Conan, Conan, o que fizeram contigo, Conan?


A mais nova versão das aventuras de Conan, o cimério, realizou um feito interessante: a rapidez fulgurante e quase unânime com que foi considerado o pior filme da temporada de blockbusters do ano. Quem sabe, da década. Fazendo parte de uma seleta companhia, não muito respeitável, de ‘Cowboys e Aliens’ e ‘Lanterna Verde’. A briga vai ser dura para se decidir qual a maior furada e ‘Conan’, mesmo como o lançamento mais recente, já abre com vários pontos à frente.

Apesar do que possa parecer, no entanto, não estou aqui para malhar o bárbaro, nem quero participar do linchamento midiático que corre pelas ondas internéticas. Exemplos de críticas mal humoradas vocês encontrarão facilmente pelos sites e blogs dedicados ao assunto. Compartilho da maioria delas, mesmo considerando que boa parte é realizada de um modo um tanto sádico, como se estivessem se divertindo em pisar em cachorro morto e isso me deixa um pouco agastado; afinal, é fácil falar mal de filme ruim. Fico mais próximo de algumas pessoas que revelam uma certa melancolia em apontar os defeitos, como se doesse um pouco realizar esse trabalho. Em geral, imagino, são pessoas que eram crianças ou muito jovens na época do Conan Schwarzenegger (talvez a idade perfeita para se conhecer o guerreiro cimério e o ano, 1982, ideal) e se entusiasmaram com o clima gótico e violento de uma bela fantasia capa-e-espada-bruxaria, e tinham a esperança de se abrir um novo caminho para estas histórias. Nem precisava que surgisse um novo clássico cinematográfico, bastava um filminho bom, que incentivasse os produtores de hollywood a investir em sequências. A desilusão e a decepção destas pessoas também são as minhas.

‘Cowboys e Aliens’ e ‘Lanterna Verde’ não foram citações aleatórias. Junto com ‘Conan – O Bárbaro’, todos partiram de algumas bases em comum: são grandes produções, com bastante dinheiro envolvido; são personagens criados e reconhecidos em outras mídias, com bastante sucesso; participação de grandes astros-chamarizes para as multidões ou, no caso de Jason Momoa, uma aposta alta na criação de um futuro astro (ex-grande promessa, agora?) secundado por atores de respeito; design de produção muito bonitos e funcionais (se estão à altura de suas pretensões é outra história). E, claro, o maior ponto em comum: são fracassos colossais. Mas, além dessa constatação óbvia, o que mais pode ser dito em relação aos outros pontos da produção?  O que eu gostaria de saber é se há outros elos que os ligam que possam explicar (ou, ao menos, dar uma dica) de porque essa velha bruaca experiente de Hollywood consegue se afundar tanto.

Personagens
Um bom começo é a questão do respeito ao material original. Pelo simples fato prático de que o personagem já foi experimentado, já teve seu curso testado e existe uma turma de pessoas que o consideram como próximo. Além do mais, ao longo dos anos houve um acúmulo crescente de histórias e enredos que já fizeram suas experiências com o público; algumas deram certo, outras não, moldando e indicando caminhos e desaconselhando outros. Mesmo com a inevitável e indispensável adaptação para a linguagem cinematográfica, há uma forma de se adaptar o personagem ou introduzir mudanças sem ferir sua essência.

Well, Hollywood tem verdadeiro pavor com essa história de respeito. É uma vala, um buraco negro, para o respeito. Se o original é bom ou teve uma repercussão positiva, foi só porque os produtores ainda não chegaram e o transformaram em produto realmente popular. Se o material é ótimo ou fez muito sucesso (como se sabe, uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra), então é porque tem alguma coisa de errada que precisa ser consertada, de imediato e só os produtores Sabem fazer isso.

As exceções de quando o respeito prevalece são exatamente isso: exceções. Homem-Aranha e seu lançador de teia natural, os X-Men e seu sóbrio uniforme preto no lugar dos collants de cores berrantes, são bem conhecidos por promoverem mudanças que agradaram até mesmo os fâs antigos. Os furos e erros cometidos nas histórias acabam sendo relevados porque os personagens foram bem tratados e conduzidos.

Inclusive o ‘Conan’ de 1982 tomou diversas liberdades com o personagem clássico criado por Robert E. Howard em seus contos e desenvolvido mais tarde em décadas de histórias em quadrinhos. O diretor John Millius misturou o enredo de diversos contos, apresentou um vilão também criado por Howard mas para outro personagem, e mesmo o musculoso e monossilábico Arnold Schwarzenegger não tinha nada a ver com o inteligente, esguio e competente Conan da literatura. O contexto geral, no entanto, foi tão bem montado que a imagem do bárbaro austríaco acabou suplantando a imagem do original.

E quanto aos 3pi (‘os três piores filmes de 2011’)?

Como dito, os três são adaptações. Os quadrinhos de ‘Cowboys e Aliens’ não li, portanto não posso opinar a qualidade de sua transposição, mas digo que tinha  boa expectativa com a premissa inusitada de se misturar dois gêneros tão incompatíveis na aparência, o western e a ficção científica, desse conflito poderia sair algo muito interessante se bem trabalhado. Não sei se o problema com a pouca profundidade dos personagens e seu péssimo desenvolvimento já vinham do original ou se foi uma ‘contribuição’ do cinema, mas em verdade, desde bem antes, eu já tinha ouvido falar muito mal da hq (o que me desestimulou de ir atrás da revista) e havia até um certo ar de surpresa de que tivessem resolvido adaptá-la (o que foi considerado como mais uma prova da atual falta de criatividade em Hollywood).

