Dr. House, Jack Bauer, e as novas séries norte-americanas: “A Gifted Man” e “Homeland”

Comentários impertinentes sobre o que está rolando na nova leva de seriados norte-americanos.

A Gifted Man     Médico frio e arrogante, um cirurgião de alta classe que só trata de pacientes ricos, começa a receber ‘visitas’ do fantasma de sua ex-esposa, que lhe pede para concluir alguns trabalhos que ela nâo pôde resolver antes de morrer.

Dr. House é um marco na história da televisão. Os roteiros são fracos, os personagens caricatos, as situações exdrúxulas, as histórias são quadradas e esquemáticas. A explicação para tamanho sucesso e repercussão é a atuação extraordinária de Hugh Laurie que consegue conferir uma dimensão insuspeita e uma imensa humanidade a um personagem que, com qualquer outro ator, seria simplesmente insuportável. Méritos para o ator e para a produção que soube valorizar seu maior trunfo e cercá-lo com um mínimo de qualidade (como, pelo menos, uma companhia de atores coadjuvantes de bom nível), mesmo que tenha perdido bastante fôlego nas útlimas temporadas (e, felizmente, está acabando nesta oitava temporada, antes que descambe de vez).

Por outro lado, Hugh Laurie é o responsável (mesmo que indireto) por uma praga que grassa pelos seriados: a busca por um novo House, o gênio ranzinza, cínico e antissocial (quando não solitário) que passa por cima das leis mesquinhas de uma sociedade burocrata, quebra regras moralistas simplórias (para ele) para poder resolver seus casos, mas que no fundo, no fundo, tem um imenso coração (retraído e / ou magoado e / ou temeroso de se abrir). Claro que não foi Laurie a inventar o tipo; na verdade, boa parte da cultura norte-americana foi criada em cima de um mítico self made man que ultrapassa as barreiras das pessoas de alma pequena que o rodeiam, muitas vezes para ajudar estas mesmas pessoas que, a príncipio, o desprezaram.

Mas Laurie despejou tanta força e carisma no seu personagem que estabeleceu uma espécie de patamar, um nível de qualidade (e sucesso) invejado e perseguido. O que deu vazão a uma corrida engraçada por este patamar. Algumas (pouquíssimas) vezes chega-se perto. A Dra. Temperance Brennan (Emily Deschanel), a antropóloga forense que auxilia o FBI do seriado ‘Bones’, o especialista em comportamento Dr. Cal Lightman (o magnífico ator Tim Roth), de ‘Lie to Me’ (infelizmente cancelada na terceira temporada), ou o gênio matemático Charlie Eppes (David Krumholtz), de ‘Numb3rs’, são exemplos de variações bem sucedidas do gênero House-de-ser. Em geral, no entanto, os resultados são patéticos, ou até mesmo ridículos.

O médico Michael Holt, vivido por Patrick Wilson, de ‘A Gifted Man’, é uma cópia xerográfica de House. Cético, arrogante, rico, autocentrado aos limites do egoísmo, isolado (seu único ‘amigo’ é um alcoolátra viciado autodestrutivo), Holt teve os únicos momentos de alegria verdadeira e ‘humanidade’ quando esteve casado com Anna (Jennifer Ehle), também médica, mas preocupada com as mazelas dos desprotegidos e engajada nos trabalhos sociais de assistência para a população mais pobre, serviço que ele abertamente despreza.

Divorciados, passam anos sem se ver, até que certo dia, ‘por acaso’, encontram-se, batem papo durante a noite inteira e, quando ele cogita uma tentativa de reaproximação, ela se despede e vai embora. Ok. O grande choque, que tira o mundo debaixo dos pés do Dr. Holt, é quando de manhã, descobre que, na verdade, Anna havia morrido em um atropelamento na semana anterior. Entre se convencer de que não não estava ficando louco e consultar uma espécie de xamã para mandar embora aquele ‘encosto’, ele fica sabendo que Anna está com trabalhos inconclusos, tarefas que precisam ser terminadas para que ela encontre paz e por isso lhe pede ajuda. É mais do que evidente, portanto, que, sob a orientação de Anna, seu envolvimento com essa gente ‘pobre’ e ‘feia’ e, principalmente, sem dinheiro, fará com que o Dr. Holt repense suas opiniões, sua vida e seu universo.

