Christopher Hitchens e o Julgamento de Kissinger


Henry Kissinger, prêmio Nobel da Paz em 1973, secretário de Estado dos EUA durante os governos de Nixon e Gerald Ford, atual consultor político internacional, empresário muito bem-sucedido e escritor com artigos publicados em revistas e jornais do mundo inteiro, já passou por alguns apertos. A cada dia, novos e esclarecedores documentos estão sendo levantados e mais países estão contestando sua antiga e poderosa atividade como secretário de Estado.

Na apresentação d´O Julgamento de Kissinger, de Christopher Hitchens, publicado no Brasil pela Boitempo, Giancarlo Summa lembra que, em maio de 2001, enquanto passava pela França, Kissinger foi abordado pela policia francesa para prestar esclarecimento sobre a morte de cinco franceses durante a ditadura de Pinochet no Chile. A resposta de Kissinger foi sair do país no mesmo dia.

Um juiz argentino intimou-o a discutir sua participação na tristemente famosa Operação Condor; tribunais chilenos, sobre a morte do jornalista norte-americano Charles Horman (cujo seqüestro e assassinato formaram o assunto de um dos mais contundentes filmes políticos de todos os tempos, “Missing” de Costa-Gavras); o jornalista e professor Emir Sader comentou que “a própria Corte Federal dos EUA acusa Kissinger pela´execução´ sumária do general chileno René Schneider”.

Acusações sérias? Bom, ainda não chegam perto das que Christopher Hitchens realiza neste livro. Para o autor, Kissinger deveria estar sentado ao lado de Pinochet, o sanguinário ditador chileno, e junto com o ditador sérvio Milosevic, respondendo por crimes contra a humanidade da mesma forma como os nazistas julgados pelos tribunais internacionais.

Kissinger nunca primou pela delicadeza em relação ao comportamento norte-americano em sua luta contra os “inimigos”, fossem eles quais fossem, embora sempre houvesse uma “predileção” pelos comunistas. Sua famosa frase “Não vejo porque temos que ficar parados enquanto um país se torna comunista em razão da irresponsabilidade de seu povo”, define toda sua personalidade e sua atuação como político. Foi gestor consciente da “realpolitik”, onde não há muitas considerações sobre a ética e a moralidade, principalmente quando elas atrapalham os interesses norte-americanos.

Mas não é contra isso que Hitchens se levanta. Ele não está contestando as possíveis atitudes dúbias de algum estadista que acaba tendo que tomar decisões moralmente complicadas por conta de algum interesse nacional maior.  Hitchens não está fazendo nenhuma discussão filosófica ou de oposição política. Ele é direto e objetivo: Kissinger é um criminoso, mesmo que bancado pela mais poderosa nação do planeta e, dessa forma, deve ser julgado. Este livro foi escrito, portanto, como uma peça dessa acusação.

Hitchens assume uma postura clara desde o prefácio: ele é adversário político de Kissinger, sim, mas está se restringindo a fatos e atitudes que sejam criminalmente caracterizados. Quanto a sua posição, não há duvidas. Comentando sobre os resultados da guerra do Vietnã, ele diz:

“Isso é o que custou promover Henry Kissinger da condição de acadêmico medíocre e oportunista a potentado internacional. As marcas estavam lá desde o momento inaugural: a adulação e a duplicidade; a adoração pelo poder e a ausência de escrúpulos”, “e os efeitos distintos também estavam presentes: os incontáveis mortos; as mentiras oficiais e oficiosas sobre o custo; a pesada e pomposa pseudo-indignação diante de perguntas indesejáveis”.

Hitchens não se importava com a possível ridicularização de sua obra. Ele encara de frente: “Eu já posso ouvir os guardiões do consenso tentando classificar isso como uma ‘teoria da conspiração’. Aceito o desafio, com prazer”, para, logo em seguida, desfilar uma avalanche de documentação, citações, testemunhos, notas, transcrições de gravações, etc.

