‘Ser ou não ser’ , no Cinema, nunca fez o menor sentido


A primeira vez que li Shakespeare foi em uma belíssima edição de suas obras completas em um único volume, de capa cartonada e papel bíblia, com fartas notas de rodapé, com muitas explicações pertinentes. Em espanhol. E eu não sabia espanhol. E também não tinha dicionário. Dessa forma, foi simples saber por exemplo que Ofélia, a namorada de Hamlet, tinha se matado, mas por um bom tempo eu fiquei em dúvida se ela tinha se afogado ou se enforcado. O que, convenhamos, é uma diferença considerável. Mais tarde, com uma gramática básica do lado (e um dicionário escolar) a coisa ficou um tanto mais fácil.

Hoje em dia, eu consigo avaliar a excelência daquela tradução, toda em prosa, que conseguiu passar toda a força do texto de Shakespeare sem perder em nada sua beleza poética, o que nunca mais encontrei em nenhuma outra tradução em português (em espanhol, não tentei mais). Assim, consegui me divertir horrores com ‘A Megera Domada’ (e sua fervorosa defesa do casamento e submissão da mulher, meu machismo juvenil plenamente satisfeito), babar com o lindo e açucarado romantismo de ‘Romeu e Julieta’ (e entender como ele fazia tanto sucesso), penetrar nas ambiguidades morais e intelectuais de Iago em ‘Otelo’, me impressionar com a loucura do ‘Rei Lear’, minha peça preferida de todas (a cena da morte de sua filha mais jovem ainda me emociona quando releio). Foi igualmente nesta leitura que senti o choque de entender, pela primeira vez, do que se tratava o monólogo ‘Ser ou não ser’, de Hamlet.

Não pretendo generalizar demais e impor uma condição a partir de uma experiência eminentemente pessoal e particular, mas a impressão que tenho é de que as pessoas não têm noção do que o monólogo trata. O título deste meu texto faz o gancho para como o cinema tratou ‘Hamlet’ e este monólogo em específico, e vou tratar disso mais para frente. Antes é preciso que se diga que o sentido foi perdido há muito tempo, até mesmo em sua manifestação cênica, não só no cinema como em qualquer mídia ou apresentação. O que acontece é que a frase ‘Ser ou não ser, eis a questão’ está tão entranhada em nossa cultura ocidental, se tornou um clichê tão absoluto, e possibilita tamanhas interpretações variadas as mais possíveis (todas válidas, a frase permite isso) que o resto do texto fica meio que ‘sobrando’. Foi um choque para mim descobrir que se tratava de suicídio e do medo do pós-morte.

Ser ou não ser – eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias –
E combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem agüentaria os fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão, porque o terror de alguma coisa após a morte –
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos? …

Independente de qualquer explicação ou interpretação que se possa dar (filosófica, existencial, psicológica, política, religiosa, etc e etc), o texto em si parte da constatação de que matar-se não garante tranquilidade nem soluções. Existir ou não existir, lutar ou desistir, viver ou morrer. Se morrermos, acabamos com todos os problemas que temos em vida, não precisamos mais aturar as sacanagens, penar sofrimentos, chorar as injustiças, fica tudo tranquilo. Mas quem garante que, depois de morrermos, não aguentaremos outros tantos problemas? Para Hamlet, é isso que nos segura, essa incerteza absoluta do que poderá vir, pois ninguém que já morreu voltou para nos contar. Para o jovem dinamarquês, isso era fruto de sua intensa relutância em consumar o designio imposto pelo fantasma de seu pai, o de matar a sangue frio o tio. Para um jovem paulistano, ainda em formação intelectual e com um ateísmo incipiente (ainda não consciente) esse discurso resultou um tanto brochante e Hamlet uma figura meio patética…

