Um copo que cai

 

O copo caiu com uma lentidão absurda. Escorregou da minha mão, atravessou uma massa de ar compacta até atingir o solo e espatifar em centenas de cacos e cobrir o chão com cerveja estilhaçada; antes disso, ficou paralisado e desafiou a lei de gravidade,  zombeteiro e louco objeto suspenso.

Fiquei calado, tentando entender o acontecido, o meu companheiro de balcão de bar deu risada, colocou a mão no meu ombro: ‘Que louco, meu. Até parece que caiu em câmera lenta, né?’ Repito: sem que eu tivesse dito nada. Olhei ao redor e mais ninguém tinha prestado atenção, todos ocupados com suas próprias dimensões.

Eu era muito jovem e tinha começado a frequentar bares, estava pronto para os porres tremendos que ainda viriam bem depois. Tinha consciência que sofreria revertérios, perdas de memória, quem sabe até alucinações.

Só não estava preparado para essa súbita e impressionante parada no tempo em um bar na madrugada. Mesmo naquele momento, eu já sabia que nunca mais veria uma queda de um copo tão bonita.

 

 

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