A figura de Jason Momoa é mais próxima do Conan original do que Schwarzenegger jamais foi. Se Momoa, pelo menos, conseguisse falar direito… Arnold quase não falava (ainda bem), mas contraditoriamente isso ajudava a tornar sua representação mais … bárbara. Momoa fala mais, e sem nenhum peso, sem ameaça. Arnold não sabia lutar e seu uso da espada era patético (mas funcionava). Momoa faz piruetas. E, se em 1982, o argumento principal fugia da literatura e misturava as histórias, em 2011 foram para as estrelas, esqueceram e deixaram de lado qualquer enredo anterior e inventaram um que está mais para ‘O Senhor dos Anéis’ do que para Conan. Uma tristeza, enfim. No entanto, a ambientação, os cenários, a produção de arte, no geral, são muito bons, um dos únicos pontos positivos que posso destacar.

‘Lanterna Verde’ segue à risca o original. O enredo, a origem do superherói, a milícia e a mitologia dos guardiões verdes, são uma representação fiel dos quadrinhos.

Atores
Em todos os 3pi os atores foram mal aproveitados, seus personagens inadequados e pessimamente desenvolvidos, e sua atuação desperdiçada. Quando atuam bem, o filme faz naufragar sua interpretação.

Tim Robbins (perdido, perdido) e Peter Sarsgaard, Mark Strong com seu magnífico Sinestro e Blake Lively (bonitinha, mas sem sal), no ‘Lanterna Verde’. Não considero que Ryan Reynolds tenha feito um mau papel, creio que seu Hal Jordan está sim dentro do aceitável. Ele só não ajuda. Não atrapalha mas não acrescenta nada.

Gosto de Daniel Craig, gosto de sua atuação, aprecio sua presença, e acredito que haja uma grande dose de má-vontade quando dizem que não sabe atuar. Discordo. No caso de ‘Cowboys e Aliens’ diz-se que ele está inadequado, sem carisma ou expressão. Discordo novamente. O que ele faz é o estrito necessário do que lhe foi ordenado e mais nada. Talvez com uma direção mais forte, com verdadeira mão de ferro, ele rendesse melhor. Não teve essa direção, ele não retribuiu. Harrison Ford e Olívia Wilde, por outro lado, esbanjam carisma e simpatia, mesmo em filminhos merrequefes desse naipe. Ford, no entanto, não é um bom ator (nunca foi) e sua transformação de um (bem feito) vilão para um homem-duro-que-passa-para-o-lado-do-bem é tão mal realizada que constrange o ator e o público. E Olívia Wilde é linda, parece ser muito boa atriz e deve render muito ainda; o que precisa é escolher projetos que realmente valorizem sua presença e sua atuação porque, por enquanto, está perdida. E tantos ótimos atores em volta, como coadjuvantes em ‘Cowboys e Aliesn’, tão desperdiçados…

Pior ainda em ‘Conan’. Não compartilho da antipatia generalizada que existe contra Jason Momoa, não acho que ele seja a pior coisa do filme, mesmo com aqueles esquisitos olhos pintados (ator fraco, sim, mas se pensarmos que Schwarzenegger nunca foi um primor de interpretação, dá para relevar). Uma pena é o pouco tempo de Ron Perlman, cuja presença é sempre marcante. Mas doloroso mesmo é o desperdício criminoso da bela Rose McGowan que compôs uma feiticeira impressionante, de fortíssimo impacto visual, com muitas possibilidades e caminhos a seguir, mas cujo roteiro pífio joga fora, sem piedade. Assim como todos os demais personagens e atores.

Roteiro
ah, o roteiro. Essa é uma unanimidade entre os 3pi. Em ‘Lanterna Verde’, apesar do argumento inicial consistente, o roteiro é mal fechado, as resoluções são ridículas, os conflitos mal resolvidos, desenvolvimento de personagens nulo. Não nos reconhecemos nem nos apegamos, muito menos nos importamos, nem com o personagem principal, e em um filme de superherói, bom, isso é trágico. Em ‘Cowboys e Aliens’ o roteiro é fútil, preguiçoso mesmo, não se importa (ou é incompetente) em cobrir incoerências e buracos enormes, o ritmo é desigual, lento demais em certas partes (nunca denso ou relevante), chato até, contrapondo com cenas de lutas sem graça e rápidas em demasia, sem capturar emoções ou sustos aproveitáveis.

E tudo isso ainda é um primor em comparação com ‘Conan’. Nos outros dois ainda há uma pequena preocupação em alinhavar as situações em um todo que tenha um mínimo de coerência. Em ‘Conan’ não existe essa preocupação. Há uma boa introdução (que nos remete de imediato ao filme de 1982, é praticamente uma refilmagem) e depois somente uma sucessão ininterrupta de cenas de ação e de lutas, mal coreografadas e filmadas, com poucos efeitos especiais de qualidade, com nenhum aprofundamento, tanto na história quanto nos personagens, nenhum senso de ritmo. Talvez o único grande propósito tenha sido o de torturar o público. Se for o caso, então foram vitoriosos.

Direção
ah, a direção. Fraca no ‘Cowboys…’, péssima no ‘Lanterna…’, despreparada, ridícula, quando não ausente e irritante, no ‘Conan’.

– Sublime sucessão de filmes realizados com altíssima expectativa que resultaram em fracassos retumbantes. O pior é que nem são do tipo ‘ruins / mas / tão / toscos / que / acabam / sendo / divertidos’. Não. São somente ruins. Ou gozo para sadomasoquistas.

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2 Comentários em “Conan, Conan, o que fizeram contigo, Conan?”


  1. Rindo muito com “Arnold quase não falava (ainda bem), mas contraditoriamente isso ajudava a tornar sua representação mais … bárbara.”

    beijo!

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