De qualquer modo, o que notei em mim e ainda percebo nas pessoas em geral é que a expectativa de assistir ‘Hamlet’ alcança seu êxtase ao se ouvir a célebre frase, nublando-se o restante do pensamento. Simplesmente, não se ouve mais. Ficamos tão satisfeitos com sua simples enunciação que é como se tivéssemos dentro de nossa mente toda sua significação (é muito forte essa sensação, acompanhada pela imagem interna de que a pose de Hamlet nesse momento é falando com a caveira, uma cena completamente diferente, erro muito mais comum do que se pensa). Somente depois disso, a partir daí realmente começa-se a prestar atenção e reconhecer que há toda uma peça (com bastante história e muitas mortes) ainda a se desenrolar. E ainda bem que o monólogo acontece no primeiro ato, caso contrário a expectativa atrapalharia sobremaneira a fruição do enredo. Mais ou menos, como acontecia com Hitchcock e suas fortuitas aparições em seus filmes: o que tinha começado como uma simples brincadeira e uma forma de fazer volume e aumentar a quantidade de figurantes, tinha se tornado um tal ritual e fomentava uma expectativa tão grande, que o diretor fazia questão de se mostrar imediatamente nos minutos iniciais. Pois assim o público logo o reconhecia, relaxava e podia realmente curtir o filme. ‘Ser ou não ser’ é o equivalente shakespeareniano de Alfred Hitchcock.

Em todas as apresentações que já assisti (posso dizer que foram muitas) existe essa percepção por parte de quem as realiza. O modo como se relacionam com o monólogo é um capítulo completamente à parte. Em uma ocasião no ginásio, numa representação escolar (e, portanto, bastante resumida, com pouco menos de uma hora de duração), o ‘Ser ou não ser’ tomou quase toda a atenção, e correu-se com o restante da história. Na versão ‘extendida’ realizada pelo Teatro Oficina (com seis horas de duração), o monólogo foi dito logo após um intervalo. O ator disse as primeiras frases, fez uma pausa, se aproximou da platéia, catou pipoca do saquinho de uma garota sentada na primeira fileira, riu com a brincadeirinha, fez um suspensezinho, acabou de engolir as pipocas, voltou-se de repente, jorrou as últimas frases em um só fôlego, e a peça prosseguiu. Foi durante essa apresentação que cristalizei os pensamentos que expus nos parágrafos anteriores.

Pensar em como o monólogo foi retratado no cinema produz uns resultados muito interessantes. Ou ainda mais indagações variadas. Não só pela árdua transcrição de um texto dramatúrgico criado para ser encenado ao vivo, ou lido, para um meio onde o visual é o primordial. Observar os malabarismos técnico-filosóficos para concretizar essa façanha já é por si bastante gratificante. Mas não é essa a questão que me pega. O que me interessa é saber qual foi a mensagem passada. Qual ‘ser ou não ser’ é transmitido, qual é absorvido pelo público, qual foi a pretensão do cineasta e o quanto foi realizado? Em suma: em qual deles (se é que houve) foi explicitada a questão do suicídio?

Não farei uma relação extensiva de todas as versões cinematográficas; o maior site de informações sobre cinema, o Internet Movie DataBase IMDB, cita mais de setenta filmes, isso considerando-se somente os que possuêm o nome ‘Hamlet’ direto no título. Eu só não posso deixar de citar o que considero a mais bonita apresentação do ‘Ser ou não ser’ aconteceu em um western!

‘Paixão de Fortes’ (My Darling Clementine), de 1946, dirigido por John Ford, com Henry Fonda, Linda Darnell e Victor Mature. Enquanto a tensão cresce na pequena cidade de OK Corral (e que vai desembocar em um famoso tiroteiro, retratado tantas outras vezes), uma trupe teatral faz uma turne pelo faroeste, levando um pouco de cultura para aquelas paragens selvagens. Entre vaias e zoeiras, os vaqueiros e os pistoleiros assistem espantados às apresentações e no meio de uma discussão no bar fazem com que o veterano da turma improvise um monólogo. Devo dizer que esse é um momento muito especial: o ator está espetacular, a direção é sensível, a câmera se aproxima, o silêncio desce no saloon e as improváveis e distantes palavras do príncipe dinamarquês ecoam naquelas paredes e no espírito daqueles brutos. O inusitado cenário envolve e reforça a fragilidade daquele velho senhor, com sua voz quebradiça e decadente, que ainda transmite beleza e sonoridade. Somente um mestre como John Ford para fazer com que esta cena não soe ridícula ou forçada ou deslocada.

