Wallander

Nunca pude entender direito como os livros policiais do sueco Henning Mankell podem fazer tanto sucesso.

E olha que fazem. Traduzido em várias línguas, também publicado aqui no Brasil, onde me parece que provoca sensação igual.

Decepção pessoal inesperada, pois há alguns detalhes que me chamam atenção, favoravelmente.

Gosto, por exemplo, do fato de seus livros serem baseados na Suécia; é sempre muito interessante observarmos lados e ângulos inesperados em países que, em geral, somos acostumados a considerar muito distantes de nossa realidade e que posam como uma espécie de refúgio capitalista quase paradisíaco. O romance policial é pródigo em nos proporcionar autores que revelam uma face mais dura, mais chocante, desses recantos. Lembro de uma Marselha descrita por Jean-Claude Izzo que, tudo bem, já se apresentava como uma cidade violenta e tempestuosa, mas cujo autor conseguia descer ainda mais em suas entranhas. Outro autor clássico é Jan Willem Vand De Wetering e seus livros mostravam uma Holanda bem inusitada (uma pena, suas obras há muito estão esgotadas no Brasil e não parece haver interesse algum em retomá-las, uma injustiça).

A questão aqui não é exatamente mostrar lances geniais de originalidade. Se isso já é uma impossibilidade humana em qualquer arte, no romance policial é ainda mais. Os policiais transitam e lidam com os clichês, utilizam-nos. O que vale, no mais de tudo, é a forma como eles são tratados, montados, escritos, apresentados. Nos dois exemplos citados acima, o que conta é a forma seca e ao mesmo tempo um tanto poética como Izzo escreve, em um contraponto bem curioso com a facilidade e uma certa ‘doçura’, raiando a ingenuidade mas com narrativa primorosa de De Wetering.

Henning Mankell não apresenta nada disso. Se os clichês são aceitáveis e inevitáveis, ele no entanto os usa e abusa, sem render mais nada. Sua escrita é fraca, os personagens rasos e caricatos, os argumentos partem de um terra-chão do dia-a-dia de uma realidade sueca, e rápido perdem o desejo de simplicidade fazendo com que as histórias sejam uma colcha de retalhos entre o registro policial, espionagem internacional, beirando a fantasia e a chacota. Li dois livros de Mankell, tentei um terceiro, desisti e deixei de lado.

Quando soube que tinham criado uma série televisiva baseada nos romances de Mankell, minha primeira reação foi de ceticismo e desconfiança. Meu preconceito contra o autor já estava arraigado e não me preocupei em alivia-lo. Aos poucos, fui conhecendo detalhes que conseguiram atiçar minha curiosidade. Quem protagoniza o detetive principal é Kenneth Branagah, um ator que respeito tremendamente (isto é, ele é capaz de interpretações fantásticas e outras ridículas e canastronas; depende do seu estado de espírito na época que estiver filmando, imagino). As histórias respeitavam as locações originais, proporcionado pela co-produção inglesa e sueca, fazendo com que os episódios fossem filmados realmente na Suécia. Portanto, boa produção, bom ator, as críticas foram muito favoráveis, Kenneth Branagh chegou a ser indicado para vários prêmios, ok, a coisa até parecia bem encaminhada. Resolvi dar uma chance.

‘Wallander’ foi concebido para ser uma mini-série fechada, com três episódios independentes (baseados em três obras diferentes) e únicos. A ótima repercussão dos episódios fez com que se assumissem como série com continuidade, e realizaram uma segunda temporada, com mais três episódios. Branagah deu um tempo para se dedicar a outros projetos (o principal, a direção do filme do ‘Thor’, que pode não ter sido um fracasso, mas ficou bem longe das expectativas dos produtores e do público) e uma terceira temporada para 2012 garantida.