Quais são, então, as acusações? Ele define seis:

– genocídio deliberado de civis na Indochina;

– conluio deliberado no genocídio e em posteriores assassinatos em Bangladesh;

–  suborno e planejamento de assassinato de um oficial graduado numa nação democrática – o Chile – com a qual os Estados Unidos não estavam em guerra;

– envolvimento pessoal para assassinar o chefe de Estado numa nação democrática – Chipre;

– promoção e facilitação de genocídio no Timor Leste;

– envolvimento pessoal em um plano para seqüestrar e assassinar um jornalista residente em Washington.

Nenhuma dessas acusações é novidade. Kissinger já está respondendo ou fugindo dessas questões há algum tempo. O mérito de Hitchens é o de aproveitar todo um material novo, como a documentação liberada em 2000 pelo FBI, por exemplo, e de conseguir apresentá-lo de uma forma direta e limpa, “traduzindo” para a linguagem comum o pesado jargão jurídico e burocrático. Além de revisar todo o material antigo já existente.

Não são afirmações levianas, portanto. Jornalista acostumado com a polêmica, disse que desde que se radicou nos Estados Unidos na década de 80 (ele é britânico, nascido em 1957), se sentia obrigado a dizer a verdade sobre essa sinistra figura. Foi-se armando, coligindo dados e informações até escrever dois artigos que formaram a base deste livro. (Antes disso, já havia criado uma enorme polêmica quando “ousou” investir contra uma pessoa que ninguém julgaria passível de recriminação: Madre Teresa de Calcutá. Bateu forte, realizando uma profunda desmistificação da vida e da obra dela e demonstrando o quanto suas pretensas “santidade” e caridade foram conscientemente construídas. Qual será a editora brasileira que traduzirá e publicará este livro, afinal?)

Quais são as possibilidades, porém, de que Kissinger venha a ser seriamente questionado e tenha que responder pelos seus atos e, quem sabe, sentar em qualquer tipo de banco de tribunal? Hitchens acredita que está mudando a atitude internacional perante as “grandes figuras políticas”; está se perdendo o respeito irrestrito a sua impunidade parlamentar. Ele cita o caso justamente dos agravos de Pinochet e Milosevic.

Acrescenta que o próprio Kissinger reconhece o perigo por que está passando. Não foi à toa que escreveu um livro em que discute justamente a questão da “doutrina universal”, cujo titulo “Does America Need a Foreign Policy?” (A América precisa de uma política externa?) já diz tudo. Por outro lado, ele até hoje não devolveu cerca de cinco mil páginas de material secreto que retirou das gavetas do governo quando deixou seu cargo de secretário de Estado, em 1977, ignorando solenemente todas as instâncias jurídicas.

Tenho minhas dúvidas se algum dia Kissinger possa ser efetivamente condenado (ou, sequer, julgado). Sua conduta está tão imbricada na razão de ser do império norte-americano, sua arrogância e prepotência representam tão bem a própria arrogância e prepotência desse país, que julgar Kissinger é o mesmo que julgar o próprio imperialismo. Na época do lançamento desse livro, o jornal A Folha de São Paulo, por exemplo, publicou um artigo seu (“Intervir no Iraque surge como imperativo”, 11 de agosto de 2002) que demonstra o quanto ele está sintonizado com o público norte-americano.

O livro de Hitchens é uma bela tentativa no sentido de ajustar as contas. Forte, poderoso, instigante. É um ataque apaixonado, decidido, mas ao mesmo tempo, lúcido e equilibrado. Indispensável para qualquer pessoa com um mínimo de coerência política e interessada na justiça.

 

obs – texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer (se não me engano) e republicado agora por conta da morte de Hitchens, cujas polêmicas farão imensa falta

obs2 – a pergunta que eu fiz no texto ainda continua válida: agora com a morte de Hitchens, alguma possibilidade de, afinal de contas, publicarem seu livro sobre Madre Tereza??

 

 

 

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One Comment em “Christopher Hitchens e o Julgamento de Kissinger”


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