Vou destacar três filmes – ícones modernos pop e de grande impacto; é possível que sejam os mais importantes; com certeza, são muito conhecidos.

A interpretação que Laurence Olivier fez de Hamlet em 1948 (onde atuou e dirigiu) é a mais sombria, angustiada, fechada, psicologicamente atormentada, que conheço. Olivier investe na visão psicológica, freudiana até (com referências a complexo de Édipo, inclusive).

Os caminhos são estreitos, claustrofóbicos, não há espaço para humor ou considerações políticas, as cores são pesadas, fúnebres, reforçadas pelo  fotografia em preto-e-branco (opção e exigência do diretor), os corredores lembram labirintos, metáforas nada sutis da mente atormentada do personagem. O momento do monólogo as luzes se fecham ainda mais, o cenário (que já era mínimo) simplesmente desaparece, é o aprofundamento absoluto na psique. Não há ‘realidades’ concretas. O abstrato domina, Hamlet é envolto por nuvens escuras, simbolizando sua separação e alienação do mundo que o rodeia. A recitação é lenta, imponente; não fosse Laurence um ator fenomenal, a cena seria formal demais, insuportável.

As palavras aqui, como se pode inferir, realmente não têm importância. Somos cercados pela atmosfera pesada e solene, dirigida pela mão pesada e magistral de Olivier, de tal modo que por fim, também nos sentimos desgarrados e afastados do monólogo. Não há ponto de encontro ou reconhecimento entre o público e este ‘ser ou não ser’. Nenhuma ligação.

Magnificamente filmado e dirigido, roteiro preciso e muito inteligente, e bela fotografia, ‘Hamlet’ de Olivier foi um absurdo sucesso de crítica, venceu todos os festivais que participou, ganhou toneladas de prêmios, sedimentou a já arraigada crença de que Laurence Olivier era o melhor ator de todos os tempos. Para mim, é um filme bonito, que exige uma certa dose de boa vontade para ser assistido. Em outras palavras, vale a pena a experiência, mas é de uma chatice dolorida. E seu ‘ser ou não ser’ não me disse nada.

Em 1990, Franco Zefirelli veio com uma proposta inusitada e muito bem realizada: Mel Gibson como Hamlet! era uma idéia sensacional. Zefirelli já havia realizado anos antes versões definitivas para duas peças de Shakespeare: ‘A Megera Domada’, de 1968, (com Richard Burton e Elizabeth Taylor, simplesmente perfeitos) e ‘Romeu e Julieta’, de 1969, com atores estreantes adolescentes no papel dos personagens principais adolescentes, uma sacada genial.

O grande mérito de Zefirelli foi não forçar Mel Gibson a ser o que ele não era: um ator shakespeareniano. Para isso, o diretor aliviou a densidade filosófica da peça, retornou os momentos de sátira e humor e a questão política (que se transformou em um viés criminal; Hamlet era agora um jovem em busca de vingança contra a morte do pai) e deixou Gibson à vontade para um príncipe em conflito com sua natural tendência violenta e de busca por soluções rápidas, sem saber qual o melhor meio de alcançar sua vingança. O resultado geral ficou muito agradável, na minha opinião. Zefirelli não descaracterizou o personagem nem a peça e conseguiu formatá-lo para um público jovem, consumidor de blockbusters. Pode-se estranhar Gibson no papel no início, mas seu carisma é arrebatador (e na prática quem vemos ali é o próprio Martin Riggs!, de ‘A Máquina Mortífera’, o que ficou coerente com a proposta geral. Se, de repente, víssemos o Danny Glover como um soldado, olhasse para os cadáveres e exclamasse ‘Tou muito velho pra isso’, duvido que estranharíamos…).

