sua presença é o suficiente, importe-se. Ou olhe para essa mulher esquisita, magérrima e ossuda, carregada de piercings e tatuagens e saiba que, no fundo, ela é do bem.

A história segue essas duas linhas, desses personagens que, não importa se você nunca viu os filmes originais ou leu uma linha sequer dos romances, sabe sem dúvida nenhuma que inexoravelmente vão se encontrar mais para frente. Deste modo, Daniel Craig faz Mikael Blomkvist, um jornalista dono de uma revista de esquerda caído em desgraça recentemente, pois acabou de perder um processo por infâmia por denunciar um especulador da bolsa (um Naji Nahas deles) e não pôde provar. Ainda tentando se acomodar no meio de sua crise profissional e pessoal, Mikael é contactado por um velho milionário retirado, Henrik Vanger (protagonizado por um sempre sensacional Christopher Plummer) para resolver um mistério em sua família que o atormenta há décadas, um crime, o desaparecimento de sua sobrinha. Para o velho, embora nunca tenham sido encontrado o cadáver da sobrinha nem nenhuma notícia de qualquer espécie, a única conclusão possível é de que ela foi assassinada. E há vários suspeitos: todos de sua própria família.

Enquanto Mikael entra relutante neste imbóglio crimino-familiar, o outro lado da linha é Lisbeth Salander, desde já um dos grandes e marcantes personagens de ficção deste século. Lisbeth é toda agressiva: o seu visual já impôe barreiras, seu comportamento arredio e antissocial não abre espaço para intimidades ou sequer amizades, possui um histórico de violência e passagem por várias famílias adotivas quando adolescente, a tal ponto que mesmo agora adulta e com uma vida, mais ou menos, organizada, é obrigada a ser tutelada pelo Estado. E também possui uma memória fotográfica, e é uma hacker super inteligente. O lado mais sombrio e violento de Lisbeth vai explodir quando começa a ser atacada e abusada por um novo tutor inescrupuloso e sádico.

Como em toda história policial que se preze, as aparências simples iniciais vão necessariamente se desdobrar em camadas cada vez mais profundas e aterrorizantes e revelar os abismos que a crueldade humana pode alcançar. Neste sentido, a linha narrativa segue bem de perto a obra escrita pelo sueco Stieg Larsson e as poucas mudanças introduzidas quase não chegam a ser relevantes.

É o roteiro que atrapalha tudo, ao não construir com cuidado os personagens, tornando-os um tanto caricatos e sem estofo. As situações se sucedem e, como dito, acima, na realidade não nos importamos em como as pessoas são afetadas e como poderiam ser aprofundadas. Veja bem, o que acompanhamos são os estereótipos: o jornalista-detetive-em crise passa por perigos junto com a hacker-do-bem-esquisita-e-com-piercings-mas-do-bem-e-no-fundo-até-que-bonitinha-e-carente.

A edição piora mais, o que torna sua indicação para o Oscar para Melhor Montagem uma espécie de piada. Os cortes curtos diluem a tensão, não contribuem para um melhor entendimento da narrativa nem dos personagens, não intensifica os diálogos, retira a emoção dos momentos mais críticos, mesmo na cena mais pesada e chocante do filme, a do estupro, que por acontecer no meio do filme, cria na verdade um anticlimax para o restante da história.

E, mesmo assim, há coisas piores! A trilha sonora é um desastre, completamente equivocada e mal utilizada, um contraste interessante de como a mesma música ficou perfeita no trailer (aliás, um dos melhores trailers que vi ano passado, muito bem editado e instigante; a impressão que tenho é que, ao perceberem que a música tinha ficado bacana neste formato, deveria funcionar também no filme…).

Eu sei, tou ficando até chato, mas o pior ainda não é isso. É a interpretação de Daniel Craig. Já disse, em outros momentos, que gosto dele, gosto de sua presença, ele possui uma espécie de charme-brucutu que cai bem em alguns filmes. Aqui ele derrapa feio. São constrangedoras certas caras e bocas que faz para interpretar medo ou angústia ou raiva. Em nenhum momento, passa o clima de uma pessoa acabada e deprimida pelos problemas do mundo estarem pesando nos seus ombros. Portanto, não ‘compramos’ seus percalços, não compartilhamos de seus problemas, não nos importamos com Mikael / Daniel Craig.

Com Rooney Mara / Lisbeth Salander a coisa é diferente. A ponto de dizer que vale assistir à versão norte-americana de ‘Os Homens Que Não Amavam as Mulheres’ unicamente por sua causa. Por certo, ela já parte de imediato de dois pontos decisivos para que sua personagem seja impactante: o primeiro, o óbvio, o visual dos piercings e tatuagens e a aparência geral de perigo e inadequação e rebeldia, que chama a atenção e causa repulsa; que estranha e ao mesmo tempo atrai. Perceba-se como o marketing entende esse potencial, principalmente nos cartazes e nas imagens que foram sendo liberadas: a sexualização explícita de Salander, indica o entendimento dos produtores de manter a atenção instigada para a caracterização da hacker – esquisita, ao mesmo tempo que também se preocupa em ‘suavizar’ a violência explícita. A idéia é mostrar, de modo quase subliminar, que Lisbeth Salander, é sim estranha à primeira vista, quase repulsiva, mas na verdade, no fundo, ela é bonita e sexualmente atraente, sendo o outro foco sexual do filme (e, na minha opinião, o único, já que Craig está mais broxante do que picolé de chuchu).

O outro ponto para Rooney / Lisbeth é que, desde o início, sabemos (é dito ao público) que ela, por trás do visual dark, esconde traumas profundos e que suas atitudes antissociais são uma forma de autoproteção e já ficamos na expectativa de como isso vai influir em sua psique e em como vai ser tornar realmente ‘do-bem’. Não é à tôa que as cenas mais pesadas, o ataque mais violento, é contra ela. E é dela que esperamos a reação extremada, a resposta adequada, a contra-violência, e ficamos contentes quando ela acontece. Isto é, existe uma empatia aqui, bem diferente em relação a Mikael, já que este além de carregar o peso de uma personagem alquebrada e sem ânimo (e ainda com problemas de consciência, moral, e ética), ainda por cima mostra-se com a cara do Daniel Craig, francamente desanimadora.

Por outro lado, a potencialidade da força da personagem não se realizaria se a atriz não a segurasse com firmeza. A felicidade é que a jovem Rooney Mara tem garra e se joga na caracterização com vontade, faz um bom trabalho e não permite que Lisbeth Salander caia na galhofa. Não sei se seria o suficiente para que fosse indicada como Melhor Atriz (tanto para o Oscar quanto para o Globo de Ouro), mas é uma indicação simpática, reconhece seu mérito e vai ajudar bem em sua carreira (obviamente, ser indicada será o máximo que conseguirá, e é mesmo o bastante, por enquanto).

Além de Melhor Atriz, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres também foi indicado para Melhor Fotografia (bonita, que aproveita muito bem o clima gélido e branco dos campos de neve, mas não considerei especialmente fantástica), de Melhor Montagem (pois é, para mim está mais para Framboesa de Ouro do que para Oscar), Melhor Som, Melhor Mixagem de Som.

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