As boas mulheres da China

A leitura de “As Boas Mulheres da China” provoca de imediato duas reações que, a primeira vista, podem parecer contrárias e conflitantes. De um lado, há o espanto, a perplexidade, o choque. Estarrecimento. Supresa. Do outro lado, há uma desconfortável sensação de reconhecimento.

Durante sete anos, Xinran manteve um popular programa de rádio onde pela primeira vez as mulheres podiam contar suas histórias, seus problemas e angústias. Na verdade, era a primeira que alguém se dispunha a escutar e fazer com que elas fossem ouvidas. Era uma iniciativa espinhosa e potencialmente perigosa: uma palavra equivocada, um pensamento que significasse algum tipo de crítica, mesmo que leve, ao governo ou o partido comunista (o que, no caso da China, obviamente sáo a mesma coisa), ou que resvalasse para um dos inumeráveis assuntos proibidos, podia levar a destruição de uma carreira ou mesmo a um julgamento sumário. O programa durou de 1989 a 1996.

Xinran vai, cuidadosamente, colocando estas vozes no ar. Primeiro, como leitura das centenas de cartas que recebia diariamente. Depois, conversando com a próprias mulheres, ao vivo. É quase incompreensível saber como Xinran não foi presa e condenada. As histórias que essas mulheres contavam não eram nada doces e simpáticas.

Ao contrário. Tratam de incesto, rapto e sequestro domiciliares, estupro, sofrimento, dor, tortura, negligencia, casamentos arranjados politicamente. Brutalidade quase sempre familiar, geralmente cometida pelo pai, tio ou parentes, líderes comunitários e políticos, membros do partido. A ignorancia sobre ridículos fatos básicos sobre sexualidade é absurdamente imensa. Xinran dá um exemplo de si mesma quando, aos 22 anos ficou em crise porque não sabia se havia ficado grávida por ter andado de mãos dadas com um homem.

Atitude que, por pouco, não invibializaram o projeto. Sua idéia, de tentar entender a alma da mulher chinesa, era ridicularizada: a alma da mulher era impenetrável e incompreensível. E, depois, afinal de contas. quem se importaria com isso?

A audiência foi a resposta. O programa começou a ser ouvido por milhares de pessoas; centenas de histórias eram despejadas em sua mesa, diariamente, tornando-a uma verdadeira celebridade. Nem Xinran tinha consciencia da profundidade do que havia iniciado.

Histórias como a da menina estuprada pelo pai desde quando tinha 11 anos de idade que só encontrou alívio quando foi internada e o único toque gentil que sentiu em sua vida foi pelas patas de uma mosca. Sua única felicidade foi quando soube que iria morrer e não retornaria jamais para a casa do pai.

Ou a do velho que raptou uma garota de 12 anos para ser sua mulher e a acorrentou na cama para que ela não fugisse. Toda a aldeia sabia e não se importava, pois essa é uma prática tão comum… Somente uma pessoa se importou e mandou uma carta anônima para Xinran, pois a menina estava para morrer por causa dos ferimentos causados pelas correntes. Ela implorava, no entanto, para que Xinran fosse discreta, pois se descobrissem quem havia denunciado, ela seria escorraçada da aldeia. Essa menina Xinran conseguiu ajudar, mas quantos outros casos haveria pela China inteira?

Em suas pesquisas, em suas entrevistas com mulheres pelo país, Xinran visita o presídio de Hunan para conhecer Hua’er, presa por promiscuidade ou, em palavras oficiais “delitos sexuais e coabitação ilegal”. A história da dizimação de sua família promovida na época da Revolução Cultural e o estupro coletivo que sofreu quando era criança por vários guardas vermelhos revolucionários, não pôde, evidentemente, ir para o ar.

Em 1976, a cidade de Tangshan sofreu um terremoto que matou trezentas mil pessoas. Estas mortes se deveram não somente ao impacto imediato do terremoto, mas, por causa da precariedade das comunicações na época, o resto da China sequer soube do que aconteceu por dias. Na verdade, só tomaram conhecimento do fato por conta de entidades estrangeiras que haviam registrado o abalo sísmico. A demora na ajuda, a desorganização e a falta de equipamento necessário certamente pioraram uma situação já terrível. As histórias das mulheres do desastre de Tangshan, porém, não cabem nesta resenha.

E vou parar com os exemplos. Mesmo porque, o livro de Xinran não é um simples relatório. A dor, as lágrimas e o crescente choque, a descoberta de horrores somente vislumbrados anteriormente, percorrem cada página, cada parágrafo. Não é um documentário. É um longo desabafo, uma forma de Xinran prestar alguma forma de auxílio àquelas mulheres, uma forma de fazer com que suas vozes continuem a serem ouvidas de alguma forma. E nisso tudo está a vida da própria Xinran.

Até aqui falei do choque. O segundo sentimento, o do triste reconhecimento, pode ser exemplificado quando se sabe que existem meio milhão de crianças, com idades entre 12 e 15 anos, que trabalham como domésticas no Brasil. Ou quando sabemos que o tráfico de mulheres e crianças no mundo movimenta em torno de sete bilhões de dólares por ano sendo que no Brasil é a terceira maior fonte de renda ilícita, perdendo somente para o tráfico de armas e o de drogas. As adoções ilegais, o turismo sexual, o abuso sexual de criancas por membros da família, principalmente o pai ou tios ou parentes … Aqui não houve uma Revolução Cultural chinesa e, formalmente, somos uma democracia, certo?

Atualmente, Xinran vive em Londres, casada com um inglês, tem um filho. As marcas são profundas, no entanto:

Ainda hoje, ela se sente incomodada quando chega em casa e vê seu marido fazendo o jantar ou lavando a louça. Precisa lutar com uma vozinha na sua cabeça que fica dizendo que Ela é a mãe, Ela é a esposa, Ela é quem tem essas obrigações …

Xinran responde perguntas sobre seu novo livro, “Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida”

 

 

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