Claro que o momento esperado era o de sabermos como Mel Gibson se sairia no monólogo. Zefirelli foi cuidadoso: diminuiu o ritmo da ação, deslocou o personagem para um aposento isolado, abaixou as luzes, abstraiu as paredes, e deixou que Gibson não dramatizasse demais as falas. Em muitos sentidos, o diretor repetiu o que Olivier havia feito para essa cena: alienou o personagem do restante do universo, só não permitiu que o monólogo voasse para abstração total: ao final, não são as nuvens ou a escuridão que cobrem Hamlet, é simplesmente ele saindo da sala, deixando o aposento vazio. Vazia também foi a interpretação, mas até aí que se importa? Era Mel Gibson recitando ‘Ser ou não ser, eis a questão’ e não fazendo feio. Não é necessário nem ouvir o resto do monólogo, não é mesmo?


 Em 1996, Kenneth Branagh radicaliza total. Não mais escuridão, nem recantos sombrios: seu ‘Hamlet’ explode de luzes, cores e vivacidade. Mesmo quando encontra o fantasma de seu pai, à meia-noite, é a brancura do fantasma e a intensa luminosidade da lua cheia que predominam. O objetivo mais imediato e óbvio dessa opção é destacar o contraste berrante entre a iluminação geral e a figura solene toda de preto de Hamlet que se recusa a tirar as roupas de luto em homenagem ao seu pai, mesmo no auge da festa do novo casamento da mãe.

Em tudo, Branagh faz questão de se opor ao filme de Olivier. Não mais a visão, nem mesmo referências, psicanalíticas (o que acontecia até mesmo no filme do Zefirelli), de volta todo o teor político e a discussão moral originais, a sátira e o escárnio e a inteligência do príncipe. Sua pretensão foi filmar o texto integral da peça e o conseguiu, as custas de impor um ritmo acelerado na trama, o que incomoda um pouco em várias cenas (e mesmo assim a duração total é de quatro horas).

O monólogo acontece em um imenso salão espelhado. As dezenas de espelhos são portas disfarçadas para armários ou outras saídas que juntas com a parede branca realizam aqui o isolamento do príncipe para seu principal autoquestionamento. É preciso lembrar que, neste momento, estão escondidos por trás de alguns desses espelhos, o novo rei e o pai de Ofélia, de tocaia à espera de que a garota apareça e comece a pressionar Hamlet para descobrirem afinal porque o príncipe está agindo tão estranhamente nos últimos tempos. Existe uma discussão centenária (literalmente) em relação a essa cena sobre se o príncipe percebe ou não que está sendo observado pelo rei e o assecla (o que influiria de forma decisiva no modo como se expressa e se comporta na conversa seguinte com a própria e coitada Ofélia.

Branagh é de opinião que Hamlet percebeu sim a presença fortuita. Portanto, o que acontece? Ele começa a ruminação ‘Ser ou não ser, eis a questão’, no meio dos pensamentos desconfia que há pessoas por trás dos espelhos, desconfia quem seja, e inicia-se um jogo de imagens e de intenções ocultas, mesclando-se os rostos do príncipe e do rei, que sente-se ameaçado (o punhal esticado não deixa muitas dúvidas sobre isso), Hamlet começa a abrir as portas freneticamente na tentativa de pegá-los em flagrante (e, quem sabe, até matá-los) obrigando-os a trocar de nichos e fugir. A cena é muito bonita e visualmente deslumbrante, proporcionando uma interpretação diferenciada e bem pessoal para um momento tão batido (o filme todo é sensacional). Em relação ao texto em si, esqueça-se.

Sério, esqueça-se. Não há correlação no sentido original do monólogo com a interpretação cinematográfica de Branagh. Na prática, poderia ser trocado por qualquer outro texto de qualquer autoria (depois da primeira frase, claro) e o resultado seria o mesmo. Porque não prestamos atenção ao que está sendo dito, estamos preocupados em saber se Hamlet vai emboscar e apunhalar o rei ali mesmo. Se ele estivesse recitando o pau-no-gato-da-dona-Chica com a devida impostação de voz, o resultado continuaria exatamente o mesmo.

– Não chega a ser impressionante que o monólogo mais famoso da dramaturgia mundial de todos os tempos nunca tenha sido devidamente apreciado?

 

 

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