Os Cães de Riga

Um bote é encontrado vagando pelo mar, nas costas de uma pequena cidade da Suécia, com uma carga macabra: dois homens mortos. A primeira constatação é de que não são náufragos de algum acidente marítimo: estão bem vestidos, com ternos caros, tiveram portanto uma boa vida. Foram baleados, assassinados, jogados no bote e abandonados. A segunda constatação: antes de morrerem, também foram barbaramente torturados. A terceira e não menos surpreendente constatação: são russos ou pelo menos de algum país da extinta cortina de ferro. Difícil calcular de onde vieram, pois os descobridores dos corpos não quiseram se identificar; afinal, eram contrabandistas e sua relação com a lei era um tanto ou quanto ‘delicada’. O crime agita a vida da cidade, faz a sensação do noticiário, mobiliza a Divisão de Crimes Violentos, a de Entorpecentes e o próprio Ministério do Interior, além de complicar a rotina do inspetor Kurt Wallander.

A princípio, tudo pareceu estar se encaminhando para uma solução rápida quando a identidade dos mortos é feita: eram bandidos, membros da máfia russa que agia na Letônia. Nada mais fácil, então: um policial letão vem, ajuda um certo tempo na investigação e leva os cadáveres. E tudo terminaria aqui para os suecos se esse mesmo policial, logo ao chegar em sua terra natal não tivesse sido assassinado. Assim, o inspetor Wallander é convocado para cooperar Em Riga, na própria Letônia!

Política, intriga internacional, espionagem, lugares ‘exóticos’ e enredo de romance policial são elementos para bons livros, sendo que um de seus mestres foi Eric Ambler. Países estrangeiros dos quais pouco conhecemos e cuja realidade pode ser entrevista através deste gênero estão cada dia mais populares e constantes, perfeitamente ‘globalizados’, mas já tínhamos há algum tempo atrás um Jan Willem Van de Wetering cujas aventuras se passavam em uma incomum e desconhecida Holanda. Aliás, são dois autores há muito fora de catálogo e bem que poderiam ser lembrados e reeditados.

Ambler e Van de Wetering são referências e lembranças obrigatórias ao se ler este livro de Henning Mankell. E a comparação não é nada favorável para Mankell. Apesar de mexer com tantos elementos estimulantes e instigantes, o resultado é quase nulo. O que poderia ser uma ótima oportunidade para se aproveitar de uma complexa situação política, rica em eventos e desdobramentos e virtualmente desconhecida para os estrangeiros, como o caso da Letônia, vira um pastiche insosso e inverossímil, recheada de clichês e lugares-comuns, quase infantis mesmo. A impressão é que Mankell deve ter feito pesquisas históricas em reportagens da CNN. O que não teria feito Eric Ambler com tal material!

No entanto, independente de qualquer comparação ou generalização, é a própria escrita de Mankell o que mais compromete. A narrativa frouxa, sem vigor, impossibilita que criemos uma verdadeira empatia com o personagem ou que nos emocionemos com suas peripécias, pecado mortal para uma obra que depende justamente das diversas reviravoltas da trama.

Considerando-se somente este “Os Cães de Riga”, fica difícil entender como Mankell faz tanto sucesso em vários países. Talvez só a globalização explique.

 

texto originalmente publicado pelo iG

 

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