A Caixa Preta de Amóz Oz e ‘Israel é uma decepção’

Amóz Oz é uma das prova vivas, caso fosse necessário, de que um verdadeiro escritor, ao tratar do que realmente conhece, de sua terra, de sua gente, consegue falar de temas universais.

Oz é reconhecido como um autor não só judeu, não só israelita, mas eminentemente israelense. Nascido em 1939, em Jerusalém, sua vida está diretamente imbricada com a construção e sobrevivência do Estado de Israel, o qual sempre defendeu. Foi soldado da reserva em todas as batalhas de fundação e manutenção do pequeno país, como a Guerra dos Seis Dias em 1967 e o das Colinas de Golan em 1973. Mas, ao mesmo tempo, sempre entendeu que havia possibilidades de convivência pacífica entre as nações desde que houvesse respeito mútuo. Para Oz, há condições para que existam tanto um estado judeu quanto o palestino.

Logo que possível, deixou o exercito e engajou-se em todos os movimentos pacifistas; foi um dos fundadores do grupo “Peace Now” em 1977 e é uma de suas figuras públicas mais conhecidas; escreve artigos em defesa da paz em várias revistas e jornais do país e do mundo. Em 1992, ganhou um dos mais importantes prêmios alemães dedicado as pessoas que militam a favor da paz, o German Friedenspreis; e, 1997, ganhou do presidente francês Jacques Chirac,  a Legião de Honra.

Por outro lado, é um grande cultor das tradições e da cultura judaicas. Durante muitos anos, viveu nos kibutz, sem nenhum luxo apesar dos seus rendimentos; sempre escreve seus livros primeiro em hebraico; até hoje continua dando aula de língua e literatura hebraicas na Universidade Ben-Gurion; durante um ano morou e deu aula nos Estados Unidos como professor convidado. Em 1991, foi eleito como membro pleno da Academia de Língua Hebraica.

Isto por si só não explica sua ascensão como escritor e nem o sucesso dos seus livros pelo mundo inteiro. Nem o fato de ser traduzido para mais de trinta línguas, publicado em mais de quarenta países, detentor de vários recordes de vendagem em Israel, aclamado por críticos e por milhares de leitores e xingado e criticado, tanto por suas posições quanto pelas suas qualidades literárias por outros tantos críticos. A cada nova obra ou novo artigo, a polêmica se reinstala.

“A Caixa Preta” é um dos seus livros mais reconhecidos. Desde quando foi lançado em 1987, (quando centenas de exemplares eram vendidos por dia pelas ruas de Israel, disputados a tapa, e permaneceu assim por muito tempo até alcançar um impressionante número de setenta mil livros vendidos, considerando-se uma população de pouco menos de quatro milhões de pessoas), foi considerado tanto como uma obra-prima da literatura mundial quanto lixo que deveria ser jogado na fogueira.

Basta uma primeira leitura para entender como é possível provocar emoções tão exarcebadas: como um verdadeiro cirurgião, ele deixa expostos todos os nervos da relação humana. É fácil compreender como algumas pessoas não conseguem se reconhecer ou assumir que aqueles personagens são cópias fieis de uma realidade, de sua própria realidade, interna, profunda, verdadeira. “A Caixa Preta” é um mergulho nas dores de relações quebradas, de anseios interrompidos, de esperanças frustradas. O título faz referencia aos equipamentos de registro dos aviões, utilizados quando de algum desastre para se saber de todos os detalhes do acontecido e tentar entender o que aconteceu.

O “desastre” neste caso é o final do casamento de Alec Guideon e Ilana. Oz abre para nós a caixa preta desta separação através da correspondência trocada entre os dois e as pessoas que os circundam. Sete anos depois do final de um casamento marcado pelas brigas, desentendimentos, traições e luta pela guarda do filho (do qual ninguém tem certeza absoluta de que Alec seja realmente o pai, pois tanto ele quanto Ilana se recusam a fazer o teste de DNA), Alec está morando nos Estados Unidos, desfrutando da herança do pai e de sua fama como intelectual e historiador e Ilana casou-se novamente com um líder tradicionalista e de direita.