‘A Gifted Man’ é, então, uma mistura de ‘House’ (pelo personagem principal e pelos casos raros que acontecerão em sua clínica chique), ‘Plantão Médico’ (o dia a dia da clínica dos ‘pobres’) e ‘Ghost’ (em que ela é o ghost), com pitadas de Paulo Coelho, com suas máximas pseudofilosóficas e positivistas, e dependendo do que eles enfocarem, entrará igualmente um ‘Nosso Lar’. Resta saber se a mistura resultou tragável ou se gorou no meio de tanta pretensão.

O piloto é bem realizado. A produção é mediana e a direção de arte é feliz em mostrar de forma eficiente as diferenças de tom e clima entre a clínica asséptica e impessoal do prédio de Holt em contraste com o caos e a sujeira da ‘clínica dos pobres’. O roteiro é equilibrado, mostra os personagens aos poucos e com boa construção; mesmo para um piloto comprido, com a duração de um longa metragem comum, os personagens inevitavelmente estão à espera de um melhor desenvolvimento (o que deve acontecer nos episódios posteriores, se forem bem sucedidos), mas mesmo rasos percebe-se que possuem profundidade, há algo pelo qual se pode esperar novidades. Os bons atores ajudam nisso e a direção simples e discreta de Jonathan Demme valoriza a trama, com emoção mas sem exageros melodramáticos.

O problema continua sendo a procura-por-House. Patrick Wilson faz uma interpretação correta, em boa medida para um médico cético (provavelmente, ateu) que precisa se conformar de que a) fantasmas existem e b) precisará descer do seu pedestal de ouro para por a mão na massa e na sujeira da miséria humana. No entanto, para os propósitos desta série, uma boa interpretação, correta simplesmente, não é o suficiente. Deveria ser espetacular, marcante, impossível de ser esquecida. Ou simpática ou empolgante. E não é nada disso. Dr. Holt é mais um House genérico, e Patrick Wilson é correto, nada mais. Bem longe de Hugh Laurie.

Com isso, a sensação ao final do piloto de ‘A Gifted Man’ é de mediocridade, de meio-tom, de falta de coragem ou de vontade de maiores arroubos. Bacaninha, simplesinho, levemente emocionante e com nada que realmente convença a querer continuar assistindo. Vá em frente os interessados. Eu passo.

Homeland

Um fuzileiro naval, dado como morto, é resgatado de uma prisão iraquiana depois de oito anos de cativeiro. Uma agente da CIA , no entanto, suspeita de que ele é um terrorista convertido que planeja um novo e grandioso atentado.

O ataque às torres gêmeas impôs um pesado tributo, não somente militar e politico. Repercutiu em toda sociedade, influenciou todas as mídias, fez parte de todas as artes, assim como no cinema e na televisão. Só bem recentemente começou a diminuir a ideologia da doutrina Bush de exaltação (e ira) patriótica, demonização dos muçulmanos, de perseguição racista, de caça aos terroristas pela sua cor de pele, filiação política ou crença religiosa, além do cerceamento de liberdades civis em nome da segurança nacional. Há poucos anos, seria impensável um filme como ‘Zona Verde’ (Green Zone, 2010) que diretamente diz que a existência de armas de destruição em massa no Iraque foi uma grande mentira, ou ‘No Vale das Sombras’ (In the Valley of Elah, 2007) que contesta a suposta aura heróica que se empresta aos soldados norte-americanos (e este filme, mesmo com a presença de astros como Charlize Theron e Tommy Lee Jones, teve muita dificuldade para ser colocado em circuito).

