Miss Angola, Miss Universo e Miss Preconceito

Leila Lopes, angolana e negra, conseguiu na noite de última segunda-feira, dia 12, o título de Miss Universo e o universo racista se revoltou.

Não gosto desse concurso, não assisto nem acompanho. Além de ser uma óbvia objetificação da mulher ao seu nível mais rasteiro, ainda é um show chato de doer. O fato de a nova miss ser uma negra africana me chamou um pouco a atenção, registrei o fato em minha mente e deixei passar. No mesmo dia, as manifestações racistas começaram a aparecer e confesso que fiquei espantando com a violência gritante. Não com o racismo em si, mas sua profundidade e ódio.

Logo, a blogueira Mariafrô divulgou a imagem mandada por uma leitora de um comentário postado no facebook de um racista carioca (Miss Leila Lopes e o racismo no facebook). E em São Paulo um site neonazista abria um fórum com opiniões do tipo “Angolana? Depois falam que não é resultado arranjado, é pura cota, podia por uma macaca para competir que ganharia também, foi totalmente aleatório mas tinha que ser uma das pretinhas, pela mor… Alguém assistiu essa porcaria? Serio?” ou ainda “Outro membro escreveu em inglês “monkey in a dress? absolutely revolting” (macaco em um vestido? absolutamente revoltante)“. (G1: Miss Universo 2011 sofre racismo em site que ostenta suástica nazista)


No facebook, comecei uma conversa interessante com minha amiga Camila Rodrigues e os comentários me ajudaram a organizar meus pensamentos e minhas idéias sobre isso. Transcrevo aqui, com a permissão da Camila, o que discutimos:

(pequenidades) Desabafei no facebook sobre esta reportagem, que achei ser duas vezes lamentável!

Sinceramente, eu lamento que em 2011 ainda exista uma coisa deprimente como concurso de miss universo, que coloca as mulheres como bonecas disputando pra saber qual é a mais “bonita”, sendo que todos sabemos que as mulheres ocupam (e muito bem) outros papéis na sociedade real : muitas sustentam família, exercem profissões que até há pouco eram só domínio masculino, ocupam cargos importantes…aqui no Brasi,nas últimas eleições, como eu li em um excelente artigo escrito na época pela minha amiga Lidiane, vimos aflorar tão claramente o preconceito contra a mulher como nunca pois tivemos duas mulheres candidatas a presidência! Uma delas ganhou a disputa (que não era por beleza, não) mas até hoje sofre com comentários insinuando que ela não possui atributos que caracterizariam uma mulher (como beleza, delicadeza, etc). Como esquecer que a mulher mais comentada na posse de Dilma foi a esposa do Michel Temer ( aquela que o Zé Simão chamou de Paquita)… que mundo machista nós vivemos, né? Eu, como mulher negra, infelizmente, também não me surpreendi nada com os ataques racistas, afinal parece tratar-se de uma africana, não é isso? E é o seu corpo negro (como os corpos dos afro descendentes em todos lugares) que é tomado como a única coisa a ser levada em consideração, afinal ela é negra, o que mais ela tem para oferecer?! Infeliizmente eu aposto que o UNIVERSO do qual esta moça é “miss” não a aceitará assim tão facilmente neste lugar, e muito menos permitirá que ela venha a ocupar um outro papel. É uma pena!”

Camila, eu não tenho discordância em nenhuma vírgula que você colocou. O concurso foi mesmo constituido para colocar a mulher sendo julgada somente pela sua aparência e atributos físicos, sem nenhuma relação com personalidade e capacidade. As mulheres estão lá para serem ‘bonitas e burras’, e a prova disso é o momento das perguntas e das respostas sem noção das misses, deprimente ‘comprovação’ de sua beleza e burrices (e, por extensão, de todas as mulheres).

Por outro lado, sempre considerei um absurdo e uma tremenda falta de lógica tentar encontrar uma ‘beleza’ que seja considerada a ‘melhor’ e ‘superior’ universalmente. Mesmo quando mais jovem, eu ficava espantado como as mulheres neste show eram e ainda são tratadas como pedaços de carne, onde só faltam aqueles ganchos de açougue para lembrar de vez uma exposição de carne bovina pronta para churrasco. E também não me conformava com um ‘espetáculo’ que é tudo menos divertido, nem mesmo meus anseios masculinos e machistas eram satisfeitos, pois a apresentação de tudo é pesadamente assexuada. E, além do mais, além da questão ideológica e social, pelo ponto de vista do ‘entretenimento’ a coisa toda é de uma breguice e de uma chatice absurdas, nunca consegui assistir a coisa até o final.

Este ano, eu só fiquei sabendo que o concurso havia acontecido porque alguns amigos assistiram e postaram aqui pelo facebook e pelo twitter, comemorando que a miss escolhida foi uma negra de Angola. O fato de que em tantos anos de concurso de miss universo, essa angolana foi somente a terceira (ou quarta) mulher negra a ganhar o concurso já diz tudo sobre a concepção sobre ele.

Ok, isso acima foi para dizer que concordo contigo. A questão, Camila, é que eu não estava me referindo ao concurso em si. O ataque e a misoginia homicida racistas não ferem nem se referem somente às participantes do concurso, mas todas as mulheres. O que surpreende não é o racismo acéfalo em si, óbvio, o que me chocou foi o tamanho e a profundidade da virulência e a raiva (canina) demonstrados. E a apatia e as reações mornas. Não me conformo que se diga que as atitudes racistas eram ‘esperadas’ e ‘inevitáveis’.

Também não se trata aqui de se defender um concurso imbecilizante e misógino (e igualmente racista em sua essência). Estou me lixando para o concurso de miss universo, acho que esse universo respiraria mais livremente se ele fosse extinto (o que está bem longe de acontecer). O problema não é uma Miss Universo de origem angolana negra ter sido atacada por racistas. É de uma Mulher Negra ser atacada, rebaixada e ameaçada de tal forma. E para responder a isso não basta dizer que era inevitável ou que não vale a pena por conta de ser um concurso de beleza: tem que ser tratado como tal, como crime, e seus autores devem ser presos e condenados e lançados para a vergonha universal.

Menos que isso é complacência.

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2 Comentários em “Miss Angola, Miss Universo e Miss Preconceito”

  1. Fernanda S. Says:

    Virulento e necessário Claudinei! Continue com a boca no trombone, amigo!

    Curtir


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