Uma questão de idade?

1) “Você não trouxe a chave de casa! procurei por toda a parte e não achei!” O Velhinho, o marido, discordou mansamente. “Trouxe, sim, que dúvida, como não traria?, olha direito na bolsa”. E eu, impaciente, observador involuntário de uma briga doméstica, esperando o meu cachorro-quente já pronto nas mãos dele.

Percebi que aquela rápida parada para um lanchinho habitual de todas as manhãs antes de entrar em serviço me custaria um atraso. Ele finalmente me entregou o dog, paguei e consegui chegar em tempo mas prometi que isso não se repetiria pois não comeria de novo lá. Tudo bem, era um casal simpático, idoso, ele deveria ter uns 60 anos, ela um pouco menos, aposentados certamente, ganhando uns trocados com aquele carrinho. Haviam chegado certo dia de manhã, devagarinho, assim como quem não quer nada e logo foram conquistando uma freguesia: o dog era razoável, a conversa era agradável, e o atendimento simpático (quando não estavam brigando entre si).

Outro dia, porém, quebrei a promessa e voltei lá. Cumprimentaram-me como se fôssemos velhos amigos de longa data e disseram ter sentido saudades minhas. Era mentira: diziam isso olhando um para o outro com tal enlevo e felicidade que pareciam estar nas nuvens, o serviço saia como por mágica, os olhares eram tão doces e ternos que receei do meu dog sair com gosto de mel. O sanduíche, no entanto, não saia das mãos dele e, se eu não insistisse, nem perceberiam que eu queria pagar.

Neste dia, sim, perdi a hora e cheguei atrasado.

2) Do alto dos meus trinta e tantos anos (isso já faz um tempinho), observava a juventude representada em quatro (muito jovens) estudantes de Arquitetura (a mais velha deveria ter, no máximo, dezoito anos) e percebi, de repente, que sou um tio. Fico sabendo desta minha condição através de um elogio. As estudantes, quase nem se pode dizer fossem adolescentes, esbanjavam saúde em todos os sentidos e preenchiam o ar com sua beleza e alegria. Comentavam entre si, em voz alta e despreocupada, o quanto eram legais e divertidas duas colegas da turma apesar de serem velhinhas. O que deveria ser um anacronismo, quase um choque de gerações, era levado na conta de um fator a mais de integração e de amizade.

Também considerei a situação interessante: sempre causa estranheza pessoas idosas ocuparem espaços ou exercerem tarefas que a nossa sociedade consigna como sendo prioridade absoluta de pessoas com limite de idade. Como se esse limite fosse garantia de serviço contra uma velhice gasta, cansada e ineficiente. Causa, portanto, uma estranheza maior ainda, benéfica, admirável, ver aquelas jovens aceitando, gostando até dessa convivência com pessoas as quais elas se referiam como “experientes” e “legais” .

O problema foi quando entendi a idade das referidas “velhinhas” : uma tinha 35 anos e a outra 40. Safa! Cáspite! O que significaria, então, a idade de 60, 70? 100? Extravagância da natureza? Mereceriam estas o mesmo “respeito” ou provocariam somente espanto e uma certa condescendência própria da crueldade juvenil?

Mulheres de 40 anos são velhas; eu, de trinta, sou “tio”, já descartados em sua classificação da vida pelo sistema etário.

Pronto, já estou falando como um velho!

 

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2 Comentários em “Uma questão de idade?”

  1. Fransueldes Says:

    Manda essas estudantes ir lá na minha academia ver as “velhinhas” levantando peso. Um dia uma delas bateu nas minhas costas e disse: “Aqui não é fisioterapaia não, meu filho. Bota peso nesse ferro!”. Quanto ao tio, é só pensar em outra língua. Na Espanha se usa “tio” como a gente usa “cara”. Lá você é O CARA!

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    • Claudinei Vieira Says:

      Fran, não adianta muito. A questão da palavra ‘tio’ não se resume ao vocábulo em si, você bem sabe: é o seu sentido (definido pelo contexto e agravado por quem o diz, como o diz, e o formato de sua boca. quanto mais feminina mais cruel). Com certeza, em espanhol deve haver o equivalente deste nosso ‘tio’, com o mesmíssimo significado. Se você souber ou ficar sabendo algum dia qual é, por favor, não me diga. Realmente não faço questão de saber.
      e essa da ‘fisioterapia’… ai, ai, sem comentários. é só por isso que não frequento academia de ginástica.

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