O motivo para que Alec e Ilana voltem a se falar é o filho, Boaz, que se revela um rapaz problemático, violento e agressivo, sem perspectivas de futuro, forçando Ilana a pedir ajuda para Alec. É o suficiente para que toda a amargura, frustrações e defeitos de caráter ou comportamento voltem a tona. Cada carta destila ódio, desespero, incompreensão. Uma autêntica lavagem de roupa (moral, pessoal, íntima) da qual nós, leitores, participamos como verdadeiros voyers perplexos perante a profundidade de sofrimento que cada ser humano é capaz de aguentar. Ou provocar.

Cada página do livro de Oz é um verdadeiro petardo. A cada momento, há uma revelação sobre algum aspecto deixado obscuro em uma carta anterior; a cada instante, somos obrigados a fazer uma reavaliação sobre aquilo que sabíamos (ou pensávamos saber). Um comentário feito pela escritora e blogueira  Tatiana Carlotti (do blog ‘Atalhos Urbanos‘) durante uma conversa sobre este livro é completamente pertinente: é o modo magnífico como Oz trabalha os silêncios. Através de toda a verborragia pelo qual somos inundados pelas cartas, há “buracos”, verdades escondidas ou meio-veladas que vão se revelando com muito custo, com fórceps, por cada correspondente. O leitor fica em suspensão eterna, em verdadeiro suspense, esperando pela próxima carta que trará, ou deveria trazer, uma luz sobre aqueles aspectos que parecem tão assentados.

Impressionante também é como Oz assume cada personagem. Sem grandes floreios ou enormes frases de efeito, nós sentimos cada personalidade completamente diferentes um do outro, sem recorrer a truques de repetição de falas para caracterizar uma pessoa. Parece incrível que tenha sido um homem quem no final das contas tenha escrito esta carta, por exemplo, de Ilana, datada de 19/4/1976:

A carta começa com ela reconhecendo suas próprias mentiras, seu “sangue de puta” que fez com que traísse Alec com vários homens e o quanto, no entanto, apesar de tudo o que eles tinham vivido e brigado, ele continuava sendo uma figura importante, fundamental, primordial, a ponto de ela dizer “Você foi e continua sendo meu marido. Meu senhor e mestre. Para sempre. E na vida após a vida, Michel” (o atual marido), “segurará o meu braço para me conduzir ao altar para a cerimônia de casamento com você“.

Pois bem, a bomba vem logo: “Como um cavaleiro que matou um dragão, escrevi há um momento. Mas não se apresse em comemorar. Sua arrogância é prematura, meu senhor: você é o cavaleiro louco que matou o dragão, e depois matou também a donzela e por fim destroçou também a si mesmo. Na realidade, você é o dragão. E este é o momento mais delicioso para mim: revelar que Michel-Henri Sommo é muito melhor do que você na cama. Em tudo que se refere ao corpo, Michel foi muito bem dotado desde que nasceu. Na verdade, não apenas Michel. Quase todos eles poderiam ter ensinado uma ou duas lições a você. Até o rapaz albino que era seu motorista no Exército: casto como um cabrito, talvez no máximo dezoito anos, culpado, assustado, mais submisso que talo de grama, tremendo todo, os dentes batendo, quase implorando que eu desistisse dele, quase em lágrimas, e de repente começou a esporrar antes sequer de me tocar, soltou um uivo de cachorrinho e, mesmo assim, Alec, no instante em que os olhos assustados do rapaz me lançaram um brilho puro de gratidão, de admiração, de adoração sonhadora, inocente como o canto dos anjos, isso fez meu corpo e o meu coração estremecerem mais do que você conseguiu em todos os nossos anos juntos.”

Creio que dá para sentir o “clima” de “A Caixa Preta”. E fica perfeitamente entendível por que qualquer rabino tradicionalista de Israel deve sentir horror de pegar um livro de Amóz nas mãos.

“Israel é uma decepção”, diz Amós Oz

De São Paulo 10/11/2011 – 00h05

“Israel é uma decepção”, disse o escritor Amós Oz, na noite desta quarta (9), diante do público que lotou os 1.010 lugares do teatro do Sesc Pinheiros, em São Paulo.

No Brasil para participar da celebração de 25 anos da editora Companhia das Letras, Oz, mais importante escritor israelense da atualidade, falou com um toque de humor da fundação de seu país, ocorrida em 1948.

“Israel nasceu de um sonho, e tudo que nasce de um sonho está destinado a ser uma decepção. A única maneira de manter um sonho intacto é nunca vivê-lo”, disse.

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