As vidas e os tempos de Martha Washington e Frank Miller no século 21


É difícil entender onde foi que Frank Miller virou a esquina e começou a descer a ladeira. Na década de 80 foi um dos responsáveis por virar de cabeça para baixo a história dos quadrinhos e provou que essa indústria de massa não precisava ser idiotizante e que, mesmo utilizando elementos e personagens superheróis norteamericanos, era possivel trazer inteligência, vitalidade, sangue vivo, renovação. Revitalizou e, na prática recriou um personagem secundário e o alçou à primeira linha, com roteiros exatos e instigantes com o Demolidor (um dos meus personagens preferidos de todos os tempos), criou a bela e impiedosa assassina grega Elektra e escreveu uma das mais belas histórias que conheço, ‘A Queda de Murdock’. Em 1986 lançou o definitivo e retumbante ‘Cavaleiro das Trevas’, redefinindo daí para frente tudo e qualquer coisa que fosse relacionado ao universo dos superheróis, influenciando não só o mundo dos quadrinhos mas todas as artes integradas, em principal o cinema, que desembocaria atualmente nessa atual nova levada à sério (muito à sério) (mas não vou discutir aqui o impacto e os resultados dessas adaptações).

(Do outro lado do oceano, na Inglaterra, outro mestre, o mago Alan Moore também desferia chutes nos bagos, com o ‘Marvelman’, com o ‘Monstro do Pântano’, ‘V de Vingança’, e a melhor história em quadrinhos de toda a história, ‘Watchmen’, publicada exatamente na mesma época de ‘Cavaleiro das Trevas’).

Aos poucos, Miller foi perdendo o fôlego. ‘Hard Boiled’ é genial, ‘Sin City’ (apesar da premissa sensacional) é extremamente irregular, ‘300’ é ruim e chato. Embora nada pudesse prever o lixo inominável que foi a continuação de ‘Cavaleiros das Trevas’, projeto que recusou durante mais de vinte anos, apesar da pressão da editora, e que acabou fazendo (a pressão ou o dinheiro oferecido devem ter sido demais…). Do ‘Cavaleiro das Trevas 2’ nada mais falo além de Lixo, Lixo, lixo nos desenhos, na história, nas idéias. Um trabalho vergonhoso e indigno para quem já tinha feito tanto. (e sua carreira conseguiu piorar ainda mais, de modo inacreditável, quando resolveu realizar o filme do ‘Spirit’! Como é possível que um quadrinista, alguém que sabe tão bem o que significa escrever um trabalho memorável, tome um personagem tão fundamental e tão completo e rico e jogue na sarjeta tão estupidamente?).

No começo da década de 90, Miller saiu das grandes editoras, deu um tempo com superheróis e se dedicou a projetos mais pessoais e densos. Sem dúvida, sua fama e preeminência (e, com certeza, uma boa situação financeira) lhe permitia realizar outros experimentos. Daqui surgiram ‘Hard Boiled’ e a série Martha Washington (e, mais tarde, ‘Sin City’, claro). Miller estava no auge, estava animado, e isso se reflete na sua escrita. Interessado mais em escrever do que desenhar aqui, ele fez parceria com  Geof Darrow, para ‘Boiled’, e com Dave Gibbons (o consagrado desenhista e co-criador de ‘Watchmen’) para ‘GIVE ME LIBERTY’, a primeira minissérie da saga de Martha Washington.

‘Give me liberty’ é ambientada em um futuro próximo e mostra um mundo dominado pelas grandes corporações e um Estados Unidos controlado por um presidente popular e proto-fascista que conseguiu manipular as instituições e reformular a Constituição, o que lhe permitiu reeleições sem limite, e desembocar em um Estado totalitário. Os grandes bolsões de miséria aumentam a instabilidade política e provocam manifestações que são violentamente reprimidas. Martha Washington (que, não por acaso, é o mesmo nome da esposa de George Washington, o primeiro presidente norte-americano) nasce e cresce em um mesmo e único bairro fechado e inacessível, na verdade um dos enormes guetos destinados à população negra do país.

Testemunha do brutal assassinato de um professor liberal, Martha é recolhida e passa alguns anos em um instituto para doentes mentais, do qual finalmente consegue fugir para se alistar na PAX, forças militares internacionais cuja principal missão é defender a Amazônia dos interesses capitalistas não-norte-americanos. Encarando o exército unicamente como uma forma de sobrevivência e de salário, além de um modo de colocar um pouco de equilíbrio e disciplina no caos de sua vida, ela no entanto começa a perceber as entranhas da corrupção e da violência em que se movimenta. Até o momento da ruptura e, aí sim, da verdadeira liberdade.

Frank Miller estava empolgado, entusiasmado mesmo. Sua cabeça fervia de idéias, montava dezenas de histórias, misturava-as, empolgava-se, deixava-se levar pela animação. ‘Give me Liberty’ mostra a formação de Martha, a criação de sua consciência, seu fortalecimento, e sua afirmação como pessoa independente e digna. O enredo se levantava, corria, mudava, de forma meio atabalhoada, exagerada até, o que era um tanto contrabalanceado pela arte clean, séria e sisuda (até um tanto careta) de Gibbons.

Ao furacão narrativo faltou um pouco de equilíbrio artístico, o que faz com que o resultado final da série não constitua uma das obras-primas de Frank Miller, mas empolga e emociona. Martha Washington é um personagem sólido e magistralmente construído e um dos pontos altos de toda a carreira do quadrinista. Mesmo quando a história se enreda em uns exagerados labirintos fantásticos, sua persona, suas reações e seu crescimento são coerentes e coesos. Além do fato de ser uma grande personagem feminina negra com papel principal (posto do qual não me recordo de outros exemplos; pelo menos, não com essa importância).

E assim continua, com as demais séries e edições especiais (as quais, a maioria não foi publicada no Brasil) até a morte de Martha Washington, com 100 anos de idade.

Se comecei acima com tom amargo, lembrando das merdas que Miller tem feito ultimamente, é com entusiasmo agora que quero me referir ao ponto principal, que é afinal o verdadeiro motivo de ter escrito esse texto: ‘The Life and Times of Martha Washington in the Twenty-First Century‘, a publicação integral das histórias em um único volume pela editora Dark Horse. Edição soberba, de luxo, com capa dura, embutida em estojo, com 600 páginas, todas as séries incluídas, do nascimento à morte de Martha, com depoimentos de Miller e Gibbons e páginas com a arte conceitual, que nos permite ‘ver’ a criação de Martha. Opa, o que posso dizer? Eu quero, oras. Pode ser a edição menos suntuosa, sem capa dura.

Aliás, quando esse box foi lançado esteve custando $99,95 pela Amazon. Logo após o preço despencou (também, com esse preço, as vendas devem ter sido mínimas…). Atualmente, o preço ainda está salgado, mas bem abaixo da época do lançamento. Opa, então quero dois. Um para ler, mexer, manusear (quem sabe, até emprestar para amigos especiais). O outro para permanecer guardado, lacrado, mantido como um tesouro, como verdadeiramente é. Um testemunho de que Frank Miller sabia, realmente, de verdade, fazer quadrinhos.

 

* texto revisto e atualizado, publicado originalmente e resgatado do meu extinto site anterior

 

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