George Clooney e o elegante, embora apático, cinema de palanque

George Clooney é um dos astros de Hollywood que segue uma carreira interessante e coerente com um pensamento político embasado, liberal, crítico inclusive, alternando entre filmes mais ‘sérios’ e densos e blockbusters de sucesso. Propaga e divulga seus pensamentos ao mesmo tempo que mantém sua posição (e a grana) de ator, diretor e produtor respeitado e incensado.

Pensar no trabalho de Clooney me faz lembrar de imediato dois termos: ‘Elegância’ e ‘Política’ que, no seu caso, estão intimamente relacionados, em principal nos seus próprios filmes como diretor, mas também em vários outros que, mesmo não sendo de sua lavra direta, sentem a influência do peso de sua presença. Assim, não só ‘Boa noite e boa sorte’ (Good Night, and Good Luck), ainda seu melhor filme, quanto ‘Tudo pelo poder’ (The Ides of March), o bonitinho ‘Amor sem escalas’ (Up in the Air), o aborrecido ‘Conduta de risco’ (Michael Clayton) ou o cheio de boas intenções, mas pesado e chato no limite do insuportável ‘Syriana’, ou até mesmo o bizarro e equivocado ‘Os Homens que Encaravam Cabras’ (The Men Who Stare at Goats), todos compartilham algumas características como a elegância na narrativa e na condução da história, sem exageros ou quedas para o melodramático; atuações contidas e tensas, nunca explosivas: os personagens podem entrar, e várias vezes, em desespero e em situações problemáticas, e os enredos até podem ser mirabolantes, com várias reviravoltas, mas a narração é distante, quase fria, mesmo que empática, enquanto o ritmo é pausado e emocionalmente pensado.

A escolha por esse tipo de narrativa tem como resultado (e esse é o objetivo buscado por Clooney) a valorização plena das idéias e da crítica política expressas da forma mais explícita. Em alguns casos, há um contrabalanço positivo nos roteiros bem feitos, como no belo trabalho de Jason Reitman, no ‘Amor sem escalas’: a discussão sobre os efeitos devastadores da crise econômica é muito bem realizada pela ironia e a comédia melancólica. Em outros casos, pesa um pouco. Em ‘Boa noite e boa sorte’, por exemplo, o equilíbrio é instável: a discussão sobre o maccarthismo e a perseguição aos comunistas da década de 50 remete diretamente ao ataque à democracia interna do país perpetrada pelos republicanos e por George Bush jr.Em determinado momento do filme, que sabemos desde cedo que acontecerá, a história vai ser paralisada, o personagem (/diretor) tomará a palavra e fará a defesa veemente do que pensa. A narrativa é construída para que esse exato momento aconteça.

Tudo pelo poder’ é, como o título nacional não nos deixa esquecer, a crítica à corrupção e aos meandros internos e nefastos que constituem as corridas pelos postos políticos e, em um outro nível, a degradação das pessoas de bem que são sugadas e destruídas no processo ou assumem seu lado mais bestial. Porém, mais do que isso, o filme é um reflexo do profundo descontentamento e decepção provocados pelo governo Obama. Aqui, Clooney aponta um dedo virulento para o fracasso da política externa dos democratas. O governador Mike Morris, candidato para a indicação do partido democrata para as eleições presidenciais, é um personagem criado especificamente para o filme, não existia no texto original da peça em que foi baseado, e todas as vezes em que há um discurso público do candidato pela campanha percebemos qual o seu sentido: a história se interrompe, faz-se uma pausa, para que o governador / diretor Mike Morris / George Clooney ataque os desastres das guerras e das políticas adotadas pelos Estados Unidos pelo mundo. Em um diálogo com seus assessores, preocupados com o baixo rendimento da campanha, o governador chega a ser taxativo: jamais comporia uma chapa com um democrata (cuja participação pode ser o fiel da balança para a sua indicação) que despreza o trabalho da ONU e prega que deva ser desmontada. Mais claro, impossível.

Elegância e Política foram os termos que adotei e o fiz no bom sentido das palavras. No entanto, há o lado negativo. A narrativa contida leva a uma filmografia quadrada, fechada, sem extremismos fílmicos ou malabarismos vazios de câmera, mas também sem ambições, sem surpresas. Na fronteira da pura e simples chatice. Como dito acima, essa opção foi proposital (talvez não o lance da chatice…) pois o maior propósito de Clooney é realizar seu comentário crítico. E esse é o outro lado ruim: o discurso (não as ideías em si) é tão compartimentado e separado, tão ciente de si e explicitado, que chega-se a uma outra fronteira: o didatismo. Sua vantagem é que os textos são bons e muito bem escritos, pois senão ultrapassariam o didatismo e alcançariam o pleno pedantismo.

‘Tudo pelo poder’ corre ao lado de todos esses perigos. O resultado final é ambíguo e insatisfatório. Talvez se Clooney soltasse um pouco a rédea e permitisse um ritmo mais ágil, a sensação poderia ser melhorada. Mas tudo o que ele não deseja é transformar a história em um thriller de suspense com temática política, o que seria facilmente conseguido pois todos os elementos estão na própria história.

Acompanhar as desventuras de Stephen Meyers (Ryan Gosling), um dos principais assessores do governador Morris, em sua descida ao inferno após conhecer o lado mais podre do seu ídolo (e dos políticos em geral), ser demitido e considerado um verdadeiro traidor da campanha, e suas tentativas desesperadas de retomar sua antiga vida, poderia render uma jornada pessoal emocionante para o espectador.

Não é o que acontece. Clooney realmente segura o freio e impede que a emoção aflore. Os personagens sentem raiva, medo, desespero, ressentimento, impotência, mas o espectador não participa disso, é mantido à distância, não nos é permitido nos envolver.

O que mais vale em ‘Tudo pelo poder’ é a presença de vários atores extraordinários que, mesmo em papéis pequenos e rápidos, deixam profunda impressão: o sempre sensacional Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman (puxa, como eu detestava esse cara na época do ‘Talentoso Ripley’!; não imaginava que se tornaria tão bom ator), Marisa Tomei, o próprio George Clooney (carismático eterno). Os personagens são tipos e estereótipos: O Assessor do Bem, O Assessor do Mal, A Jornalista, O Candidato, que só não caem na caricatura e na galhofa por conta justamente da qualidade do elenco.

Para terminar, só um rápido comentário besta sobre o título nacional que substitui uma bela frase referente a um trecho de Shakespeare, da peça ‘Julio César’, onde se faz uma poderosa advertência sobre os perigos que estão para
acontecer ao imperador. ‘Tudo pelo poder’ para um filme que já estou acusando de ser didático, quase pedante, só acrescenta ainda mais simplismo e não ajuda nada.

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2 Comentários em “George Clooney e o elegante, embora apático, cinema de palanque”

  1. Juliana Says:

    Olha, falando sério: ADORO o seu blog. Você escreve bem demais, escolhe os temas e discussões mais interessantes e de quebra ainda me faz descobrir coisas geniais, sempre. Fora o bom gosto para filmes, livros…

    Curtir


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