Os três mosqueteiros

Os franceses são um povo meio complicado. Depositária de uma herança que ajudou a moldar a mentalidade, o pensamento, a cultura do planeta, principalmente do seu lado ocidental, a França sempre foi um viveiro de pensadores, cientistas e artistas das mais variadas espécies: pintores, músicos, escritores, cineastas, etc. Criadora de movimentos culturais e políticos com repercussões mundiais e permanentes. Além de abrigar manifestações do mundo inteiro: a França foi a segunda pátria para jazzistas norte-americanos que fugiam do racismo em sua terra natal e recebiam, muitos pela primeira vez, respeito, admiração e espaço para trabalhar e criar; os franceses foram os primeiros também a reconhecer Hitchock como um verdadeiro artista, acolheram os filmes noir de Hollywood e, ao mesmo tempo, montaram seu reverso, a Nouvelle Vague. Enfim, essa lista poderia se estender ad infinitum.

Por outro lado, é a mesma França que concede a Legião de Honra para um Paulo Coelho e sua “inestimável contribuição para a humanidade”. Bom, isso em si não seria um verdadeiro crime (já que Paulo Coelho “enfeitiçou” o planeta inteiro), não fosse um pequeno fato ocorrido no final de 2002: Em novembro desse ano, os restos mortais de Alexandre Dumas começaram a ser transferidos de Villers-Cotterêts para o Panteão em Paris. O fato pode ser pequeno, mas seu significado é tremendo.

Para se ter uma idéia apropriada, é preciso saber que o Panteão abriga ídolos franceses centenários, personalidades que carregam o próprio significado de sua identidade nacional, pessoas como Voltaire e Vitor Hugo. Ser depositado ali quer dizer que Dumas foi colocado no mesmo nível  desses outros gigantes. Como disse Gilles Lapouge na ocasião: “O que espanta não é o fato de Alexandre ser admitido no Panteão. O que precisamos dizer é exatamente o contrário: por que o Panteão demorou tanto tempo para acolher as cinzas desse gigante da literatura francesa e mundial?”. Lapouge também dá a resposta que, infelizmente, é muito simples: Dumas sempre foi considerado, pelos franceses, “como um autor de segunda categoria”. O escritor francês mais traduzido no mundo inteiro, cujas obras alcançaram a imaginação e a vivência de gerações inteiras, que ajudou a espalhar e generalizar símbolos da história, da sociedade e da força tipicamente francesas e que era admirado e respeitado por escritores do quilate de um Vitor Hugo e Honoré Balzac, demorou mais de cento e trinta anos depois de sua morte para ser considerado um escritor sério e competente com direito a ficar do lado de autores clássicos!

Depois de um Paulo Coelho receber a tal Legião de Honra e tal.

Foi um francês quem disse que o Brasil não era um país sério.

A literatura de Alexandre Dumas caracteriza-se justamente por uma agilidade narrativa impressionante, com altas cargas de emoção, suspense e ação. Ele não se envergonhava de ser melodramático, sentimental, exagerado. Sua maior qualidade eram os diálogos: rápidos, cortantes, inteligentes, incisivos. Além de serem agradabilíssimos de ser lidos, constituem elementos fundamentais para a trama e por meio deles o enredo é alavancado. Nisso, Dumas continua sendo um mestre indiscutível até hoje. Além do que, o carisma, a empatia e a densidade com que conseguia envolver seus personagens, transforma-os em verdadeiras personalidades que marcam indelevelmente nossa mente.

São romances de aventuras, de intrigas palacianas, de heróis destemidos e de vilões malignos que fazem ferver a imaginação e, acima de tudo (pecado dos pecados!), são divertidos!! Dumas foi desprezado e desdenhado pela intelectualidade porque possuía uma característica que o incapacitava: era popular! Como tal escritor poderia ser considerado “sério”?

A própria vida de Dumas daria um enredo perfeito para algum de seus romances (e certamente passou muita coisa de sua experiência própria para os livros). Começou sua carreira como dramaturgo, já com muito sucesso. Escreveu por volta de quinze peças (pelo menos uma das quais, “La Tour de Nesle”, considerada como uma obra-prima do melodrama francês), mas foi quando se voltou para o romance que ele realmente “estourou”. Ficou famoso e idolatrado, ganhou rios de dinheiro e gastou-os na mesma proporção, com festas, mulheres, viagens, palácios e, portanto, estava sempre envolvido em luxo e dívidas, caçado pelos credores. Possuidor de um ritmo frenético de trabalho, escreveu milhares de páginas. Quando morreu, deixou por volta de duzentas e cinquenta obras. Escrevia tanto e tão rápido que durante um certo tempo pairou a suspeita de que ele, na verdade, pagava uma equipe de secretários para isso e ele só assinava. Intrigas da Academia.

Athos, Porthos, Aramis, capitaneados pelo cativante d’Artagnan,  e o seu brado de guerra e declaração de amizade infinita, o “Um por todos e todos por um”, são conhecidos até mesmo por quem nunca chegou sequer perto do livro. D’Artagnan, o jovem ansioso por aventuras e honrarias, recém-chegado a Paris com alguns trocados na bolsa e cujo maior sonho é se tornar mosqueteiro, é o verdadeiro líder da turma; Athos é o nobre de alma pura que carrega um terrível segredo escondido; Aramis é o galanteador, gosta de armar e participar de intrigas e, ao mesmo tempo sonha em se tornar padre; e Porthos é o Hércules: forte como um touro, íntegro de coração, ingênuo e burro. Os quatro colocam a França de pernas para o ar: se envolvem em uma luta contra a personalidade mais poderosa da época, o Cardeal Richelieu, auxiliam a Rainha em apuros, enfrentam a bela e maligna Milady, a vilã – protótipo de todas as “femmes fatalles” que se seguiram… Tudo isso recheado com um humor escrachado, repleto de frases de efeitos, tiradas memoráveis, cenas inesquecíveis.

O que nem todo mundo sabe é que os quatro realmente existiram. Dumas “chupou” os personagens de um libretinho assinado pelo d’Artagnan, pretensamente escrito pelo próprio. Dumas se apropriou dos caracteres e da trama em geral, enxertou uma certa ambientação histórica, sem tanta preocupação com a veracidade científica, e moldou-os a sua própria vontade (aliás, tal como fazia um outro autor, inglês, um autêntico plagiador que também cometeu o tal pecado de ser popular, fazer sucesso e ser profundo, chamado Shakespeare).

“Os três mosqueteiros” foi o ápice absoluto da carreira de Dumas, apesar de várias outras obras de bastante repercussão como “O Conde de Monte-Cristo”, “A Tulipa Negra” ou “A Rainha Margot”. Ele continuou a história dos heróis por bastante tempo, em “Vinte Anos Depois” e foi até a morte de cada um, em “O Visconde de Bragelonne”, onde inclusive está inserida uma outra aventura famosa, “O Máscara de Ferro”.

Deixe de lado as histórias em quadrinhos, os desenhos de animação, as adaptações infantis. Esqueça os filmes (mesmo os 3D, 4D, 5D) que porventura você tenha assistido; Se ainda não leu “Os Três Mosqueteiros”, está perdendo tempo e marcando passo.

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