Em todos os seriados, houve a influência e o peso da ideologia, sem dúvida. Em algum episódio, pelo menos, jogava-se a referência, discutia-se o choque, ou perseguia-se um novo terrorista, desbaratava-se mais um plano de atentado, ou reconhecia-se mais um perigo nacional. Em maior ou menor nível, todos foram ‘combatentes’, mesmo que nem todos tenham sido tão exaltados como Jack Bauer. A julgar-se por Hollywood, milhares de atentados em território locais foram abortados por abnegados e destemidos anônimos heróis norte-americanos. Em ‘Blue Bloods’, uma família de veteranos policiais em Nova York, logo após desbaratar mais uma célula terrorista entranhada no centro da cidade, discute como os habitantes novaiorquinos são felizes em não saber a quantidade e o tamanho dos perigos que correm todos os dias.

‘Homeland’ dá um passo além e, sem vergonha, alegremente assume a paranóia direitista reacionária. O sargento da marinha Nicholas Brody (Damian Lewis) e seu parceiro são dados como mortos durante uma operação no Iraque. Depois de oito anos de sua suposta morte, ele é encontrado em condições miseráveis como um prisioneiro, resgatado e levado para casa, tratado como herói (e os militares bem sabem como precisam de exemplos heróicos nestes tempos de refluxo do entusiasmo pelas suas guerras). No entanto, uma agente da CIA, Carrie Mathison (Claire Danes, em extraordinária perfomance), tem indícios que a levam pensar que o sargento, depois de anos de tortura física e psicológica, acabou sendo convertido sob o comando de um líder terrorista máximo e planeja se valer de sua posição agora privilegiada de novo herói para perpetrar um grandioso atentado.

Os indícios de Carrie, porém, são muito leves e não lhe dão base para uma investigação séria sobre o sargento. Além do mais, ela não é bem quista pelo seu chefe carreirista e de mente limitada, com quem bateu de frente tempos antes, e foi transferida do seu trabalho de campo no Afeganistão para um serviço burocrático. E, para completar, ela ainda esconde de todos um histórico médico de problemas mentais. Sem poder contar com apoio oficial, ela assume a vigilãncia por conta própria e faz instalar câmeras e microfones ocultos na casa do Sargento, grampeia seu telefone, filma e grava seus movimentos, mantém-no em vigilância plena (mesmo que limitada pelos parcos recursos), durante as vinte e quatro horas.

A direção tensa e de sufocamento psicológico dá o tom. Nada é agradável nessa história. A fisionomia impassível do Sargento Brody pode esconder um traidor filho da puta ou simplesmente um soldado que foi barbaramente torturado. Sua família está decomposta: seu filho mais novo nem se lembra mais dele; a filha adolescente é (obviamente) uma rebelde desbocada e impaciente, e sua mulher Jessica (Morena Baccarin) (que acreditava ser viúva há muito tempo) transa com um colega militar do marido. Desde o início do episódio somos simpáticos à agente Carrie e sua luta (infrutífera) para salvar a vida de um informante. Mas à medida que acompanhamos sua crescente paranóia e sua perseguição dos detalhes íntimos da vida do sargento, vamos nos incomodando com sua insistência. Para Carrie, vale passar por tudo e por todos para provar sua tese e deter sua própria decadência pessoal.

O roteiro não é nada sutil ao sugerir que ela está correta. Não estou dando nenhum spoiler aqui, pois o episódio é recheado de flashbacks do sargento, de suas memórias no cativeiro, que contradizem sua fala pública. A trama é muito bem montada e articulada: as cenas com o sargento são demoradas e lentas; as com Carrie são nervosas, rápidas e recortadas, refletindo exatamente o estado de ânimo e a personalidade dos personagens.Os atores estão bem (inclusive Morena Baccarin que continua linda e graciosa, como a esposa incapaz de lidar com sua filha, faz sexo casual com o amante, e tem seu mundo revirado de cabeça para baixo ao descobrir que, afinal, não é viúva).