Uma grande vantagem de não ter lido os livros é o alívio de poder assistir os episódios sem a necessidade (compulsão) de ficar comparando o tempo todo com a obra original. Tem-se assim a ambientação, reconhece-se os personagens, com liberdade e sem (muitos) pré-julgamentos. A primeira impressão do primeiro episódio, ‘Sidetrack’, é o impacto da música solene, séria, tensa, que já predispõe para o clima de suspense e agitação que virá (de um modo como Mankell gostaria, ou pensa que faz, em seus livros). A segunda impressão é a perfeita caracterização de Kenneth Branagh como o detetive Kurt Wallander: barba mal-feita, movimentos desleixados e desanimados, visão cínica da vida, e um sotaque carregadíssimo (com um inglês ‘suecado’ digamos assim) que funciona muito bem.

A premissa da história é boa: uma jovem se mata tacando fogo em si mesma enquanto uma série de assassinatos estranhos vitima personalidades importantes da cidade; um e outro fato estão interligados, o que levará à descoberta de uma rede de pedofilia e abuso infantil. O desenvolvimento dessa história, no entanto, já é outra coisa. Tenho a impressão de que devem ter seguido fielmente o livro em que foi baseado, pois os pontos ridículos da trama (o assassino arranca escalpo das vítimas, um estilo nativo-indígena-norte-americano, sem propósito ou explicação convincente) e, principalmente, o final péssimo, tudo lembra muito o estilo dos livros que li.

O que mais me incomodou, no entanto, foi a própria caracterização de Branagh. O problema é que ele não consegue manter o mesmo ritmo e a mesma figura no filme inteiro. Aliás, falando em clichês, o detetive Kurt Wallander é recheado. Policial de meia-idade, obsessivo com a profissão, desiludido com a vida, problemas com o pai distante e adoentado, em vias de separação da mulher, com relacionamento conflituoso com a filha única (que tentara suicídio aos quinze anos), a minha única surpresa foi ele não ser alcóolatra, para completar o personagem arquetípico.

Em alguns momentos de alívio na trama, quando cabe um sorriso ou até mesmo uma risada dos personagens, Wallander acaba sorrindo. Até aí, no problem. Até os durões riem. Até Clint Eastwood ri. (Tenho certeza que já vi até mesmo Chuck Norris rir!) A questão é que o que aparece é o sorriso de Branagh. Isto é, franco, caloroso, simpático. Não é o sorriso de um policial fodido e ferrado que ri a contragosto, sem vontade. Nestes segundos, a persona de Wallander é abandonada e tudo o mais fica falso.

Com tudo isso, a minha vontade de assistir os outros dois episódios da primeira temporada era quase nula. Mas havia pontos positivos no primeiro. Arrisquei ver pelo menos mais um. A insistência valeu a pena. Há uma melhora progressiva e muito maior segurança em toda a produção, inclusive nos roteiros e até os atores. Eu não sei se foram filmados na mesma ordem de sua exibição, a impressão é essa.

‘Firewall’, começa com uma adolescente que confessa e assume o assassinato de um motorista de táxi para roubar uns trocados. A investigação, porém faz crer que suas motivações são bem mais profundas (mais até do que o fato de ter sido estuprada por este homem, anos antes!). Branagah, agora sim, mantém Wallander o tempo todo, o enredo no geral é muito melhor, os personagens não estão caricatos. Uma pena (uma grande pena!) que a finalização seja péssima, a solução da história ridícula e ainda por cima mal realizada. Ponto feio para um episódio que vinha tão bem.

Em ‘One Step Behind’, uma turma de adolescentes é assassinada quando realizam um piquenique. E um colega policial de Wallander parece estar muito mais envolvido do que aparenta à primeira vista.A partir daí, a investigação segue duas trilhas paralelas, por um lado os assassinatos; por outro, a descoberta de que aquele policial tinha uma vida completamente insuspeitada para aqueles que pensavam que o conheciam intimamente. De novo, fico pensando se as exibições seguiram a ordem de quando foram filmados. Pois aqui, está tudo tão bem equilibrado, os maneirismos estão contidos, os atores parecem estar muito mais à vontade consigo mesmos e com os demais, a história tá bem contada. Até mesmo o final ruim e previsível (ao que se indica, isso deve ser uma característica fixa do Mankell…) não compromete o resultado final, que é mais do que digno.