O show, no entanto, é de Claire Danes. Ela consegue passar toda a angústia de uma pessoa que tenta reconstruir sua posição e sua carreira, além de sua própria sanidade, suas dificuldades de relacionamento, sua incapacidade de lidar com o mínimo de atividade comum (como escolher uma roupa para sair). Ela não é simpática, está à beira do desespero, é doente (só não sabemos o quanto) e ficamos em dúvida sobre a validade de suas opiniões. O que o episódio quer nos convencer é que, apesar disso tudo, apesar de sua ambígua heroicidade, e de suas possíveis psicoses, precisamos ficar do lado dela, mesmo que seu personagem nos afaste e não nos reconheçamos nele. O texto bem escrito, a direção segura, e principalmente a ótima interpretação de Claire nos convence.

É nesse ponto que ‘Homeland’ passa pelo ponto que outras séries não cometeram. Porque quando a agente Carrie monta seus grampos ilegais e persegue a vida do sargento podemos ficar incomodados com sua aparente desmedida, mas no final tudo é justificável perante a revelação de um possível terrorista. Vale o que for necessário, inclusive violar os direitos de qualquer pessoa. A invasão de privacidade não é nada perante a segurança nacional. Neste sentido, é magistral a cena em que a agente Carrie ouve a cena de sexo entre Brody e sua esposa na primeira noite de sua volta à casa: por mais que incomode a ela (e a nós) escutar aquele momento tão íntimo (e naquela cena, tão doloroso) não há no rosto de Claire nenhuma dúvida que ela continuará ouvindo até o final. Custe o que custar, seja para quem for.

Poderia se dizer que Jack Bauer fazia isso e muito (muito!) mais, como torturar, matar e ficar viciado em cocaína, tudo também em nome da segurança, e sem nenhum remorso. Certo, é verdade, mas além de nada obstar que a agente siga o mesmo caminho, há duas diferenças fundamentais: em primeiro lugar, Bauer é um personagem caricato, um estereótipo, um superherói de videogame com 195 vidas para gastar, que sempre está correto em suas suposições, não dando margem para a dúvida. Mesmo quando está errado, bom, ele faz por estar certo. Ou mata quem disser o contrário. Carrie Mathison é o extremo oposto. Ser humano falível e paranóica, inteligente mas com a vida no buraco, psicótica quase insana, não é nada confiável ou segura. Mesmo que a estranhemos e rejeitemos, sabemos que ela é mais real, mais ‘possível’. No final das contas, podemos nos reconhecer nela, como seres humanos. Se ela estiver errada, e ferrar com a vida de um inocente, vai ficar na merda, sem volta.

A segunda e enorme diferença é o momento: ‘24 hs’ começou em 2001, exatamente no ano do atentado em Nova Iorque, fazendo com que os produtores pensassem se não seria melhor cancelar a série. Não o fizeram e o fato é que Jack Bauer acabou se valendo do clima de beligerância histérica (além de todas suas qualidades técnicas e artísticas incontestáveis) e se consolidou como um herói que mais atendia às necessidades psicológicas do norte-americano naquele exato momento. Em 2011, ‘Homeland’ se localiza no refluxo do apoio incondicional à lógica militarista. A crise econômica faz duvidar da validade de quaisquer antigas promessas políticas; os mesmos velhos esquemas de direcionamento ideológico não estão sendo facilmente engolidos, e o governo Obama conseguiu ser ainda mais decepcionante do que qualquer um poderia esperar, à direita e à esquerda. Neste clima de descrédito e cansaço, o que ‘Homeland’ diz na prática é que não importam os direitos, náo importam os ‘detalhes’ de uma sociedade supostamente democrática e livre (como podem comprovar os manifestantes da ocupação de Wall Street). Contra os terroristas, quaisquer terroristas (afegãos, iraquianos, iranianos, palestinos, o coreano da esquina, ou aqueles manifestantes da ocupação de Wall Street) vale passar por cima de qualquer coisa e qualquer um.

Eu estou de saco cheio dessa mensagem. ‘Homeland’ é uma bela peça, bem montada e azeitada, de pura propaganda reacionária, no formato de um ótimo suspense psicológico. Gostei da peça, ela é realmente bem feita. Mas cansei da mensagem. Eu passo.

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