O amadurecimento dos personagens e da produção em geral e o aprofundamento das boas atuações aumentam na segunda temporada. O estilo do enredos, inclusive com seus péssimos finais, continuam. Não vou comentar os outros três episódios um por um, como fiz acima.  Basta dizer que, no cômputo geral, ‘Wallander’ é agradável, dá para assistir numa boa, o saldo é muito positivo. Não me fez querer ler os livros de Mankell (na verdade, só reforçou a impressão negativa que tenho dele como escritor), mas vou aguardar os próximos episódios, se não com extrema ansiedade, pelo menos com bastante curiosidade.

 

– obs1 – texto corrigido e atualizado, publicado no meu site anterior; como o dito site anterior não existe mais, de vez em quando vou fazer como fiz agora e realizar alguns resgates de textos que, na minha humilde opinião, ainda possam causar interesse em pessoas que ainda não os tenham lido;

 

– obs2 – por outro lado, há uma outra razão para que seja esse texto em particular, pois fiquei devendo uma resposta a um comentário naquele site; o comentarista havia me criticado e, sendo fã dos livros do Mankell, havia discordado das minhas opiniões sobre o autor; não lembro agora se ele citou o seriado, mas em relação às obras escritas, foi bem enfático, pondo em questão meu suposto conhecimento de romances policiais e duvidando inclusive que eu tivesse realmente lido os livros do inspetor Wallander;

– quis escrever uma resposta arrasadora na época, não pelas suas opiniões contrárias (pensamentos discordantes são ótimos para atiçar a discussão) nem mesmo por me chamar de ‘ignorante’ (não usou essa palavra, mas o sentido foi esse), ele tinha todo o direito de duvidar das minhas ‘credenciais’, digamos assim; o que me aborreceu foi o tom e as palavras utilizadas, de uma agressividade desnecessária; e contrapoducente, já que fiquei sem vontade de entrar em uma discussão estéril, ainda mais desanimador por ser com uma pessoa que compartilhava de gostos literários comigo, uma pena.

vejo hoje que foi bom não respondido na lata, pois não sei se eu teria sido bem educado.

Pois bem, posso ser educado hoje e responder algumas coisas: em primeiro lugar, meu caro comentarista, eu já li livros policiais (romances, contos, ensaios, livros teóricos) pra caralho! É o meu gênero literário preferido (junto com ficção científica) e não posso passar muito tempo enfiado com os meus outros interesses (literatura clássica, histórica, literatura latino-americana, russa, francesa e um tanto da brasileira, atuais, contemporâneos ou antigos) sem que precise dar um tempo nestes e ler algum bom policial que, como toda boa literatura, de qualquer gênero, sempre ultrapassa os limites desse mesmo gênero. Parafraseando desavergonhadamente Oscar Wilde, não existem bons ou maus livros policiais, o que existe são livros bem ou mal escritos. Para mim (sempre na minha humildíssima opinião) Henning Mankell é um péssimo escritor policial (e longe de ser literatura ‘bem escrita’) que calhou de servir de base para um bom seriado de televisão.

Quanto às obras do Mankell, fui conferir nos meus arquivos quantos foram de verdade, para não falar besteira, encontrei a resenha do primeiro livro dele que eu li, ‘Os cães de Riga’ (que fiz questão de re-publicar no post anterior); além deste, também li ‘O homem que sorria’ e ‘A leoa branca’ (‘os cães de riga’ segue sendo o pior de todos, o que não ajuda em nada na qualidade dos outros). Realmente, são fracos demais. MESMO ASSIM, ainda tentei ler ‘Assassinos sem rosto’  e, mais recentemente, ‘O guerreiro solitário’, este com uma expectativa em especial, já que foi a base para um dos episódios que mais gostei no seriado. E não consegui.

Creio que isso dá uma boa base para definir minha opinião (e o meu desgosto) por Mankell. Ainda não consigo entender sua popularidade, mas cada um é cada um. E ficarei por aqui, porque não lerei outros livros desse autor.

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One Comment em “Wallander”


  1. Caro
    Instigante. gostei das análises…

    Parabéns e muito obrigado!!!

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